01 — A Goela

Como aconteceu nas últimas noites, este sonho a fez despertar com medo, e banhada em suor. Estava certa de que, por mais que tentasse, não conseguiria dormir novamente.

Para se situar no ambiente, a menina olha para os lados, reconhecendo os detalhes do ambiente: as sombras do galpão, incontáveis pilhas de sucata, o cheio de graxa constante, a cama que construiu com ferragens e os poucos pertences que reuniu desde aquele dia…

Secando o suor com um pedaço de lona suja, caminhou até o espelho mais próximo. Pelos seus fragmentos, conseguia ver uma jovem, de cabelos curtos e castanhos. Sua pele era morena, pouco mais clara que as manchas de fuligem e graxa — uma visão bem distinta da jovem de cinco anos atrás.

As cicatrizes eram as diferenças mais aparentes: graças à explosão, boa parte de seu rosto e torso estavam pontilhados por minúsculos fragmentos de metal. Por um milagre, não perdeu a visão naquele maldito acidente.

De todas as marcas em seu corpo, o braço esquerdo era a mais dolorosa delas. O encarou de soslaio, do ombro até o cotovelo, e logo cobriu seus olhos. Ele simbolizava o fracasso pleno, constantemente lembrado pela “dor fantasma”…

“Bolt! Você já acordou?”

Num sobressalto, virou-se para encarar o dono daquela voz: um homem grande e corpulento, de rosto dócil e cor de fuligem.

“Ande logo, porque o Chefe está de mau humor hoje…”

Respondeu apenas com um bufo, bem compreendido pelo grandalhão que, com um sorriso tímido no rosto, deu as costas e voltou a seus afazeres. Ela, por sua vez, se concentrou numa pilha de placas de metal sobre a mesa mais próxima.

Desenrolou-a, revelando uma prótese feita de sucata, pistões e pequenos motores. Com as grossas alças de couro, encaixou-a em seu braço mutilado — novamente se acostumando com o desconforto causado por elas. Calibrou manualmente o pistão, de modo a encaixá-lo em seu cotovelo e, com o manejo de alguns botões, acoplou em sua ponta um gancho simples.

Em seguida, vestiu um camisão de lona batida sobre a regata que sempre usa, um cinturão repleto de ferramentas e um par de botas de camurça pesadas, para protegê-la de possíveis “acidentes” em seu serviço.

Por fim, ajustou na testa seus inseparáveis óculos de solda, que antes pertenciam a seu pai; o fez com cuidado, como se aquilo fosse um ritual de boa sorte.

Mais um dia pela frente”, suspirou antes de sair.


Os primeiros raios de sol reluziam nos monumentos singulares de metal que permeavam as ruas desta cidadela. Para quem morava ali, era isso que tornava a Goela o que ela de fato é:

Um cemitério de carros, e de esperanças.

Segundo dizem, ela se formou logo após a primeira Corrida — com a queda acidental de alguns pilotos do percurso, situado no desfiladeiro vinte metros acima. O menor erro de percurso dos competidores ajuda a proliferar não apenas a estranha paisagem, como também a sua alcunha.

Assim como a grande maioria de seus moradores, Bolt passou a viver na Goela logo após o acidente na Corrida; afinal, nada sobra para um piloto após um erro como esse (no máximo, sua vida e um pouco de autopiedade…). Em tempos de competição, algumas caravanas também se fazem presentes para negociar mercadorias, ou tentar jovens a participar da disputa.

Caminhando por entre as carcaças de carros e pilhas de metal retorcido, Bolt percebera a mudança de ares: pessoas que nunca vira antes, o ar pesado pela fumaça dos veículos recém-chegados e a excitação das crianças pelas “ruas” da Goela.

Tudo levava a crer que a Corrida estava prestes a começar novamente…

De tão distraída com as novidades, quase não percebeu estar próxima da garagem onde trabalha; o fez apenas depois de trombar com um mal-humorado mecânico de meia idade.

