Quarenta e um

Francesco Totti não precisa de mais um texto ressaltando sua idolatria. Mas como o blog é novo e hoje é seu aniversário de 41 anos, vamos assoprar as velas de mais este bolo do agora ex-jogador que tanto nos deu em 24 temporadas como profissional.

São os primeiros meses sem o camisa 10 e sabe-se lá quem será o próximo, se é que haverá um próximo. De presente, Totti pode muito bem ganhar uma vitória pela Liga dos Campeões contra o Qarabag, mas não estará em Baku para prestigiar o espetáculo. Deve ser difícil ser diretor enquanto o público espera novos traços de genialidade fora dos campos. Contudo, isso não vai acontecer e nós precisamos nos acostumar com isso.

Totti é como nosso pai, ou no mínimo um irmão mais velho. Conhecemos seus defeitos, sabemos quais foram seus momentos mais obscuros, mas não admitimos jamais que falem mal dele em nossa presença. Podemos até não iniciar uma discussão, mas no fundo, quem critica Francesco acaba nos ofendendo pessoalmente.

Totti, com a sua façanha e seu sonho, nos fez acreditar que seria possível viver um único e grande amor. Para ele, foi. E só. Nós, meros mortais e pessoas insignificantes, passaremos a vida a lamentar as chances que desperdiçamos para alcançar o mínimo reconhecimento.

Sim. Talvez um dia, algum de nós tenha levantado da cama com uma epifania, uma vontade de escrever uma história parecida, ao menos no que tange a dedicação e a exclusividade. Mas se a vida é saborear um dia após o outro — eventualmente estes dias terão gosto de jiló — e se deixar levar pelos desafios e portas abertas, jamais chegaríamos ao fim do corredor com a mesma roupa, a mesma cara, a mesma moral. Totti não. Ele determinou um padrão tão alto, que só nascendo de novo e torcendo para ter um pouquinho de talento com a bola nos pés. Isso se, ainda assim, tivermos a sorte (ou a sina desgraçada) de sermos romanistas.

Totti é o símbolo da esperança romanista e continuará sendo, mesmo após sua aposentadoria. Esperança, neste caso, é acreditar cegamente que algo dará certo e o mundo se abrirá sob nossos pés, enquanto desafiamos a lógica e a dura realidade. Neste interim, tememos o pior. A esperança não é de forma nenhuma uma qualidade, um lugar seguro, uma espécie de conforto. É a tola mania de acreditar que virá dos céus um trovão que resolva a nossa vida, de que alguma entidade divina terá pena da nossa existência e nos presenteará com um motivo para continuar lutando. É o contraponto ao desespero, a aquela sensação de que não aguentaremos o baque de tudo que nos acontece de ruim.

Ser Totti é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. Enquanto Francesco envelhecia e caminhava rumo à eternidade como jogador, a Roma piorava gradativamente. Uma série de vice-campeonatos nos anos 2000, após o ápice do scudetto, foi o máximo que o clube pôde oferecer como pagamento pelos serviços prestados e pela recusa a qualquer outra equipe que quisesse atrair nosso camisa 10 para outro lugar. Por escolher terminar a sua história no futebol com a mesma camisa que usava quando iniciou esta jornada, Totti ficou condenado ao fracasso, sobretudo em seus nove anos finais no esporte.

Incontestável, insuperável e irresistível. Totti também foi ídolo de juventinos, milanistas, interistas, dorianos e violetas. Sua história transcende qualquer rivalidade e é raro ver qualquer torcedor reagir de forma hostil quando ouve seu nome. Salvo os laziali, claro, com todo o contexto histórico da rivalidade que nos diferencia.

O jogador acabou e deixou para trás o legado e um pouco de inspiração para quem quiser tentar seguir seus passos. Nos fez mais romanistas, tottistas, reféns de sua magia. Missão cumprida. Resta admirar este vazio incompreensível e que ainda não pode ser mensurado. Não até que seja levantada a primeira taça nesta era que atende por Depois de Totti. Ainda estamos no ano um e há muita água para rolar por debaixo desta ponte. Antes de Totti éramos apenas um time promissor. Sabe-se lá o que seremos depois.

Feliz aniversário, Francesco. Nunca haverá outro romanista comparável a você. Mas que nasça ou cresça um que seja tão vencedor quanto você conseguiu ser. A esperança vive, ainda que sem enxergar um palmo à frente.

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