
Sonhos de Terra, Memórias de Casa
ENSAIO de Pedro Amorim, Pré-Selecionado
Como alguém se lembrará do hoje em duas ou três décadas?
Vivemos da caminhada entre origens e destinos, mas nunca escapamos da eloquência de nossa memória, que nos traz de volta aos espaços e tempos de nosso início, subitamente lembrando-nos das coisas que estavam conosco no começo de tudo. Na Zona da Mata mineira, jovens e crianças Sem-Terra vivem seus sonhos e lutas no presente, mas olham igualmente para o futuro. Para estas pessoas, a lembrança das lutas, dos enfrentamentos com o poder dos latifundiários e da opressão diária junta-se com aquelas de tardes azuis, de seus pais e amigos de movimento, das brincadeiras e caminhadas pelas terras recém-ocupadas. São memórias que participam também da cultura dos Sem-Terra, evocada em reuniões, composições ou rodas de capoeira. São aquelas que os acompanharão na vida adulta e na velhice, lembrando-os sempre de valores e ideais apreendidos com a vivência do agora, quando o sonho de conquista da terra torna-se realidade ainda frágil, mas promissora. Minha busca é por uma documentação imagética dessas futuras recordações.
A memória não obedece às leis temporais pelas quais somos regidos. É imaginação e realidade em um só plano, plano presente-futuro-passado. A memória é nossa primeira forma de documentação e por ela construímos nossas identidades. Gravamos instintivamente tudo que nos parece relevante. O compromisso com o factual, no entanto, dá lugar ao lírico e ao nostálgico, construções ficcionais das realidades passadas. Assim também ocorre com estas fotografias de memória, cuja essência reside na dualidade entre o que reproduzimos do mundo à nossa volta e nossa própria forma de interpretá-lo. A imagem surge da vontade do fotógrafo de tornar memória aquilo que registra. Memória subjetiva sua e da gente que retrata, memória de sonho da qual a imagem produzida é âncora, é seu isto foi. Imagino e apresento essas possíveis memórias, momentos que nossos personagens levarão do agora. Entre a verdade e o sonho, este ensaio aspira ao afeto, às imagens da infância e juventude de futuros adultos aos quais a luta do MST será legada.