“Por onde esteve, Bolt? Tenho vários carros para preparar, e você fica vadiando por aí?”

Ela detestava toda aquela rispidez nos modos de Walker, e ter de encará-lo todo dia reduzia drasticamente o seu otimismo.

Erguendo a mão em ameaça, ele continuou:

“Vá logo trabalhar, garota estúpida!”

Bolt acatou à ordem, muito mais por si própria que pelas palavras daquele sujeito. Afinal, não há lugar mais confortável para ela que a oficina.

O cheiro de óleo quente, associado à lógica particular das máquinas, eram distração suficiente para suas angústias. Aliás, qualquer trabalho que não envolvesse lidar com pessoas seria bom o suficiente para ela, como o velho Walker já percebeu em algumas ocasiões…

Foi o seu trabalho com motores que a tornou reconhecida entre os moradores da Goela, que a tirou da miséria e solidão para ser adotada pelo mecânico-chefe. O maior exemplo disso está em sua prótese, desenvolvida pela própria. Com seus pequenos motores, ela possui um eletro-ímã forte o bastante para ajustar ferramentas e outros instrumentos em sua extensão, como se sua mão estivesse ali, segurando-as.

O dia passa tranquilo e rápido para ela, de tão concentrada na montagem de motores para os carros recém-chegados. Só percebeu que o dia terminara quando a carranca de Walker se fez presente.

“Vamos, recolha tudo! Chega de trabalho por hoje.”

Contrariada, a menina começa a cobrir os frutos de seu trabalho. Não fazia o menor esforço para esconder o asco em seus olhos, e isso tira o seu patrão do sério.

Com as mãos no pescoço de Bolt, ele a coloca contra a parede.

“Presta bastante atenção, garotinha! Eu não te dei comida e abrigo por todos esses anos para receber essa ingratidão toda!

Ou você me trata com respeito daqui pra frente, ou jogo você no ferro-velho outra vez!”

Ele logo percebeu que não receberia nada além daquele olhar frio, e a largou no chão. Deu as costas, e saiu imerso em seus resmungos habituais. Já a garota se concentrou em fazer o que lhe era esperado: apagou as luzes da oficina, e voltou para sua casa.


Já em “casa”, Bolt se desfez da máscara anti-social que criou para si própria. Tirava suas roupas de trabalho e sentia-se mais à vontade ali, em meio às incontáveis pilhas de ferro-velho daquele galpão fétido.

Com cuidado, retirou os alimentos que trouxe consigo em uma bolsa de couro batido e, acoplando uma panela chanfrada em sua prótese magnética, preparou rapidamente uma sopa no fogareiro lá instalado. Podia não ser a melhor refeição do mundo, mas era tudo que podia ter na vida — e, para seu consolo, era muito melhor que as noites entregues à fome e desespero…

Depois de bem servida, voltou suas atenções para um largo volume próximo à sua cama, coberto de retalhos de lona multicoloridos. Retirou a cobertura com calma, revelando aos poucos o fruto de seu trabalho.

Seu próprio carro, ainda que inacabado.

Um sorriso se formava timidamente em seu rosto, ao reencontrar a razão pela qual suas noites ficaram em claro nos últimos dois anos. Passeava com a mão em sua lataria, conferindo cada detalhe de sua estrutura; um ritual que se repete noite após noite, para quem sabe confirmar a busca por seu objetivo.

Estava construindo aquele carro com seu próprio suor, à imagem daquele que seu pai pilotou em sua última Corrida. Ela teve o cuidado de recriar aquela máquina, em seus mínimos detalhes…

No momento, estava montando o núcleo dele: seu motor. Há três noites seguidas, trabalhava nele, o montando direto no bloco de chassi em um frenético vai e vem de ferramentas, tubos, válvulas e parafusos.

A noite avançara bastante em relação ao seu trabalho, no momento em que Bolt percebeu algo estranho. Lá de fora, um ruído inesperado de vidro quebrado interrompe seu fluxo.

