Notas do Subterrâneo

ENSAIO de Camilo Otero, Pré-Selecionado

O mundo de dentro de um vagão

O metrô do Rio transporta aproximadamente oitocentos mil passageiros por dia. Uma multidão de desconhecidos entregues aos seus pensamentos, ao cansaço e à agonia das grandes cidades. Em uma época de insegurança, a desconfiança é a regra geral que guia os relacionamentos urbanos. Quase não nos olhamos diretamente, evitamos o contato. Cada um vive em seu mundo particular, ausente, distante.

As pessoas são fotografadas de forma indireta, sempre mediadas pelos vidros das janelas e das portas. A partir de reflexos ou protegido pela transparência do vidro, retrato esse universo, propondo uma linguagem que destaque os vários aspectos desse ambiente e crie uma metáfora com a realidade externa.

Os passageiros confinados no metrô e protegidas — os reflexos revelam parte do que são. A vida urbana é dura, o metro é um não espaço, apenas um meio de se chegar a um outro lugar. Assim, no subterrâneo, de alguma forma, as pessoas se livram de suas máscaras sociais e revelam seu estado de ânimo. Apesar das imagens serem mediadas, se estabelece contato, e essa proximidade distante permite que se veja sobre as superfícies.

Com a transparência, é possível enxergar além, mas falta a proximidade, o contato. Só se pode ver a superfície das pessoas, seus espectros. Eles são iguais a nós, mas a distância os torna diferentes.

A mediação do vidro cria um efeito etéreo na nossa visão, perturbam o olhar — enxergamos sombras e não as pessoas. Próximas ou distantes, não podemos entender o que se revela a nossa frente, temos apenas indícios: o que é real e o que é imaginário?

De dentro do vagão também percebemos o um mundo externo, um mundo ameaçador que não nos convida a interagir socialmente. Ele está lá, fragmentado e próximo a nós e intangível

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