zero (o que foi dito e o que não foi)

– Calma, filhinha — disse o homem com a voz embargada por uma dor que lhe sufocava a garganta por dentro. — Só me diga o que aconteceu.

A voz tinha dificuldade de sair sempre que ele direcionava o olhar à mulher morta. Sua mulher. Aquela que escolheu para passar o resto dos seus dias junto a ele, assim como ela o fez. Estava ela no chão. Estripada. O que era o interior de seu ventre decorava o quarto de vermelho, tingindo as bonecas, as pelúcias, a cama pequena e os sapatinhos. Cicatrizes que acabaram com toda a infância ali. O pescoço fora dilacerado, mas o rosto ainda estava intacto, com um olhar vazio que mirava o nada. A criança estava debaixo da cama chorando convulsivamente quando ele chegou. Quando a menina manchada de sangue saiu do esconderijo, Vitor, que trazia sua arma na mão, largou-a no chão para verificar se a pequena trazia ferimentos. Ao assegurar que ela estava bem, colocou-a atrás de si, pegou novamente a arma e começou a investigar o quarto. A parte mais difícil era olhar a esposa daquele jeito.

A segunda era saber como falar com a filha.

– Você viu quem fez isso, Lili? — ainda travavam as palavras. Parecia que tudo que nunca dissera à mulher nesse tarde demais queria sair ao mesmo tempo, forçando a garganta até às lágrimas.

– Não, papai — a menina ainda chorava muito.

– Fique atrás de mim. — Ele precisaria ser mais firme do que seu trabalho na polícia já exigiu durante toda sua vida. Reuniu frouxamente seus farrapos internos.

– Você tem que matar todos eles! — O desespero da filha e a informação nova deram-lhe uma injeção de resiliência. Existiam duas coisas agora. Sobrevivência e vingança.

– Eles?! Você viu quantos são?! — virou-se para a filha que ainda soluçava com raiva e medo.

– Não, papai! Só ouvi várias vozes — Lili.

Na subida para o quarto ele encontrou a casa normal. Sem sinais de arrombamento. Pensou em alguém da polícia que não gostava de sua conduta, em soltos recentes, parentes de presos, fugitivos. Ainda atento a tudo, pegou o celular e tentou ligar para um antigo parceiro de confiança. Fora de área. Procurou novamente por pistas, agora com o máximo de frieza que conseguia trazer da profissão. Tudo estava muito fresco, o que significava que independente de quantos fossem, ainda estariam lá, embora o cômodo fosse uma anarquia sanguinolenta resultado de uma carnificina, havia um padrão. Várias pessoas poderiam ter entrado na casa, mas era como se tudo fosse feito pela mesma pessoa.

– Filha, você ouviu o que as vozes diziam?! — o policial reuniu coragem e olhou novamente a mulher. A garganta fora dilacerada por uma garra.

– Disseram para eu matar a mamãe — Não havia mais medo em sua voz.