
Serpentear
ENSAIO de Aline Macedo, Pré-Selecionado
Uma mulher deseja livrar-se do peso de ser sempre uma só e então ver-se corpo outro a habitar espaços. O desejo propõe a experiência de algo além do conforto inerente ao ato de se performar com cabelos longos e cacheados, marca definidora de sua identidade por todos aqueles que a conheciam. A câmera foi mediadora do processo — rito de despedida que registra aquilo que vai em breve desaparecer. A metáfora da transformação é representada pela mudança na forma dos cabelos — o corte — e atua como símbolo da ruptura com a cobrança social a qual as mulheres são submetidas constantemente pela mídia e pela sociedade, que impõe modos e modas para as figuras femininas. Um corpo investiga suas bordas: molda-se ao espaço do frame, compõe grafias e geometrias, interage com o que tange, o que comporta e o que o limita.
Desafiar a forma.
Empreender a cisão.
Aceitar ser o novo.
Transfigurar as próprias identidades.
Cortar os cabelos pode ser um ato de conformismo aos padrões estéticos, mas pode, também, ser uma forma de fazer morrer partes da gente, uma forma de renascer após a poda das raízes.