Q-quem está aí?

Acoplando uma marreta em sua prótese, caminhou até os fundos do galpão. A penumbra elevou a cautela da jovem, resgatando péssimas memórias de seus anos solitários…

Acabou rendida por um vulto grande, pelas costas. Colocando a mão sobre sua boca e segurando sua mão direita, ele a neutralizou com relativa facilidade.

“Shhh, gatinha. Fique quietinha, e nada irá lhe acontecer, ok?”

O riso abafado, e maldoso, ecoando nas sombras denunciou a presença de outros três homens, todos corpulentos e vestindo farrapos do antigo mundo. Em suas mãos, grossas correntes e barras de ferro serviam de pista para suas intenções.

“Nós apenas queremos ver no que a ‘prodígio da Goela’ anda trabalhando…

O hálito forte de bebida deu à Bolt uma idéia inesperada; por por sorte ou, talvez, pura imprudência, sua prótese foi deixada de lado por aquele valentão. Bastava somente o momento certo aparecer para usá-la.

“Rapazes, dêem uma olhada naquilo ali.”

O momento em que seu captor se virava para apontar seu carro tornou-se a hora de revidar. Esforçou-se para erguer a prótese, deixando que a força do embalo levasse a marreta até o rosto do sujeito, numa pancada capaz de jogá-lo para trás.

Agora que estava livre, deixou-se levar pela ira em ver aqueles brutos se aproximando de seu maior trabalho.

- Não cheguem perto dele!

Os três se viraram, percebendo o que tinha acontecido. Bolt já estava concentrada nos botões de sua prótese, ajustando a polaridade do ímã para repulsão. Teve apenas tempo de apontá-la para um deles, antes que a marreta fosse disparada — o acertando em cheio.

Isso atiçou ainda mais a raiva nos capangas, que prontamente investiram contra ela. Na pressa de encontrar alguma ferramenta útil o bastante para substituir a marreta, acabou lançada no chão por um golpe pesado de uma corrente.

O riso deles ecoava novamente pelo galpão, enquanto a menina tentava se levantar.

- No fim das contas, é apenas uma garotinha indefesa.

Com um dos olhos inchado pela pancada que sofreu, o líder do grupo aproxima-se para o revide, erguendo-a pelos cabelos curtos.

- Como você foi desobediente, terá que ser castigada!

Socou o rosto dela duas ou três vezes, antes de sentir uma dor profunda no punho. Percebeu que ele estava todo escoriado, graças aos pedaços de metal que marcam o rosto da menina.

- Mas que merda é essa?

Bolt manteve a postura firme, mesmo com a dor lancinante lhe perturbando. Os capangas daquele coitado nem esperaram ordens para atacar novamente.

A única coisa que os deteve foi o punho cerrado de Clive, o capataz cor-de-carvão de Walker. Para um homem daquele tamanho, segurar aqueles garotos era brincadeira de crianças.

O próprio mecânico-chefe aparecera, com uma espingarda em mãos e cara de pouquíssimos amigos.

- Acho que a festa já terminou, não é mesmo Bonnie Boy?

O invasor mordia seus lábios de raiva. Mesmo a dor em seu punho não lhe privara da valentia.

- E você vai fazer o quê com esse brinquedo, velho?

O simples engatilhar da arma fez o sangue dos capangas gelar de medo, e a fuga tornou-se a melhor opção para eles. Motivado pela covardia de seus pares, Bonnie Boy fez o mesmo — mas não sem encarar a garota nos olhos.

- Isso não vai ficar assim, fedelha!

Com a fuga dos valentões, Bolt teria outros problemas para lidar daqui pra frente. Clive seria, sem dúvidas, o menor deles, pela simpatia que um nutre pelo outro. O problema seria o velho Walker, e o seu olhar irritadiço em relação ao seu “segredo”…

- Acho que temos muito a conversar, não é mesmo?

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