Exit, Regina Silveira
Há muitas formas de contar a trajetória de uma pessoa. A escolha feita pelo curador Cauê Alves para mostrar os caminhos percorridos por Regina Silveira foi muito interessante. Exit, em cartaz no Mube, expõe o percurso da artista por meio de seus labirintos, tema ao qual se dedica desde os anos 1970.
Se seguirmos a ordem das obras da exposição, iremos das experimentações mais recentes com realidade virtual e projeções às gravuras feitas no período em que morou em Porto Rico na década de 1970. Porém, eu preferi fazer o caminho inverso: experimentar, com os olhos, encontrar as saídas nos labirintos de papel até chegar ao de realidade virtual e senti-lo com o corpo todo. A instalação tecnológica, porém, não funciona muito bem porque o espectador ficar preso pelo fio do capacete de realidade virtual. Ficamos sedentos para adentrar naquele labirinto, mas estamos presos em sua porta.

É interessante pensar que o tema dos labirintos surge no trabalho de Regina logo após uma forte ruptura com a trajetória de pintora à qual se dedicava no Rio Grande do Sul, seu estado natal. A saída para Porto Rico pareceu estratégica. Em um momento em que a ditadura apertava no Brasil e o Franquismo ainda deixava os ares tensos pela Espanha, a ilha americana no Caribe demostrava ser um campo mais aberto para que ela e seu então marido, o artista espanhol Julio Plaza, desenvolvessem suas poéticas.
Se a proximidade com os Estados Unidos ajudava para que ela ficasse próxima do que estava sendo feito na vanguarda da arte, a rotina intensa de aulas que ministrava na universidade porto-riquenha também exigia bastante da artista. Que caminhos, naqueles anos, haveria para as artes? Qual percurso Regina teria de percorrer para encontrar alguma saída? Existiria uma saída?

Em seus labirintos não há soluções. Há becos sem saídas. Há sufocamento na multidão de pessoas presas em Middle Class & Co (primeiro trabalho em a artista se apropria de uma imagem já existente para inserir em sua obra). Há encontros com serpentes, motoqueiros, abutres que desenham outos labirintos para o espectador se perder. Se clima era confuso quando Regina começou a se dedicar ao tema, quase 50 anos depois, a proposta continua atual.
Vale lembrar que os labirintos também são assunto caro ao argentino Jorge Luis Borges, uma forte inspiração para Regina Silveira. Em Elogio da Sombra, de 1969, no poema El Laberinto, ele diz:
No habrá nunca una puerta. Estás adentro Y el alcázar abarca el universo
Y no tiene ni anverso ni reverso
Ni externo muro ni secreto centro.
E assim também são os labirintos de Regina Silveira, onde a melhor saída é se perder. Ainda mais em tempos tão obtusos.


