A pobreza, o prazer de ler e o Dia Mundial do Livro

Como um bom livro, o dia de hoje pede uma reflexão

Foto: Alfons Morales

Eu me lembro exatamente de como era o primeiro livro que ganhei. E mais, me lembro da felicidade que senti ao tê-lo nas mãos. Todo livro novo me despertava uma alegria sem fim. Na segunda série, a bibliotecária da escola chegou a questionar se eu lia mesmo os livros que pegava emprestado. Eram muitos. Ela só se convenceu quando eu contei toda a história do livro que estava devolvendo.

Tenho certeza que foi graças aos livro que desenvolvi o meu gosto pela escrita e por ter feito muitas das escolhas que fiz. E hoje três motivos me levam a falar sobre a importância deles nas nossas vidas.

O primeiro é que dia 23 de Abril é o Dia Mundial do Livro. Não sou muito apegado a datas comemorativas, mas essa não poderia deixar passar. A homenagem foi criada pela UNESCO com o objetivo de promover o prazer da leitura. E o dia foi escolhido, porque em 1616, exatamente em 23 de Abril, morreram Miguel de Cervantes, William Shakespeare e o poeta espanhol Garcilaso de la Vega.

O prazer da leitura, citado ali em cima, me leva ao segundo motivo.

Vez outra, principalmente nos fins de semana, assisto palestras do TED. Na semana passada vi Helen Pearson falar sobre o maior estudo já conduzido sobre o desenvolvimento humano. Ela conta, resumidamente, que desde a década de 1940, cientistas da Inglaterra acompanham a vida de crianças e coletam dados para obter informações diversas, como: quem vai bem na escola, quem fica saudável, feliz ou rico quando adulto, etc. O estudo que começou no pós guerra, se estendeu aos dias de hoje e já coletou dados de mais de 70 mil crianças. Com tanta informação, eles conseguiram fazer algumas descobertas importantes. A que mais nos interessa aqui: a diferença que faz a criança desenvolver o prazer pela leitura.

Crianças que já liam por prazer entre os 5 e os 10 anos tinham mais chances de ir melhor na escola e em testes escolares de quaisquer disciplinas (inclusive matemática!).

O terceiro e último motivo é que a Helen, na sua palestra do TED, fala sobre um ponto que tem tudo a ver com a realidade do Brasil hoje. Segundo ela, o estudo conduzido na Inglaterra mostra que mesmo com os pais cuidando dos pontos que mais interferem no futuro da criança (dar visão de futuro, incentivar o prazer pela leitura e proporcionar uma boa rotina de sono) o fato dela nascer rica ou pobre traz condições irreversíveis. Desde cedo a pobreza cria atrasos no desenvolvimento. E mesmo que os pais façam tudo certo, eles só serão capazes de diminuir em 50% a distância entre seus filhos e uma criança rica.

A Fundação Abrinq acaba de lançar uma nova edição do Cenário da Infância e da Adolescência no Brasil e dentre as informações do estudo está o fato que boa parte das pessoas em condição de pobreza no Brasil hoje são crianças. E elas, ao que tudo indica, enfrentarão imensos obstáculos para escapar da condição imposta pela falta de recursos financeiros, talvez repetindo o círculo vicioso com seus filhos.

Sei que uma data comemorativa sugere coisas boas, mas como um bom livro, o dia de hoje traz muitas reflexões.

Que o dia 23 de Abril nos lembre da oportunidade de ajudar as crianças a desenvolverem o gosto pelos livros. Acredite, isso fará uma enorme diferença. E que os livros consigam desenvolver nossa imaginação para criarmos um futuro em que a pobreza infantil seja apenas história ou ficção. Aí, a alegria não terá mais fim.