Misticismo, magia e o mundo secular

Começo por dizer que não estou muito confortável com este título. Talvez porque o tenha escolhido antes de escrever o texto, para me recordar de o fazer, e porque reflecte apenas a superfície ou uma ramificação das ideias que me proponho abordar. Veremos onde me leva o bater das teclas…

A linha de raciocínio é antiga mas os acontecimentos que a fizeram despertar são relativamente recentes. Começo por enunciá-los, mostrando assim um pouco do processo associativo que conduziu a estas palavras agora escritas:

  • Há cerca de 3 semanas terminei de ler o livro «Religion for Atheists» do Alain de Botton;
  • Passada outra semana, «sem querer» e sem ter tido a consciência imediata da possível ligação, até porque estávamos a trabalhar, tive uma conversa interessantíssima com um colega e amigo onde abordamos o tema;
  • O Ricardo Araújo Pereira escreveu na sua habitual crónica da revista Visão, no dia 19 de Julho, uma peça com o título «Igreja Universal do Reino do Empreendedorismo».

A componente mais antiga, profundamente pessoal e que me acompanha há tanto tempo que nem capaz sou de precisar quanto, prende-se com dúvidas, desconhecimento e não concordância com uma visão do mundo que se fundamenta em princípios mágicos e místicos. Importa confessar que me considero um céptico curioso. O que me leva a ter uma postura de questionamento, indagação e busca de compreensão daquilo que imediatamente não concordo, que não faz parte das minhas capacidades de observação e interpretação e/ou simplesmente não gosto à partida. Não me limito a recusar aquilo não conheço ou concordo nem tampouco me satisfaz ter uma explicação final. Gosto de as ir construindo.

Creio que o que me incomoda mais é a superficialidade, a demasiado fácil aceitação e acomodação de explicações abrangentes, simplistas e que aparentemente resolvem «o mistério» da vida. Aquilo que chamei em tempos de *fast food* intelectual.

Lembro-me de, num passado não muito distante, considerar as religiões como o exemplo óbvio e que melhor ilustrava este sentimento. Hoje não penso assim.

Sinto necessidade de abrir um parênteses para clarificar um aspecto. Imagino que quem leu estes últimos parágrafos poderá ter ficado com a imagem e expectativa de que serei um indivíduo defensor da ciência e do seu método. Eu próprio me inclinaria para construir essa opinião até porque não é uma completa inverdade. Importa por isso esclarecer que, apesar de me considerar um homem de ciência, sem saber bem o que isso quer dizer, sou bastante crítico quanto a grande parte da ciência que se tem feito e se faz. Exploraremos este ponto adiante.

Fechado o parênteses, acredito que a maior parte das religiões têm na sua base valores e ideais que conduzem ou induzem práticas que visam uma sã convivência social, a introspecção e reflexão individuais que produzam frutos para o desenvolvimento pessoal e colectivo, no fundo, à prática e evolução dos princípios morais e éticos. Poderíamos resumir dizendo que procuram e promovem o contacto e consequente conhecimento da condição humana. A religião não é o problema, têm sido os homens, os supostos criadores e «utilizadores» da religião, que sob o seu estandarte têm feito as maiores tropelias. Tanto a História como o presente o comprovam. Enfim, também este lado é parte da condição humana. A desumanidade é parte da humanidade.

No seu último livro, Alain de Botton deixa a ideia que o mundo secular não sabe e não tem as competência para nos ajudar a praticar esses valores. Algo que a religião faz bem e há muito tempo. Que rituais não religiosos temos para praticar a amizade, a fraternidade, a ajuda ao próximo, o altruísmo? Ele alude às teorias da aprendizagem, comprovadas por alguns estudos científicos e ideias actuais, para dizer que precisamos de praticar esses valores da mesma forma que praticamos e desenvolvemos as competências pessoais e profissionais que o mundo secular moderno exige. A religião oferece, e fa-lo bem, um conjunto de rituais e de rotinas que permitem praticar os referidos valores e competências. Para o autor, ser ateu é não acreditar – para mim será não ficar satisfeito – na explicação religiosa, mágica ou mística de nós e do mundo. Isso não invalida que se admire, procure compreender e aproveitar aquilo que as religiões têm de bom e podem trazer de positivo para todos nós, até para os ateus.

A sensação que tenho e que sinto ser partilhada por muitos, nomeadamente por algumas gerações contemporâneas com as respectivas idiossincrasias, é que há uma falência de valores. Aliás este tema tem sido explorado exaustivamente. Este sentimento tem levado muitos a procurar explicações e práticas alternativas. Nada disto é novo, basta olhar para o movimento *hippie* para estabelecer uma espécie de paralelo e poder verificar que este sentimento desconfortável é cíclico e acompanhou grandes mudanças de paradigma ao longo dos tempos. A onda do «alternativo» tampouco é novidade. Vivemos, afinal, na era da auto-ajuda que se inclui num conjunto de situações que me assustam, preocupam e me têm ocupado. Vejo-as ligadas.

