
Corpos Conflitantes
ENSAIO de Nilmar Lage, Pré-Selecionado
Ao falar do processo de formação sociocultural do Brasil, Darcy Ribeiro (Povo Brasileiro,1995) abre o capítulo “Classe, cor e preconceito”, falando de corpos conflitantes. Para ele, “nossa tipologia de classes sociais vê na cúpula dois corpos conflitantes, mas mutuamente complementares. O patronato de empresários… e o patriciado…” Nessa hierarquia de classes proposta por ele, representada por um losango, ao invés da conhecida pirâmide, haveriam outras subdivisões: “formando a linha mais ampla do losango das classes sociais brasileiras, fica a grande massa das classes oprimidas dos chamados marginais… Seu desígnio histórico é entrar no sistema, o que sendo impraticável, os situa na condição de classe intrinsecamente oprimida, cuja luta terá de ser a de romper com a estrutura de classes. Desfazer a sociedade para refazê-la.”
Por essa luta diária, por uma busca constante de reconhecimento e direitos, o termo “corpos conflitantes” foi realocado para esse grupo que representa a minoria com poder econômico, mas maioria na composição desse “povo brasileiro”. Sérgio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil (1936), diz que podemos assinalar dois princípios que se combatem e regulam diversamente as atividades dos homens: “para uns, o objeto final, a mira de todo o esforço, o ponto de chegada, assume relevância tão capital, que chega dispensar, por secundários, quase supérfluos, todos os processos intermediários. Seu ideal será colher o fruto sem plantar a árvore.” Essa seria uma definição superficial para que ele chama de “aventureiro”. O “trabalhador”, para Hollanda, “é aquele que enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar.
O esforço lento, pouco compensador e persistente, que, no entanto, mede todas as possibilidades de esperdício e sabe tirar o máximo proveito do insignificante, tem sentido bem nítido para ele. Seu campo visual é naturalmente restrito. A parta maior do que o todo.” É dessa maioria que sofre com descuidos e descasos generalizados e que se aloja na periferia de regiões abastadas dos grandes centros, ou em bolsões de seca e até mesmo em cidades históricas do chamado “circuito do ouro”, locais onde o real e a realeza não fazem mais o mesmo sentido de outrora, que se fala em “Corpos Conflitantes”. O ensaio é uma organização dos principais trabalhos que desenvolvo, fazendo um recorte amplo de fotos inéditas, mesclando com outras já apresentadas.










