Achamos que aplanámos a curva da epidemia, e agora?

Uma opinião com base em factos, de e para “não epidemiologistas”

Hugo Fonseca
Apr 6, 2020 · 9 min read

Introdução

Desde a quase certeza da Ministra da Saúde de que o pico da epidemia seria a 14 de Abril,¹ em dez dias vimos diferentes personalidades do Estado dizer que o pico pode ser em maio² ou fim de maio.³ Na verdade pode ser em qualquer data pois se as projecções são a uma semana⁴ tudo é possível.

Também têm havido muitas noticias e questões sobre a a falta de testes, que todos estranham, mais testes dão mais detecções, pelo que, no limite, devia testar-se uma grande parte da população e dessa forma saber o ponto exacto da situação, o modelo Islandês.

No texto abaixo, mostro (i) a situação actual dos testes como reportado pela DGS, (ii) que vamos ver o pico quando ele chegar e não porque Portugal o consegue prever, e (iii) o que podemos esperar nas próximas duas semanas.

A situação actual dos testes

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Figura 1: número diário e acumulado de testes reportados pela DGS e casos confirmados (https://covid19pt.info/)

Como se pode ver acima, só a partir de 28 de março é que o número diário de testes reportado passou dos sete mil por dia. Contudo, este número diário de testes é simplesmente para acompanhar o número de casos suspeitos. Tem-se discutido muito o número de testes mas não porque se testa assim, por isso tento explicar abaixo.

O que é um caso suspeito?

De acordo com a DGS⁵ um caso suspeito é uma “Pessoa que preenche os critérios de definição de caso suspeito (clínicos, laboratoriais e/ou epidemiológicos), de uma determinada infeção ou doença.”.⁶ Para perceber o que a DGS quer dizer, com base na tradução de um documento das autoridades de saúde Australianas⁷ , ficamos a saber que um caso suspeito é alguém que:

  • até 14 dias antes de ter sintomas, tenha viajado para o estrangeiro, ou contacto próximo com um caso confirmado, e que tenha febre ou sem febre tenha uma infecção respiratória (falta de ar, tosse ou garganta inflamada); ou

Por essa razão, em 16 de Março de 2020, a OMS aconselhou todos os países a “testar, testar, testar”,⁸ testar todos os casos suspeitos.

Não devíamos testar mais além dos casos suspeitos?

A DGS reporta diariamente que os testes equivalem aos casos suspeitos, pelo que, não havendo um relatório oficial relativo aos testes realizados, entendo que Portugal só está a testar pessoas que ou têm febre, ou infecção respiratória ou pneumonia.

Mas então e todos os que estão em risco?, ou todos os que estiveram com alguém infectado mas não apresentam sintomas? Naturalmente alguns desses serão testados, mas com base no limite diário de realizar e processar testes, e no custo dos mesmos, a DGS e o Governo hão de ter definido como ‘racionalizam’ os testes.⁹ Abaixo uma comparação do total de testes feito por milhão de habitantes.

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Figura 2: Numero total de testes feito por milhão de habitantes (dados a 4 de Abril, Our World in Data, DGS)

À excepção da Islândia que tem uma capacidade instalada muito superior que qualquer outro país, e da Coreia do Sul que fez um controlo excepcional desde muito cedo e conseguiu verdadeiramente aplanar a curva, o Governo Português (tal como quase todo o mundo) constatou que nesta corrida de Formula 1 não há motor para ‘apanhar’ a epidemia, por isso Portugal vai tentar mitigar a taxa de crescimento o melhor que puder, sabendo que numa fase posterior ao pico, terá de haver tempo para alargar os testes e perceber os riscos.

Como se vê acima, Portugal está a testar mais ou menos ao ritmo de outros países, mas mesmo isso é relativo, pois há critérios diferentes, os EUA reportam por testes, o Reino Unido por pessoa testada, há países que não reportam os testes privados, etc…

Ou seja, se não houve a capacidade de controlar os acessos e o inicio da epidemia como na Coreia do Sul, e se não temos a capacidade da Islândia de processar testes de uma grande parte da população, então faz-se o que se pode, que é testar os casos suspeitos e ir gerindo.

