Subjetividade, oportunidades e coragem: sobre sair das caixinhas na construção de carreira

— Lisiane Rocha

Aos 14 anos, decidi que eu seria a principal responsável pela renda da casa. Minha mãe fazia de tudo, roupas, produtos de limpeza, pirulitos de chocolate para vender. Meu pai era analista de sistemas e programador autônomo. Morávamos na periferia de Belo Horizonte e não tínhamos muita estabilidade financeira. Como “sapo não pula por boniteza, pula por precisão”, acabei desenvolvendo a capacidade de me adaptar rápido e agarrar qualquer oportunidade que aparecesse. E fazê-la valer a pena. Essa determinação fez as pessoas reconhecerem em mim potencial para estar em qualquer papel e em qualquer área. Com o tempo, eu comecei a me perguntar o que de fato significava ouvir: “em qualquer lugar onde você estiver, vai se adaptar e entregar bem, não importa a área ou papel”.

Em meu primeiro emprego, fui office girl em uma empresa de contabilidade. Muitos outros empregos vieram depois, trabalhei e estudei ao mesmo tempo e, nas horas vagas, aprendi sobre programação e banco de dados com meu pai. Aos 25 e muitas empresas de tecnologia depois, ouvi a pergunta que me trouxe até aqui: onde você quer estar daqui a cinco anos?

Percebi que ser indispensável não era bom. Que sendo a única pessoa capaz de fazer algo em uma engrenagem, nunca seria considerada para novas oportunidades. E que seu eu não direcionasse a minha carreira, alguém faria isso em meu lugar.

Despertei.

Ao buscar formas para responder onde eu gostaria de estar em cinco anos, encontrei vários modelos, templates, frameworks, mas para preencher todos eles precisaria já saber o que colocar nos espaços em branco. Não consegui sair do lugar.

Comecei então a pesquisar sobre entrega ágil de software e Lean. O manifesto e os princípios ágeis se conectaram muito com a forma de trabalho em que eu acredito.

Tudo isso me fez questionar muito o valor de tudo o que eu fazia e mudar a forma de enxergar o trabalho. Foi a partir daí também que conheci a ThoughtWorks. Era uma empresa que, além de estar presente nos eventos que eu participava, falava das coisas em que eu acreditava.

Tomei coragem pra participar do processo seletivo e fui aprovada. Comecei em 2014, como analista de negócios e já no meu primeiro projeto começou o dilema. Sou analista de negócios na ThoughtWorks, afinal, o que isso significa? Tentando encontrar essa resposta, eu passei a atuar nesse mesmo projeto com um segundo papel, o de gerente de projetos. Foi uma experiência incrível.

Ao final do projeto, conversando com o Lucas Medina, que era meu sponsor na época — sponsor na ThoughtWorks é uma pessoa que apoia sua construção de jornada -, compartilhei que não sabia o que eu era, se analista de negócios ou gerente de projetos e que eu não sabia como escolher. Ele me perguntou: porque você tem que escolher? Você tem que ser a Lisiane, analista de negócios? Você pode ser só a Lisiane e dizer o que quer aprender, com o que quer trabalhar e se livrar dessas caixinhas.

Minha cabeça explodiu! Eu não preciso de ter um cargo ou papel pré-determinado? Eu posso escolher o que quero aprender, o que quero fazer? Como assim? Não ensinaram isso na faculdade. Ninguém disse que eu podia fazer isso na vida. A forma como hoje a maior parte das empresas — e pessoas — estrutura o crescimento na carreira, tem a ver com um objetivo ou visão de cargo a ser ocupado. Será que dava mesmo pra ser diferente?

A partir desses questionamentos, iniciei uma jornada de autoconhecimento. Busquei ajuda na literatura, na terapia e em momentos de reflexão. Porque entendi que não me conhecia.

Parei de utilizar os nomes de cargos e papéis, passei a priorizar quais conhecimentos e habilidades eu tinha desenvolvido e quais eu gostaria de desenvolver. Passei a compartilhar essas informações com as lideranças no escritório e com colegas, recebi dicas e feedbacks sobre como eu poderia aproveitar o ambiente da empresa para aprender mais sobre aqueles temas.

Nesse meio tempo, cheguei a uma grande descoberta: me reconheci como mulher negra, muito por causa de um programa realizado na ThoughtWorks em parceria com a Afroeducação — uma das parcerias que a empresa fez para trazer o tema da negritude para nosso ambiente. Entender que as dificuldades que tive ao longo da minha carreira como mulher negra na TI foi muito importante. Isso me fez entender que muitas das coisas que aceitei eram na verdade inaceitáveis e que, daquele momento em diante, eu lutaria para que não acontecesse mais, nem comigo nem com outras pessoas perto de mim. Esse entendimento passou a guiar também minhas priorizações na carreira e me trouxe muita segurança para assumir quem eu realmente sou.

Menos de dois meses depois, surgiu uma oportunidade dentro da ThoughtWorks para atuar em um papel que tinha impacto nacional. Eu me tornei Staffing Manager, o que significava que eu precisava aprender sobre coisas como gestão de conflitos e facilitação. Passei a olhar para que tipo de conhecimento e desafio eu gostaria de ter e isso passou a me conduzir desde então. Foi um exercício também de construção de autonomia e protagonismo, fundamental para o contexto de subjetividade na condução de uma carreira.

Um ano e meio depois, recebi o convite para ser Gerente Geral do escritório da ThoughtWorks em Belo Horizonte. Tomar a decisão de assumir esse papel não foi fácil. Voltaram a insegurança e o medo, reforçando o que eu via como fraquezas. Mas o mais interessante foi o que esse papel revelou pra mim sobre oportunidades: não é o cargo, mas a experiência que será vivida, o conhecimento que será adquirido e os erros que vão trazer novas perspectivas. Eu não via mais essa oportunidade como um cargo, mas como uma oportunidade que fazia sentido para esse momento da minha jornada.

Já faz mais de um ano que estou nesse papel e tem sido uma experiência engrandecedora. Se eu estivesse presa à minha formação acadêmica de Sistemas de Informação, às caixinhas que minha formação permitia que eu alcançasse como analista de sistemas por padrão, eu não estaria aqui, hoje, ocupando esse lugar.

Além da gestão, existe também o impacto do que significa uma mulher negra estar à frente de um escritório em uma empresa global. E no caso de Belo Horizonte, não apenas uma, mas três mulheres negras, já que divido a responsabilidade da gestão do escritório com a Grazi Mendes, Talent Business Partner, e com a Laura Zanotti, Office Experience.

Hoje eu digo que estou Gerente Geral do escritório da ThoughtWorks Belo Horizonte, porque na verdade não sou Gerente Geral. Sou uma pessoa, com experiências, forças, conhecimentos, dificuldades e desejos. Sou uma pessoa, com experiências, forças, conhecimentos, dificuldades e desejos. Sou alguém que quer depositar sua energia naquilo que vale a pena. E eu, como estarei daqui a cinco anos? Tenho alguns planos sim, mas o que realmente sei é que serei uma pessoa melhor do que sou hoje, porque essa construção de jornada não tem fim.


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