Formando redes e destravando o governo

Os sistemas e redes na qual estamos, ou seremos, conectados são cada vez mais complexos e interdependentes. Se no passado a falta de informação e a dificuldade de comunicação eram uma barreira, hoje o volume de informação e a facilidade em se comunicar se tornaram uma chateação, para dizer o mínimo, de qualquer forma não dá para negar que ambiente em rede facilitou consideravelmente a vida das pessoas… ou não…

Este macro sistema que conecta mentes em todo globo, essa quase noosfera, pode ser um terreno fértil e geram oportunidades de conexão para entidades que querem, de fato, se tornarem mais efetivas:

1. Conexão entre entidades e governos;

2. Conexão entre questões, problemas e suas soluções;

3. Conexão entre servidores públicos de diferentes áreas, empresas, e por ai vai;

4. Conexão com os cidadãos que precisam dos serviços públicos;

5. Conexão entre as ideias de vários atores em busca de soluções práticas e simples para as questões e problemas.

Neste contexto o governo é uma rede que se conecta com outras redes e indivíduos formando uma rede descentralizada em que os seus nós interagem com o objetivo de destravar sistemas arcaicos que não geram nada mais que ineficiência.

O ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama devia ter em mente essa situação quando disse: “Entendemos que os programas governamentais são antiquados e inadequados para as necessidades do nosso tempo. Então, devemos aproveitar novas ideias e tecnologia para refazer o nosso governo. ”

Em 2012 ele criou o Presidential Innovation Fellows (PIF) com o objetivo reunir os funcionários mais inovadores do governo para desenvolver em conjunto com os cidadãos propostas de soluções e implementá-las em projetos de até 12 meses, acelerados com o apoio da estrutura do governo.

Penso que tecnologia não é nada se não for direcionada para o humano e que, em se tratando de serviço público, não adianta nada ter a melhor tecnologia se ela não estiver conectada e direcionada para atender às necessidades do cidadão. O Estado possui “cabeças” brilhantes que poderiam se conectar com outras redes ou nós, seja de cidadãos, comunidades, ou qualquer outra configuração social, para criar em conjunto com as comunidades soluções simples, práticas e rápidas para resolver seus problemas. Um ambiente onde o espirito hacker do rápido e simples (quick’n’dirty) paira pelo ar.

Em vez de ficar esperando o desenvolvimento e implantação de grandes projetos que introduzam mudanças significativas e de impacto estabelecidas no alto do Olimpo Organizacional (não é para rir…), a turma do mão na massa vai se virar para buscar e encontrar soluções.

Normalmente um hacker têm poucos meios à sua disposição e procura acima de tudo as formas mais eficientes de fazer o seu trabalho, engenhosidade e mão na massa são as suas palavras de ordem, ou seja, o cara dá um jeito… opa eu disse jeito? Será que quando alguém dá um jeitinho está, na verdade hackeando algo? será que o brasileiro na essência é um hacker? acho que já escrevi sobre isso...

Diferente dos perfeccionistas que fazem o seu trabalho buscando uma perfeição que só existe na sua imaginação e contra os pessimistas que gastam a maior parte do seu tempo criticando os outros e apontando defeitos nos outros, essa rede que poderíamos denominar hackers governamentais vão ao ponto do sistema onde está o problemas e buscam superar os obstáculos com as ferramentas que têm à mão.

Depois deste pequeno grande parênteses… voltemos ao programa dos Camaradas do Presidente. Dentro do conceito da inteligência colaborativa e desenvolvimento ágil ele reuniu equipes em um ambiente colaborativo para trabalhar em uma ou mais iniciativas demandadas pelas comunidades. Tudo dentro do conceito “pondo a mão na massa”, e transformando ideias em resultados tangíveis. O programa recrutava pessoas com perfil de empreendedorismo e inovação de dentro e fora do governo para trabalhar com os especialistas de vários órgãos, empresas e agências do governo no planejamento, execução e solução de problemas. Muito legal isso…

O programa tinha 5 pilares:

1. Descoberta centrada no ser humano

Uma abordagem com foco na resolução de problemas do cidadão. Aplicando técnicas como o Design Thinking, o Design Centrado no Ser Humano, trabalhar para entender como cada cidadão interage com o governo, identificando, na fonte, os problemas que devem ser resolvidos do ponto de vista do cidadão e não apenas dos agentes do governo.

2. Projeto responsivo

Soluções que podem ser rapidamente testadas e melhoradas de forma interativa e com a preocupação de economizar tempo, esforço e o imposto dos cidadãos.