O Ricardo Araújo Pereira captura muito bem, no seu estilo satírico e sempre inteligente, aquilo a que me refiro. Identifiquei-me de tal forma com o que escreveu que ainda não desapareceu o desejo de ter sido eu a escrever aquele texto!

Hoje a religião é a do tempo. Como «tempo é dinheiro» este último também entra na equação. O paradigma vigente é o da produtividade, do empreendedorismo, da pro-actividade, do crescimento, do lucro, do bem-estar e da felicidade. Tudo combinado e juntando o sucesso social e financeiro daria a vida perfeita, segundo os padrões actuais.

De reparar que nenhum dos «princípios» enunciados, com as excepções do bem-estar e da felicidade, parecem enquadrar-se bem num contexto religioso. Tenho também percepção que o desejo por uma vida em que segue e adopta este paradigma parece ganhar um sentido de urgência com a conjuntura actual. Também por causa dela, da conjuntura, parece cada vez mais difícil conseguir reunir condições para empreender, para ser produtivo, fazer mais dinheiro com menos tempo de trabalho, para aumentar o equilíbrio entre a «vida pessoal» e a «vida profissional» atingindo simultaneamente o bem-estar e a felicidade.

Não admira que muitos se sintam atraídos por estas vidas, que se deixem entusiasmar e iludir por este tipo de discurso. Para afastar dúvidas basta abrir uma rede social, com especial enfoque para o Facebook, para encontrar intermináveis *posts* com frases inspiradoras e que em grande parte dos casos revelam pouca inspiração, citações descontextualizadas de grandes e pequenos pensadores, etc.; basta visitar a Fnac e verificar a quantidade de títulos de auto-ajuda; ver e ouvir uma palestra TED; participar num dos muitos *workshops* ou consultar um dos demasiados terapeutas que praticam uma das centenas de terapias, novas e velhas. Um infindável role de vómitos pseudo-intelectuais e pseudo-filosóficos. Afinal, este texto, cuja plataforma onde foi publicado liga automaticamente às as redes sociais, corre sérios riscos e tem todas as condições para se enquadrar nessa categoria.

Voltando à ciência, concretamente à neurociência, hoje exploram-se ideias que vão no sentido que aquilo que vivemos, que a forma como atribuímos sentido às coisas, que o que somos poderá não passar de uma ilusão. Continua-se a seguir a «mania» cartesiana de separar corpo e mente, o objectivo do subjectivo, as sinapses, os neurotransmissores, as regiões cerebrais e suas funções da sua expressão subjectiva na nossa vivência.

À semelhança do que acontece com a religião, nem tudo na ciência e no seu método é mau. A indagação, a ocupação com encontrar um contexto e uma história para as hipóteses que se formulam são essenciais. Já disse e escrevi que acredito que não há grande diferença, ou mesmo nenhuma, entre as grandes questões humanas consideradas clássicas e aquelas que continuam por responder hoje. Será uma ilusão esperar que as dúvidas e inseguranças que nos assolam sejam originais, apenas nossas. Há uma probabilidade enorme, para não falar em certeza, de que alguém já se perguntou e em alguns casos chegou a respostas que nos influenciaram a todos.

Por outro lado, aproveitando muito a moda das neurociências, a «onda alternativa» procura teorias integradoras e de compreensão holística do ser humano mas que são suportadas por pensamentos mágicos, quase transformando-se num novo sentido religioso.

Há de facto fenómenos que nos transcendem, que ultrapassam a realidade física e que são de difícil aceitação e compreensão. Talvez parte do problema venha de uma angústia fundamental que nos leva a uma procura de explicações cabais e universais e a uma necessidade excessiva de controlo. Acredito que essa transcendência, ou poderei chamar de espiritualidade, não tem de estar necessariamente ligada a um pensamento magico, místico ou religioso. Creio que o mundo subjectivo dos afectos e imensamente complexo e rico e que antes de o explicar ou controlar há que o viver e conhecer bem, através da experiência individual.

Costumo dar um exemplo dizendo que acredito na vida para além da morte. Que essa impressão que deixamos perdura na memória dos outros. Memória essa que é guardada fisicamente, tem expressão afectiva e é transformada pelo seu «portador».

Para mudar o rumo, porque acredito que é necessário, sei que eu preciso de encontrar o meu, há que considerar uma alternativa ao «fenómeno alternativo» e à corrente científica actuais. Há que recuperar valores, práticas e princípios que hoje se acredita não fazerem parte do nosso tempo.

Pense-se no lugar da Filosofia. Antigamente era uma prática, um estilo de vida que inspirava indivíduos e ajudou a construir civilizações. Actualmente é uma disciplina seguida por indivíduos condenados ao desemprego. Será?

Resta ainda muito por pensar, por dizer e por escrever. Muitas associações deixei por explorar. Vou dar tempo. Porque essa será também uma forma, acredito, de mudar de paradigma. Caso contrário continuarei com a mesma avidez, a mesma que critico, para conseguir chegar a uma explicação que me satisfaça e me apazigúe esta boa angústia que acredito partilhar com todos os seres humanos. O que não quer dizer que todos dela tenhamos consciência.

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