Sem testes, como podemos calcular o pico?

Como considerado acima, se o número de casos reportados pela DGS se refere a casos com sintomas mais ou menos sérios e esse será o critério pela Europa, e há critérios diferentes de reportar testes país para país, então o número de casos dos restantes países europeus não vão ser fiáveis para projectar um cenário para Portugal.

Ou seja, nunca se saberá quantos casos de facto existiram, e o pico que vai ser gerido é o numero de casos que têm sintomas mais ou menos sérios e os casos internados. Há uma variabilidade relativamente aos casos sem sintomas ou quase sem sintomas que faz com que acertar no pico de residentes que a um dado momento estão infectados e a contagiar outros seja impossível, e neste momento não está no topo da lista de urgências.

Contudo, considerando que cada país reportou ‘à sua maneira’ mas que o fez de forma mais ou menos consistente ao longo do tempo, podemos tentar estimar o numero de casos de pessoas com sintomas sérios com base no impacto das medidas tomadas.

Mesmo não havendo um número, há sinais calculáveis

Abaixo está um gráfico que mostra a média móvel de 5 dias da taxa de crescimento de casos confirmados para cinco países diferentes, a partir do dia I, sendo o dia I o dia em que tomaram medidas de isolamento social.

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Figura 3: Média móvel de 5 dias da taxa de crescimento de casos confirmados, a partir do dia em que foram tomadas medidas de isolamento social

No dia 14 de março, Portugal ‘iniciou’ medidas de isolamento social, a média do crescimento diário de casos confirmados entre 10 e 14 de março (5 dias) foi de 35%, essa média ultrapassou os 40% nos dias seguintes, mas a partir de 19 de março essa média começou a descer, sendo que no dia 29 de março, estava nos 20%. Ou seja, a média da taxa de crescimento de casos entre 25 e 29 de março foi metade do que a média dessa mesma taxa nos cinco dias antes das medidas serem tomadas.

Para os países apresentados acima e para outros, doze a catorze dias depois de serem tomadas as primeiras medidas de isolamento social, a média móvel é cerca de metade do que era no dia de tomada das medidas.

Esse período está representado no gráfico acima como ‘Fase 1 de isolamento’. As restrições fazem com que cada pessoa com o virus infecte menos pessoas do que infectaria se não estivesse em isolamento e em países com medidas semelhantes o impacto é semelhante.

Portanto já existiu o impacto dos primeiros 14 dias de isolamento, os casos com sintomas foram aumentando nesse período pois referiam-se às pessoas que tinham sido infectadas antes das medidas, mas, como nos restantes países, a taxa de crescimento da infecção reduziu-se para metade do que era antes das medidas.

O período até 12 de Abril vai mostrar o resultado das medidas que foram tomadas.

O Governo Português está cautelosamente optimista

Portugal tomou medidas mais cedo, quando tinha menos casos com sintomas que outros países, e por isso não tomou medidas de fecho de toda a actividade não essencial, como aconteceu primeiro na China, e numa segunda fase em Itália e Espanha. Dessa forma, pode ser demasiado optimista esperar uma quebra tão acentuada da taxa de crescimento como nos países que cortaram toda a actividade económica.

Além disso, sem uma quantidade de testes muito superior às capacidades do país, sem certeza que todos os países estão a reportar da mesma forma e e sem medidas os países terem tomado exactamente o mesmo tipo de medidas de isolamento e contenção, não é possível ter parâmetros para um modelo.

Dessa forma, Portugal tem razões para se ir mantendo moderadamente optimista relativamente ao plano de saúde pública, mas sem saber se o pico já ai está ou se está para vir, pelo que as medidas não se vão reduzir durante Abril.

O nosso pico pode ser mais estável e mais longo

Em Itália e Espanha está a acontecer o que aconteceu na China. Os primeiros catorze dias de isolamento do país inteiro permitiram ‘estancar’ o crescimento do número de novos casos diários (no caso da China, da zona afectada). Até doze dias depois há uma consolidação do número de casos diário (figura 4).

