Jorge Ressignificando Amado

ENSAIO de Valdemir Cunha, Pré-Selecionado

Como nasce a imagem? Nesse processo criativo ela surge a partir de palavras. Textos que estruturam e dão forma à fotografia. Essa narrativa visual têm como ponto de partida a leitura: tudo é construído como quem lê uma ficção e vai ambientando a história — cenário, personagens, luz, contornos dramáticos.

Ao longo de dez anos, a obra de Jorge Amado foi o norte. Cada leitura, um mergulho diferente. Cada livro, uma interpretação inédita. Esse universo apresentado pelo escritor baiano permitiu a criação de um outro: uma releitura imagética de suas obras.

Toda essa pesquisa gerou um livro de fotografia documental com uma certa libertinagem estética. Mas, para minha surpresa, o universo que imaginei após ler e reler Jorge Amado, apareceu no lixo gráfico que vi ao acompanhar a impressão do livro tradicional. Entre a impressão de um caderno e outro, folhas de cadernos anteriores são usadas para “limpar” a impressora e isso gerou sobreposições aleatórias de várias imagens. Enquanto aprovava um livro, me via inquieto com o que se espalhava pelo chão da gráfica.

Os dez anos de leitura me fez perceber imediatamente que esse processo de “limpeza” da impressora era justamente a liga de tudo: aquele universo imagético que criei sobre a obra de Jorge Amado estava ali exatamente de baixo dos meus pés. O chão da gráfica estava coberto de um emaranhado de personagens jorgianos e seu universo um tanto quanto surrealista e fantasioso que imaginei.

Aqui não sou mais o documentarista que dá chão à ficção respaldando com realidade a obra de um escritor. Nesse trabalho está meu olhar à Bahia. Não só da Bahia de Amado, mas da terra que é a gênesis do povo brasileiro. Do verdadeiro povo brasileiro.

Dessa vez a imagem não foi construída. Nasceu e foi reconhecida. Colhida e reinventada numa nova narrativa.

Assim se fez amado RESIGNIFICANDO Jorge.

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