Eu não seria metade de quem sou se não fossem os museus que visitei ao longo da vida
Conhecer seus acervos e percorrer exposições temporárias ajudaram a formar meu caráter e contribuíram praticamente com 90% de toda bagagem cultural que tenho. Visto que costumo ver mais mostras do que ler, ouvir música ou ir ao cinema.
Sou profundamente grata à minha tia caçula que me levou pela primeira vez à Pinacoteca quando eu tinha 13 anos. E também à minha professora de artes do primeiro ano do colegial que motivou toda a turma a visitar a 25a Bienal de São Paulo. Essas duas iniciativas foram extremamente transformadoras na vida daquela adolescente que morava na periferia de Barueri, estudava em escola pública e até então então tinha lido poucos livros, ido apenas uma vez ao cinema e de arte só conhecia Tarsila do Amaral.
Ir a museus se tornou o entretenimento mais barato que poderia ter e que minha mesada de 10 reais por mês poderia pagar. Afinal, a entrada da maioria deles era gratuita ou pagando meia não me custava mais do que 4 reais. Sendo assim poderia visitar até dois por mês. Mas optava por escolher os dias de entrada gratuita para poder visitar mais.
Nunca me esqueço do dia em que vi o Rodin, na Pina, o Palatnik, no Itaú Cultural, a Kara Walker, na Bienal, a Regina Silveira, no MAC USP, o Cildo Meireles, naquela grande mostra do Brasil 500 anos, a Yoko Ono, no CCBB, o Flexor, na FIESP. Tudo isso foi antes de completar a 2a década de vida com pouco dinheiro na carteira e quase sem conhecimento nenhum de arte, mas com uma curiosidade enorme. Cada trabalho que via me fazia voltar para casa cheia de perguntas e instigada a conhecer mais e mais.
No começo, recorria aos educativos de todas as exposições. Tinha medo de me aventurar sozinha pelos corredores e salas das instituições e me sentir demasiadamente ignorante. E também ficava receosa de perder alguma informação importante da obra que minha experiência adolescente fosse incapaz de captar.
Como sou grata a todos os educadores que disponibilizaram seu tempo comigo para trocar informações sobre arte, que valorizaram meus achismos e me motivaram a chegar em casa e pesquisar mais.
Os museus por fora são imponente. Algumas obras exigem bastante fosfato do público. Mas quando você ultrapassa as barreiras e se permite, pode entrar num mundo sem volta. Um universo instigante e encantador. Procure por assunto que goste mais, respire fundo e vá. Sem medo. Pergunte pelas visitas educativas dos museus. Se achar que ainda pode ser dureza, me chama! Vai ser um prazer apresentar esse universo, que é tão caro a mim, a você.
Abaixo alguns museus e institutos que selecionei por temas de acervo para você começar.
Arte do século XIX
Se você gosta de pinturas de paisagens, cenas históricas, retratos, pinturas impressionistas… precisa visitar o acervo da Pinacoteca e do Masp. Na Pina, você vai encontrar os melhores exemplos do que era produzido no Brasil antes do Modernismo. Almeida Jr., Pedro Alexandrino e até esculturas do Rodin tem por lá. No Masp, é possível encontrar os melhores exemplos da arte internacional, como Manet, Monet e Renoir. Na Pina, a entrada é gratuita aos sábados, e no Masp, às terças.
Modernistas
Quer ver Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Portinari e cia? Eles estão na Pina e também no MAC USP. O acervo do MAC guarda pérolas do modernismo mundial, como esculturas de Henry More e de Max Bill. O acervo precioso, que um dia foi do MAM, mas que ainda nos anos 60 foi doado para a universidade, tem uma coleção interessantíssima de artistas concretos, como Lygia Clark e Helio Oiticica. O MAC é gratuito todos os dias.
Arte contemporânea
O MAC USP foi um lugar importante para as artes visuais dos anos 70. E guarda trabalhos chaves de artistas conceituais, como Regina Silveira, Leon Ferrari, Julio Plaza. As primeiras experimentações com vídeo feitas por artistas, em São Paulo, acontecerão nesta instituição. Um acervo rico e vasto que ocupa os oito andares do museu. Mas se você quer se aventurar no está sendo feio agora nas artes visuais basta atravessar a passarela e visitar a 33a Bienal. A entrada é gratuita.
Fotografia
O Instituto Moreira Salles tem o melhor acervo de fotografia do Brasil. Não há uma mostra fixa da coleção no prédio da Paulista. Porém a programação é caprichada e tem sempre exposições temporárias de bons fotógrafos em suas salas. No momento, trabalhos de Irving Penn ocupam dois ambientes do instituto. E se você quer conhecer a fotografia moderna brasileira, corre até o Itaú Cultural, onde acontece uma retrospectiva de German Lorca, um dos principais fotógrafos do país. As duas instituições têm entrada franca.
Mobiliário
Quem gosta de ver peças de mobiliário e decoração tem de visitar o Museu da Casa Brasileira (que está correndo risco de ser despejado!!!), Fundação Ema Klabin e Fundação Maria Luiza e Oscar Americano. As três instituições foram casas de pessoas importantes da alta sociedade paulista e guarda mobiliários de época e também as coleções de arte de seus respectivos moradores.

