Oportunidade, verbo em movimento

Possuo mais de 18 anos na área de TI, tenho histórias de discriminação em absolutamente todos lugares que trabalhei na vida. Salta aos olhos o fato de ser uma área predominantemente composta por homens brancos cisgêneros heterossexuais de classe média. Conto nos dedos das mãos com quantas mulheres desenvolvedoras trabalhei em toda minha carreira, com quantas pessoas negras, com quantas pessoas de minorias sociais.

Aliás, já no técnico e na faculdade, eu percebia que seguiria sozinha, sendo sempre a única mulher transexual de todos lugares que trabalhei. Precisei sempre estar provando a todo mundo que eu era no mínimo duas vezes mais capaz. Nunca tive o direito de errar, pois se eu errasse, errava comigo toda a comunidade de transexuais, já que é geralmente o que fazem com pessoas de minorias discriminadas, em contraposição aos erros dos homens cisgêneros brancos heterossexuais, que quando erram, a conduta é individualizada e não se presume que todos os demais fazem o mesmo.

Cansei de passar por processos seletivos que se revelavam infrutíferos à medida que descobriam que eu era transexual. Tudo corria muito bem até eu contar que era trans — obrigatoriamente, já que só consegui recentemente a mudança judicial dos meus documentos. Da última vez que fiquei sem trabalho, enquanto via homens brancos cis héteros se desempregando de dia e arrumando outro à tarde, foi quase um ano desempregada. Cansei de assistir homens inclusive com menos bagagem escolar, menos qualificação profissional conseguirem a vaga e eu não. Por isso, digo que a sociedade acaba empurrando-nos para a prostituição, sendo a única profissão que a grande maioria acha possível nos encaixarmos.

Como fui expulsa da casa dos meus pais, por ser transexual — e aqui eu digo que a primeira grande violência que sofremos é dentro de casa — há muitos anos não tenho parentes com quem contar em momentos de necessidade, todos deram as costas para mim. Também por esse motivo fundamento que precisamos estar sempre mais preparadas que a maioria, mais estudadas, à frente de todos, pois há um excessivo peso que colocam em nossas costas.

"Trabalhar políticas de inclusão e diversidade é um dever, um movimento em direção a uma sociedade mais justa social e economicamente, oportuna e positiva."

Antes de entrar na ThoughtWorks eu estava bastante decepcionada com a área de TI, depois de tantos anos sofrendo múltiplas violências profissionais, desde assédio moral a discriminações explícitas, de tal forma que foi uma grata surpresa em minha carreira e minha vida estar nessa empresa. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de pessoas de minorias discriminadas, fiquei boquiaberta. Depois o espaço que existe para que sejamos quem somos sem que nos apontem como inferior.

Cansei de perceber da maioria dos homens que trabalhavam comigo, ao longo da minha carreira, um desconforto com a minha presença, era preciso estar o tempo todo se ocupando não apenas em desenvolver um trabalho com mais competência que todos eles, como também em esconder ou omitir a minha vida. Na ThoughtWorks percebo que não só isso é desnecessário, como as diferenças são celebradas. Evidentemente não é uma empresa perfeita, estamos em constante processo de aprendizagem e evolução, e tampouco acredito que a perfeição exista; mas posso dizer sem quaisquer dúvidas que se trata da empresa mais inclusiva que já trabalhei na vida.

Aliás, inclusive a questão do desenvolvimento e plano de carreira é algo real. Em muitos dos lugares que trabalhei eu ganhava menos que os homens que executavam as mesmas tarefas que eu, com o mesmo cargo. Sabemos bem como o mercado de trabalho em sua extensão é injusto com as mulheres, mas na Thoughtworks há uma constante busca por aprimorar os mecanismos de contratação, promoção e desenvolvimento das mulheres que aqui trabalham.

Levei bastante tempo desde que entrei para perceber que tudo aquilo era real, e ainda que eu seja uma pessoa feliz trabalhando na ThoughtWorks, pois sem sombra de dúvidas essa empresa foi um ponto fora da curva em toda minha carreira, eu temo pelo fato de estarmos falando da exceção à regra ao comparar as demais empresas de TI, ao comparar o que aqui fazemos com o que tantas outras não fazem, apesar de propagandearem o contrário.

Sonho que daqui a algumas gerações não tenhamos uma área de TI dominada por homens brancos cisgêneros, mas que essa área espelhe a diversidade da sociedade.

Sonho com o dia em que transexuais possam ter outra opção de trabalho que não a prostituição, para isso construo meu nome dia a dia, para isso dei e dou uma considerável parte da minha vida: para lutar por uma sociedade mais justa, mais humana, menos preconceituosa, mais plural.

Sonho com o dia em que pessoas como eu, com graduação e bagagem profissional não vejam todas as portas se fecharem pelo simples motivo de possuir uma identidade de gênero divergente da maioria, sonho com o dia que a transfobia não destrua nossos sonhos, não nos negue oportunidades, não nos faça acreditar que essa área não é para nós, por inclusive não nos vermos representadas.

Daniela Andrade, desenvolvedora, ThoughtWorks


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