O Grande Vizinho

ENSAIO de Rodrigo Zeferino, Pré-Selecionado

Caso sui generis na história da arquitetura modernista brasileira, a cidade de Ipatinga, no Vale do Aço mineiro, foi planejada e construída em meados da década de 1960 em sincronia com a usina siderúrgica que abriga. O município é fundado em 1964, marco da história política nacional, e se desenvolve dentro da formalidade que um regime militar e uma disciplina industrial exigem.

Considerada uma das maiores do mundo, a planta situa-se no centro geográfico da cidade. Diferentemente dos habitantes nativos — habituados à onipresença de chaminés e altos-fornos fumegantes no skyline ipatinguense — qualquer visitante sofre estranhamento ao notar a proximidade entre área urbana e indústria.

Como cidadão ipatinguense, passei minha juventude olhando com naturalidade para essas estruturas colossais. Contudo, desde que voltei à cidade, após alguns anos morando fora, minha atenção estacou na incongruência desse amálgama arquitetônico e de como a cidade se relaciona com tudo isso.

Na construção deste trabalho, me submeto à solicitude de moradores e proprietários de estabelecimentos que permitam certa invasão de privacidade. Para evidenciar a condição de proximidade entre cotidiano social e atividade siderúrgica, posiciono no primeiro plano da imagem as janelas e sacadas das edificações — situadas num raio de 2 km da indústria. Requisito a participação de “figurantes” em cena, em horários rígidos — nas horas mais escuras — além de exigir que fiquem imóveis para que resistam o mais nitidamente possível à longa exposição.

A escolha por fotografar à noite traz as motivações pessoais de quem cresceu ouvindo o mito do “monstro noturno”, lenda urbana segundo a qual, enquanto a cidade dorme, a fábrica lança na atmosfera quantidades multiplicadas de resíduos — uma suposta “tramoia” estimulada pela suposição de que menos gente estaria observando. Ainda viva no imaginário popular, a quimera do “céu escarlate” é na verdade fruto da ilusão óptica causada pela refração e reflexão das luzes — lâmpadas de vapor de mercúrio — que iluminam ambas, usina e cidade, gerando uma aura de tons quentes sobre o perímetro urbano, fundindo fumaça, vapor e nuvens.

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