Santomensanto

ENSAIO de André Sodré, Pré-Selecionado

Este ensaio pretende colaborar com a discussão semiótica sobre a frágil relação entre a coisa “real” e a imagem fotográfica que o representa, além de dar margem a uma reflexão sobre o poder do mito e sua construção imagística.

Os santos e seus martírios, suas funções sociais na comunidade enquanto seres humanos comuns são transportados para os dias atuais, levando em consideração os símbolos e suas representações no imaginário da fé. Uma leitura critica da santidade, elevando o ser humano a um altar sagrado. O fato das imagens serem extremamente manipuladas recria uma mitologia própria, adaptada a era da informatização, ao mesmo tempo em que aproxima o homem daqueles que os cultua como santidade há séculos.

O ensaio apresenta dez retratos de homens e mulheres levando como titulo o nome adotado por um santo, além de uma representação do Gênese. Sebastião, o soldado traidor. Damião e Cosme, os enfermeiros. Francisco, o andante. Miguel, o jagunço de Deus. Pedro, o porteiro do céu. Jorge, o matador de dragões. Conceição, a concepção. Benedito, o padeiro e Cristovão, o transportador. Formam as imagens deste ensaio.

Este projeto levanta ainda a discussão sobre a natureza da representação fotográfica que ocupa os textos de um grande número de teóricos, inspirando teorias estruturalistas e semióticas. Problemática esta que se torna ainda mais contundente quando passamos a analisar o fato de a fotografia sempre trazer consigo o seu referente, aquilo que ela representa. Não podendo ser separada deste sem destruir sua qualidade representacional como afirma Roland Barthes. A ontologia modernista sustenta que a natureza particular da fotografia consiste em sua relação indicial ou iconográfica à realidade.

As relações sociais passaram a ser mediadas pela imagem e a fotografia colaborou de forma primordial na criação do olhar moderno e consequentemente na formação psicológica da sociedade, em especial das comunidades urbanas. Quando “a mais fiel analogia da realidade” não cumpre este papel e passa a transformar a realidade habitual, cria-se uma frustração da expectativa de vermos, como um espelho, a nossa realidade ontológica e como consequência passa-se a negar este tipo de imagem.

Este ensaio pretende fomentar esta discussão, pois as imagens digitais, constituídas por uma trama de pixels, já não mantém uma relação física ou causal com a realidade. Mesmo com a popularização da imagem digital e a utilização que as mídias fazem dela, continuamos confiar nas informações que elas nos proporcionam. A aceitação da fotografia digital tem demonstrado que a verdade da imagem não está relacionada à sua ontogênese.

Estas imagens com complexas produções, manipuladas e recriadas a partir de cenas e objetos reais, infringindo a visão fotográfica habitual, criam um mundo novo a meio caminho entre a ficção e a realidade para além do quadro representativo da fotografia e do mito representado pelo conteúdo que exibem.

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