Imagem: @martius (flickr)

A história por trás da história: leia os sinais

Desculpe começar assim, mas não tem como ser diferente. Preciso agradecer às mais de 4 mil pessoas que leram meu último texto (aqui e lá no Pulse do LinkedIn) e em especial àquelas que ainda dedicaram mais alguns minutos pra me escrever sobre suas visões e me dar dicas. Marco Oliveira e eu não nos conhecemos, mas lá nos comentários ele me indicou o livro que agora está sobre minha mesa (Um bom par de sapatos e um caderno de anotações), e isso é maravilhoso. Muito, muito obrigado.


Pronto, agora podemos falar sobre papel higiênico e comida congelada. Não vou explicar nada por enquanto, e é melhor nem tentar nesse momento juntar as duas coisas. Não espere pelo óbvio. Comecemos por aí, nosso amigo Caldas Aulete diz que óbvio é o “que salta à vista”. É o que tá ali na superfície. Fácil de ver e prontinho pra te enganar. Quando olhamos para as coisas (e para as pessoas), nosso primeiro impulso é tentar traduzi-las e dar a elas um sentido. O problema: se fizermos isso rápido demais, não escaparemos da superfície. E quem você enxerga na superfície do lago, Narciso? Você mesmo.

Não se deixe distrair por sua imagem refletida e mergulhe.

Imagem: Narciso de Caravaggio por @centralasian (flickr)

“As coisas são como são. Se alguém diz que está calmo, é porque está calmo. Se alguém diz que te ama, é porque te ama. Se alguém diz que não vai poder sair à noite porque precisa estudar, está explicado. Mas a gente não escuta só as palavras: a gente ouve também os sinais.” — Martha Medeiros

É preciso descobrir a história por trás da história. Foi assim que outro dia me vi tentando entender o porquê do consumo de papel higiênico no Brasil ter caído nos últimos meses. Ao sair da superfície, descobri uma triste realidade: quanto menos um país consome papel higiênico, maior a desigualdade social entre seus habitantes. Ao contrário do que vemos hoje, na década passada, houve um grande aumento no consumo desse item. Segundo Marcos Vital, economista do BNDES, há uma relação direta entre o fenômeno e a expansão de renda das camadas mais pobres da população. Por isso, o caminho contrário também é verdadeiro. Se a gente tentar entender com a nossa lógica, talvez não consiga compreender como o aumento ou a diminuição de renda poderia alterar a decisão de compra de um item tão básico. Entretanto, se você ganha 600 reais por mês e passa a ganhar apenas 300, tudo muda de lugar, não é mesmo? Empatia é algo bem mais sério do que “experimentar o sapatos do outro”.

Imagem: @m01229 (flickr)

Mês passado fiz a curadoria de conhecimento para um evento da Câmara Americana de Comércio. Dentre os palestrantes tivemos o Antônio Salvador, Vice Presidente de RH do Grupo Pão de Açúcar. Das várias coisas importantes que ele comentou, um dado chamou minha atenção: o grande aumento do consumo de comida congelada nos mercados do grupo. Estranho né? Não deveria haver diminuição de consumo, num contexto econômico como o atual? Óbvio e errado. Vamos sair da superfície? As famílias de classe média estão mudando seus gastos e uma das principais medidas é deixar de comer fora de casa. Com esse cenário, duas coisas estão se expandido: delivery e comida congelada.

Se procurarmos a história por trás da história, vamos enxergar os sinais. Com eles, ou com uma coleção deles, alcançaremos três coisas mais facilmente:

  1. A compreensão real do comportamento das pessoas.
  2. As tendências de comportamento e consumo.
  3. A ligação entre duas situações aparentemente muito diferentes, mas que no nível das engrenagens simbólicas, estão fortemente relacionadas.

É a esse item 3 que Steven Johnson, em seu livro Como Chegamos Aqui, dá o nome de efeito beija-flor. Não é borboleta, gente! Mas esse já é um assunto para o próximo texto. Enquanto isso, explore o mundo lá fora, olhe atentamente e não se esqueça de mergulhar.

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