Pixirum

ENSAIO de Ricardo Ribeiro, Pré-Selecionado

“29/10/2016: São Pedro / Engenho
 No barquinho estreito e carregado onde me preparava para uma longa viagem rio acima, pensei no meu pai; ele que sempre cobrou segurança a bordo teria ficado horrorizado com a situação. Depois pensei no meu irmão e na discussão sobre sobrevivência na selva que uma vez tivemos quando sozinhos no escuro no Rio Araguaia. No caminho, porém, todos esses pensamentos se dissiparam sem que eu percebesse; um rio liso apareceu na madrugada fresca sem vento e refletia com perfeição o céu estrelado sem lua, além disso eu só via a silhueta azulada da proa do barco cortando o Arapiuns.”

São Pedro é uma comunidade ribeirinha no Rio Arapiuns, no Estado do Pará, que, para minha sorte, apareceu no meu caminho. Relativamente isolada até então pela geografia e pela limitada disponibilidade de eletricidade, ela se encontra no limite de uma ruptura com um passado calcado na família, na religião, nos costumes e no trabalho comum. Seus integrantes, em especial os mais jovens, beneficiados pelas políticas bem-sucedidas de transferência de renda das últimas duas décadas e pela difusão da informação, rejeitam agora esse modelo tradicional, não se resignam diante do destino pré-definido e homogeneizado de seus ascendentes e assim, para o bem ou para o mal, impõem duras transformações à comunidade.

A história de São Pedro a ser contada por meio destas imagens é a história pouco contada de milhares de brasileiros que há séculos perseveram isolados na Amazônia. É uma história de vida simples e de morte, de pouca comida e de partilha, de memórias, de crenças e tradições, e de transformações recentes, enormes transformações. Ao mesmo tempo, é uma reflexão sobre mim mesmo, sobre a minha relação com as pessoas e o lugar que fotografo, e sobre as transformações indeléveis que o trabalho impõe ao meu modo de ver e de sentir.

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