Mãe! e a fragilidade de metáforas vulneráveis

CRÍTICA

Pretensioso é um adjetivo que sempre me perturba quando é usado para descrever qualquer obra. Entendo o que ele quer dizer a princípio, que quando alguém o utiliza para resumir algo, este alguém deseja descrever este algo como fruto de uma artista ou de um artista que acha que a própria obra está muito acima de uma mediocridade, muito acima do que ela realmente é. O que incomoda, contudo, é a conotação exclusivamente negativa que esta palavra tem carregado, principalmente quando se fala de cinema. Um filme pode ser pretensioso por querer representar algo mais do que uma simples narrativa — algo que não é necessariamente ruim — o problema é que nem sempre funciona. E o mais complicado e fascinante é: o que definirá se estas ambições dão certo ou não são aspectos quase completamente subjetivos. O último filme de Darren Aronofsky, Mother!, é um exemplo de pretensão que, ao menos pra mim, infelizmente não se concretiza da melhor maneira.

Antes de partirmos para a subjetividade que me afasta das intenções do cineasta, contudo, vale trazer um aspecto fundamental e objetivo que cerca que atravessa o longa: o uso de alegorias. Uma alegoria, para funcionar, precisa essencialmente de uma camada superficial bem definida, de uma história que se sustente e de situações e personagens que servem como metáforas para a história. Em Distrito 9, por exemplo, Neill Blomkamp fala do regime do Apartheid na África do Sul, mas só acessamos o impacto disso porque o roteiro traz, em sua superfície uma trama bem definida de uma comunidade alienígena que vive isolada por força do estado. Em Mãe!, a trama é a de um casal que vive isolado. Ele, um poeta que não consegue mais criar, ela, uma mulher submissa que vive em função dele e da restauração da casa, destruída há muito tempo por um incêndio. Até que, sem aviso, surge um homem à porta e que começa a ultrapassar paulatinamente os limites tácitos do lar alheio. Depois surge a mulher, depois os filhos e depois os conflitos.

Por debaixo de tudo isso, existe um grande tema e a ideia de recontar uma grande história — que não quero estragar aqui. A maneira como Darren Aronofsky começa a contar esta história é realmente admirável e de fato funciona muito bem ao longo de quase toda a primeira metade do longa. Por meio da direção e da fotografia e, principalmente, por meio da construção do set, dos figurinos e de toda a estética visual como um todo, o filme se desdobra quase de maneira impecável para o espectador. Já o roteiro se apresenta irregular. A partir de uma premissa realmente interessante, a de contar esta história através deste microverso que é o drama do casal e de seus “convidados”, o script assinado pelo próprio diretor acerta ao criar as metáforas certas a partir de personagens e situações. Sacadas certeiras como o ferimento na costela que enxergamos de relance quando o personagem de Ed Harris passa mal no meio da noite ou o fato de que uma inundação faz com que todos os convidados indesejados sumam, por exemplo, são contrabalançadas por um encadeamento de eventos que tenta dar passos largos demais.

É aí que se encontra a principal falha desta execução. É aqui que o filme não consegue concretizar as suas ambições e é aqui que percebemos que o excesso de temáticas pode ter sido uma má escolha. O que é uma lástima, visto que o sentimento final não é de decepção, mas o de uma certa tristeza pelo que o filme poderia ter sido. Talvez, se o longa tivesse o luxo de durar mais que duas horas desse certo. Ou, por outro lado, se não houvessem recursos o suficiente para que ele abrigasse uma quantidade impensável de personagens, histórias, conflitos e metáforas — principalmente do meio para o final do filme — tudo funcionaria melhor.

No início, quando o conflito principal é a presença incômoda de dois estranhos, a alegoria funciona de maneira admirável. A trama superficial está lá, o subtexto já começa a se demonstrar, ainda que ele seja revelado mais descaradamente no final do filme, e praticamente todas as ferramentas estéticas da narrativa atuam sinfonicamente em prol disso. O roteiro nos apresenta de maneira simples as premissas fundamentais a esta história: a função dele é criar; a dela é realizar uma série de tarefas em função dele (cuidar da casa, preparar a comida, cuidar das roupas). O design de produção de Philip Mesina, por sua vez, ao lado dos figurinos de Danny Glicker, abusa de materiais orgânicos como madeira, vidro, metal, algodão e linho. Plástico até existe, mas só no telefone da cozinha que nem aparece em tela nesta primeira parte. Até mesmo para restaurar a parede, a personagem de Jennifer Lawrence não utiliza pincéis, rolos ou latas de tinta, mas sim uma mistura que parece orgânica, tingida com uma série de pós em tons terrosos ou naturais — cores estas reforçadas pela paleta da fotografia de Matthew Libatique, parceiro de Aronofsky desde o monocromático e incômodo Pi, de 1998. Quando cores artificiais surgem em tela, surgem num tom muito específico de verde revelado pela personagem de Michelle Pfeiffer (numa calcinha e num sofá, revelado quando ela retira o lençol branco de uma das pontas).

Se a visualidade fica responsável por trazer à tona elementos das temáticas que existem por debaixo da trama de suspense, a movimentação da câmera, sempre seguindo a protagonista, e a mixagem de som se tornam reflexo dos sentimentos da personagem, trazendo volta e meia um zumbido incômodo que revela um desconforto físico e psicológico. A montagem de Andrew Weisblum faz bem o seu papel de ser invisível, cortando de vez em quando as tomadas longas, o que faz parte da proposta narrativa de seguir a personagem de Jennifer Lawrence 100% do tempo. É pouco depois que ela engravida que tudo isso começa a ruir.

Assim como a nódoa crescente que passa a apodrecer uma das tábuas do assoalho no final do primeiro ato, o roteiro começa a se danificar, abrindo e fechando uma infinidade situações metafóricas apressadamente. A sutileza se vai e um pandemônio de referências passa a ocupar a tela enquanto a trama perde seu fundamento. Aquele enredo superficial tão importante que mencionei no início é quase esquecido para dar lugar a todos os temas que o longa pensa que vai conseguir abrigar. O que traz novamente à tona a discussão sobre a pretensão desse tipo de obra: a linha tênue entre ambição e megalomania pode ter se rompido. Tenho absoluta certeza que o fato do drama sumir de uma hora para a outra é irrelevante para alguns. Infelizmente não é o meu caso. O que não me impede de admirar algumas decisões desta parte: como a literalidade que o destino do bebê representa ou o ponto alto da atuação do casal protagonista, apesar de seus personagens limitantes, no desfecho.

Trazendo de novo à tona a obsessão, tema que aborda de uma forma ou de outra em todos os seus filmes, Aronofsky aqui se torna vítima das próprias ambições. Talvez o que tenha faltado foi um capricho maior por parte do cineasta ou um amigo que dissesse “vai com calma aí, cara”, mas o filme é o que o filme é, assim como o personagem de Javier Bardem. Talvez o filme mereça uma análise mais profunda, com spoillers, mas talvez pra mim esse momento nunca chegue. Mãe! pode ter me incomodado muito com seu desfecho desordenado e sua colagem capenga de temáticas em excesso, mas o fato de todos estes defeitos surgirem de uma busca pretensiosa ao invés de uma busca para se adequar à mediocridade do circuito comercial é algo que merece ser (moderadamente) exaltado.