Sobre Nós por Todas

Paraty Em Foco
Jul 25, 2017 · 4 min read

ENSAIO de Camila Cavalcante, Pré-Selecionado

Nós Por Todas é um projeto que que explora a ideia do corpo feminino como território de confrontamento. Apropriando-se do momento político histórico, o projeto investiga as consequências da limitação aos direitos reprodutivos das mulheres.

A ilegalidade do aborto no Brasil tem apenas três exceções: para salvar a vida da mãe, em casos de anencefalia e em casos de estupro. Entretanto, existem seis projetos de lei e emendas constitucionais que propõem dificultar o acesso ao aborto legal no país ou pretendem torna-lo completamente ilegal. Apesar da proibição, pesquisas recentes feitas pela Universidade de Brasília sugerem que uma em cada cinco mulheres de até 40 anos já fizeram pelo menos um aborto no Brasil.

Diante desse contexto, há pouco mais de um ano eu criei uma rede de colaboradoras: mulheres que fizeram um aborto ilegal ou que foram testemunhas de outras que fizeram o procedimento. Essas mulheres se uniram para dividir comigo suas experiências e opiniões sobre o tema, com suas identidades preservadas. Eu tirei autorretratos segurando e abraçando essas mulheres, em suas casas, de costas para a câmera, enquanto eu exponho meu corpo e minha identidade em nome delas. Depois de impressas, as fotografias sempre devem ser vistas ao lado de frases que foram selecionadas durante as entrevistas que eu fiz com cada colaboradora. A palavra escrita é importante para dar voz às estórias, criando assim uma espécie de manifesto íntimo e político.

Nós Por Todas é um projeto em andamento que começou durante minha participação na Residência Artística Despina, no Rio de Janeiro. Os Títulos se referem ao ano em que essas mulheres viveram de alguma forma a experiência do aborto ilegal.

As frases que acompanham cada fotografia seguem:

Nós Por Todas em 2005: Você enfrenta julgamento em todas as etapas, do início ao fim. No caminho que eu percorri, eu não encontrei uma pessoa que me entendeu; que me apoiasse na situação.

Nós Por Todas em 2011: É direito da mulher. É a expressão de sua autonomia; a reclamação intransigente do poder sobre o próprio corpo e sobre a determinação do próprio destino. É a superação definitiva da maternidade como destino biológico.

Nós Por Todas em 2011–2: Eu fui embora sem saber se eu voltava, como iria ser, sem poder dizer a ninguém, torcendo para que ninguém me procurasse naqueles dias.

Nós Por Todas em 2001: O peso moral é algo que tem que ser desconstruído no discurso mesmo, no conhecimento das experiências de outras pessoas. Ele está plantado em você desde que você nasce e você tem que reagir contra essa moralidade.

Nós Por Todas em 1998: Quando a enfermeira olhou para mim, eu senti todo o peso e todo o julgamento que uma mulher pode carregar por estar fazendo isso sem ter o amparo da lei e da saúde.

Nós Por Todas em 1982: Hipocrisia é a palavra certa, a gente sabe. Isso é uma coisa que acontece. As mulheres fazem e fazem da pior forma possível: clandestina, correndo riscos, morrendo.

Nós Por Todas em 2006: Eu passei muito mal, gritava de dor. Minha mãe também ficou do meu lado, desesperada, segurando minha mão sem saber o que fazer.

Nós Por Todas em 2001: E quando o homem não assume o filho, como é chamado? Esse aborto masculino socialmente é legalizado. É muito cruel.

Nós Por Todas em 2013: Aborto é uma coisa que ninguém quer fazer. Ninguém passa por isso tranquila.

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Convocatória Portfólio em Foco 2017

Página dedicada à divulgação dos trabalhos selecionados na Convocatória Portfólio em Foco 2017, realizada pelo Festival Paraty em Foco

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