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Chega de “Pensar fora da caixa”


“Você precisa pensar fora da caixa.”

Quem me conhece (ou viu minha palestra no Creative Mornings) sabe, essa é uma das frases que eu menos gosto na vida. O motivo é simples: ela funciona como um reforço negativo e traz o problema no lugar que deveria haver uma solução.

Faz pouco, fui ao cinema ver O Quarto de Jack. O filme narra a história de um menino de 5 anos e de sua mãe, eles vivem num espaço de 10 m² sem janelas. Ei, se você não viu o filme ainda, fique tranquilo, aqui não tem nenhum spoiler que não esteja na sinopse. Voltando ao quarto, Jack e Ma estão presos, no entanto, ela faz o garoto acreditar que aquele espaço é o mundo inteiro. Tudo o que aparece na televisão (pessoas, animais, cidades, etc) é falso, pura fantasia. Para o garoto que nasceu lá dentro, a história faz sentido e ele nunca duvida. O problema é quando Ma tenta dizer a Jack a verdade e ele não acredita. O menino acha impossível existir algo fora daqueles tão bem conhecidos 10 m².

Por isso não gosto de “pense fora da caixa”. Porque a expressão pressupõe que você esteja lá dentro. E uma vez no interior da caixa, vai ficar difícil imaginar algo fora dela. Pense em uma coisa que não seja o John Travolta perdido.

Viu? O John Travolta não sai da sua cabeça. Nem a maldita caixa.


Qualquer coisa “fora da caixa” parecerá inatingível, fantasioso ou inexistente, assim como todo o universo era pra Jack. Para ser criativo e inovar — que é o objetivo de quem usa ou ouve essa expressão — pensar não é suficiente, é necessário provar o que há lá fora. Pensar de forma criativa é conectar pontos até então desconectados. Entretanto, os pontos em primeiro lugar precisam existir. Um ponto pode ser uma visita a um museu, uma série, um livro, um curso ou um filme, como O Quarto de Jack.

À soma desses pontos nós chamamos repertório. Se você não se dedicar a construi-lo, não há ao que recorrer nas horas de urgência criativa. Existem várias formas de fazer isso, você só precisa escolher a(s) sua(s). No livro Year of Yes: How to Dance It Out, Stand in the Sun and Be Your Own Person, Shonda Rhimes (autora das séries Grey’s Anatomy e Scandal) conta como dizer SIM para tudo que a deixava apavorada foi uma excelente forma de se livrar de um bloqueio criativo. Por falar em livro, eu conheço uma pessoa que vai à livraria, pega o primeiro exemplar que vê pela frente, paga, vai embora e começa a ler. Não importa o assunto, é algo novo, um novo ponto que pode ser ligado no futuro.

Existem muitas outras maneiras de adquirir repertório, mas na minha opinião, o mais importante é deixar de lado a caixa e se concentrar no fato de que há um universo inteiro para se explorar. E não dá pra fazer isso apenas pensando, você vai precisar utilizar seus pés.

Não espere a próxima chamada criativa chegar, o dia tá bonito, vamos dar uma volta por aí e aproveitar pra jogar essa caixa fora.

*Esse artigo foi publicado originalmente no Pulse Linkedin.