A trave e o novo suplício


É uma tremenda ironia ganhar jogando mal fora de casa, acertar as coisas, ter uma atuação digna e perder dentro do Olimpico no jogo seguinte. É basicamente assim que a Roma passa seus dias: acertando nos erros e errando nos acertos. Era preciso ganhar de vez a confiança da torcida com uma vitória diante da Inter e o plano estava encaminhado no intervalo. Foi aí que a Roma caiu na real.
Mais ironia: eu comentava entre outras viúvas do capitão que o jogo estava tranquilo, que a Roma vinha dominando, que tudo parecia estranho. Fugimos do padrão da primeira partida contra a Atalanta, mostramos agressividade, criamos chances, acertamos tantas vezes a trave. Houve competência, mas faltou a maldita sorte, uma célebre antagonista na nossa trajetória.
Urge uma nova regra que conte uma bola na trave como meio gol para o ataque. Precisamos valorizar todo o esforço que os atletas fazem para acertar o poste, que representa um ângulo bizarro da baliza. É fácil chutar pra fora, vencer o goleiro e balançar as redes. Mas ninguém pensa em como é uma proeza carimbar a trave ou o travessão. Isso precisa mudar. Pelo meio gol a cada lance impedido pelos postes.
Ah, o jogo, o jogo. A Inter não foi nada mal, não. Inclusive perdeu boas chances, esbarrando em Alisson ou na própria incompetência. O roteiro de hoje estava bem óbvio: desfecho triste para os mandantes, vingança pessoal de Spalletti, cara de bunda de Totti nas tribunas. E não fui eu que previ isso: foi o amigo Mateus Ribeirete, dono da pelota no Viúvas de Totti, lá no ESPN FC. A prova está na foto abaixo. No fim das contas, a gente já sabe como o filme termina, mas se engana mesmo assim.

A Inter foi bem dentro da sua proposta, explorando os erros grotescos da defesa. O posicionamento da nossa última linha foi constrangedor. E olha que eu cheguei a elogiar Juan Jesus em dado momento. Eu também já sabia que podia me arrepender disso, mas quis correr o risco. A pior merda, no entanto, é estar deprimido e com razão.
Sobra muito pouco de sanidade após uma partida da Roma. Porque sempre parece que estamos alucinando, vivendo um delírio coletivo em que é possível vencer qualquer coisa. Porque não é. Se não chegamos lá com os melhores e mais efetivos times que já tivemos, não será com este de Di Francesco. Que registre-se: é bom, mas não é para agora.
Os amigos leitores do Coração de Roma, nesta nova fase do Medium, sabe que não poupo xingamentos ou palavrões para enfatizar um sentimento. E hoje a vontade é de produzir uma mensagem de áudio com toda a fúria e utilizando todo o meu vocabulário sujo. Mas pouparei vocês dessa.
Tomar de 3 a 1 no primeiro jogo em casa da temporada é um recado péssimo. Muito feio para quem acaba de levar um tombo, caindo em um grupo complicado na Liga dos Campeões. Escrevi na quinta-feira, neste mesmo espaço, que nós pegaríamos apenas uma vaga para a Liga Europa. E cada vez mais me convenço disso. Se é que este início serve para algo: melhor já cortar as asinhas da expectativa.
A vida segue. Nos próximos dias, é ideal que Di Francesco trabalhe o aspecto emocional do elenco. Porque a cada bola na trave contra a Inter, foi possível ver do sofá de casa que os ânimos do grupo minguaram. E isso foi fundamental para tomar uma virada constrangedora como a que vimos.
É também o momento de Monchi colocar o pau na mesa e fechar negócio por Patrik Schick, antes do jogo contra a Sampdoria. Defrel, este engodo, não pode entrar jogando na próxima rodada. Se não for El-Shaarawy um dos três atacantes, a opção por Cengiz Ünder pode ser a solução. O turquinho precisa ter tempo para provar seu valor.
Juntar os cacos? Talvez. Só não se pode abaixar a cabeça, tão cedo, na segunda rodada. Se for para fazer feio, que seja lutando e tentando. Rumo ao sétimo lugar, com garra e brio. Sendo Roma.
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