Deslocação

ENSAIO de Fernando Maia da Cunha, Pré-Selecionado

Olho no olho, andando pelas vielas da comunidade carente do Pirambú em Fortaleza, olhares de crianças me afetaram profundamente e ao ser olhado, olhei através das lentes este relacionamento se concretizou, o espaço fluido que constrói imagens que me levaram a buscar novas relações com a comunidade e com as pessoas, a imagem que solidifica a relação humana. O olhar do outro que me olha e se concretiza na imagem.

A relação identidade/alteridade aparece diretamente entre a relação dos personagens com seu espaço. Na travessia diária pelo metrô, todos os dias nos deparamos com várias pessoas. Um formigueiro humano. Mas ninguém conhece ninguém, a solidão está presente, de casa para o trabalho, visita a familiares e ida a compromissos, diariamente vivemos a solidão, que cria um vácuo, um não-lugar, um horizonte totalitário no qual não há espaço para a alteridade. Por muitas vezes nos colocamos sozinhos, fugindo dos olhares e do outro encontrando na memória um espaço fugidio.

Mas, será que o meu Eu, a memória, tem potência de ser o sujeito desta alteridade? Neste espaço de deslocamento dos nossos corpos, são criados instantes onde o tempo para, o eu se depara com a memória e busca outras realidades livres de territórios e de temporalidades, anacronismos que criam realidades satisfatórias e novos mundos, de solidão e também de contato com o outro, criando um espaço em conjunto. Nunca o mundo esteve tão deserto. A população aumenta na mesma forma em que o deserto dos afetos.

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