3. Construção com base no desenvolvimento Ágil

Trabalhar para resolver problemas complexos em um mundo na qual as exigências mudam constantemente e exigem: capacidade de formar equipes rapidamente, oferecer ciclos curtos de desenvolvimento e comunicação constante entre os envolvidos nas iniciativas e as pessoas a serem atendidas.

4. Indicadores com métricas de Impacto Social

Transformar ideias em produtos e serviços que melhoram o governo, sempre medindo o seu impacto na sociedade.

5. Validação utilizando o pensamento Lean

O objetivo final era criar um governo responsivo com soluções e serviços que funcionassem para qualquer um e para todos. O sucesso do programa deveria ser medido em vidas salvas, economia no orçamento publico, estímulo à criação de empregos e em melhores formas do governo servir ao povo.

Na França também está em andamento outro movimento que tem como objetivo reunir pessoas para descobrir soluções simples para um mundo cada vez mais complexo, trata-se do movimento Corporate Hacker iniciado em 2016 tem como pilares: dar sentido ao trabalho, recolocar o humano no centro das organizações e criar uma economia mais equânime.

Este é um movimento que ganha força na Europa, principalmente na França onde existem diversos grupos atuando neste sentido, todos com o propósito de reunir pessoas que gostam de pôr a mão na massa (makers), criadores de oportunidades, inovadores, empreendedores, intraempreendedores, e hackers corporativos que querem transformar o ambiente com compartilhamento, experiências, ações e inteligência em rede.

O governo francês também está trabalhado nesta linha, recentemente ele publicou o manifesto pela inovação pública com 12 pontos, sendo 7 valores e 5 desafios.

Os 7 valores são os princípios de trabalho para transformar a cultura da administração francesa:

1. O Cidadão como prioridade: a partir das necessidades e das práticas observadas no campo;

2. Abertura: estruturas e métodos descomplicados;

3. Coprodução: envolvendo as partes interessadas para encontrar soluções práticas;

4. Ação: seguir a lógica do “fazer”;

5. Agilidade: testar rapidamente no campo;

6. Experimentação: Reconhecer o direito de errar;

7. Impacto: inovar para resolver problemas.

Da experiência obtida nos últimos anos, também surgiram 5 desafios para a França dar um novo passo na difusão da inovação pública:

1. Produzir e divulgar de forma mais abrangente as inovações que sejam úteis;

2. Incentivar o espirito de inovação de 5 milhões de funcionários públicos franceses;

3. Abrir a administração pública francesa para uma participação cidadã;

4. Associar o humano ao digital;

5. Transformar as estruturas de serviço público.

Os exemplos acima demonstram que talvez a única forma de vencer a inercia causada por uma burocracia que enlouquece qualquer um e que “às vezes” faz com que o governo se movimente como um elefante perneta, é justamente hackear o governo!

Não adianta centralizar ou integrar órgãos se as pessoas não se integram, se as diversas competências não interagem interna e externamente, a integração entre as pessoas é uma excelente oportunidade reduzir a influência, e porque não, destruir os silos organizacionais e burocráticos.

Os governos têm ótimas oportunidades e ferramentas sociais disponíveis para envolver os cidadãos na solução de seus problemas oferecendo, como podemos perceber nos exemplos acima, agentes capacitados e tecnologia para aprimorar os serviços prestados aos cidadãos com soluções rápidas, de baixo custo e efetivas. Os governantes poderiam promover dinâmicas em que os agentes públicos de diversos órgãos interagissem com os cidadãos para identificar e definir as melhores soluções considerando o contexto e também oferecendo oportunidades de cocriação.

Penso que não é possível resolver um problema apenas sabendo que ele existe, é preciso se colocar no papel de sujeito, de sentir e experimentar a situação com quem a vive diariamente para encontrar e resolver a causa raiz de qualquer problema em conjunto e não de dentro do escritório. Gemba Genbutsu

O povo brasileiro é reconhecido pela sua criatividade e capacidade de se adaptar às situações que não fazem sentido dando um “jeito” nas coisas, isso acontece a todo momento, nas mais diversas situações. O que percebemos em iniciativas como as citadas anteriormente é justamente envolver quem tem mais interesse na efetividade do governo e provocá-los a dar um jeito no governo.

A solução para os problemas neste mundo complexo não virá de cabeças brilhantes encasteladas e sim de um movimento coletivo e em rede que envolva a todos, tanto do governo, quanto da sociedade. Para isso é preciso que os governos provoquem a criação de um ambiente que todos possam, de fato, se conectar e resolver juntos os problemas.