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Figura 4: Média móvel de 5 dias do número de casos confirmados diários, a partir do dia em que foram tomadas medidas de isolamento social (apresenta-se a média móvel para evitar os ‘saltos’ de reporting diário sem desvirtuar a tendência)

Contudo em Espanha e Itália o fecho de toda a actividade comercial não se deu no dia I como na China, pelo que já começaram a ter uma quebra, mas o nível dessa quebra só se vai confirmar com o fim da fase 2 de isolamento, no dia 6 de Abril para Itália e dia 11 de Abril para Espanha.

O caso de Portugal é diferente, como não houve a paragem total, 21 dias depois de tomar medidas de isolamento social, o número de casos diários não mostra uma quebra consistente. Sugerindo que as medidas estão a surtir efeito porque há a descida da taxa de crescimento, mas como as medidas não são tão restritivas como no caso de Espanha ou Itália, essa taxa de crescimento de casos pode não reduzir tão rapidamente (ver figura 3).

O nosso pico em número de casos diário será muito mais baixo que o de Itália ou Espanha, contudo poderá levar mais tempo a ser atingido.

Então o que podemos esperar?

Relativamente a casos diários, podemos esperar mais do mesmo, as medidas tomadas para o próximo período não tiveram grandes alterações, porventura o aumento do número de testes diário poderá permitir detectar mais casos, mas como referido acima o que vai contar são os casos sintomáticos em especial os que podem levar ao internamento.

A semana que começa a 6 de Abril é importante para confirmar que estamos a conseguir reduzir a taxa de crescimento de casos de forma a que o número de novos casos diários não aumente. Ou seja, conseguir descer a taxa de crescimento da média de 10.7% nos últimos sete dias para uma taxa de 6% nos próximos sete dias, o que significaria menos de 800 casos sintomáticos por dia.

Por outro lado, se quando já passaram mais de 14 dias das medidas tomadas, o número de casos sintomáticos diário aumentar, então ainda não atingimos o pico e nesse caso, podemos esperar mais medidas, pois a conta é simples, para evitar o cenário de Itália ou Espanha, o número de infectados diário não pode levar a que as camas com ventiladores fiquem todas ocupadas.

Conclusão

Como referido na projecção de 15 de Março (https://covid19pt.info/), verificou-se o impacto das medidas, a taxa de crescimento diária de casos entre 15 e 28 de Março foi de 27.8%/dia, enquanto entre 29 de Março e 4 de Abril foi de 10.7%/dia. Este é o impacto do isolamento social, menos contactos entre cada pessoa, menor numero de pessoas infectadas por cada um que tem o virus, reduzindo a taxa de crescimento dos casos diários.

Portugal não tem capacidade de fazer testes generalizados, pelo que a gestão e projecções são para gerir a capacidade do SNS e não para chegar ao fim da epidemia.

Entre 6 e 13 de Abril, um bom cenário esperado é que o número de casos diários se mantenha abaixo dos 800 casos por dia, isso significaria que as medidas em vigor são suficientes para controlar a epidemia, e ai é pensar no pós epidemia, contabilizar que meios são indispensáveis para o SNS, qual o plano para testar crianças e professores e que medidas podem permitir abrir escolas sem riscos, e que outras restrições podem começar a mudar e quando.

Por favor, peçam a todas as pessoas com fatores de risco (doença cardiovascular, diabetes, doença respiratória crónica, hipertensão arterial) ou com idade superior a 60 anos para ficar em casa.

Hugo Fonseca

Acredita que por vezes não são necessários peritos para compreender problemas complexos

Sabe trabalhar com folhas de cálculo e desde 7 de Março está a tentar encontrar tendências da epidemia.

Parte da equipa a desenvolver e manter o site https://covid19pt.info/

¹ https://medium.com/@hugo.inv/portugal-vai-chegar-ao-pico-da-epidemia-no-dia-14-de-abril-de-2020-8bd499028504

² https://sicnoticias.pt/especiais/coronavirus/2020-03-27-Pico-da-pandemia-em-Portugal-devera-chegar-em-maio

³ https://rr.sapo.pt/2020/04/03/pais/pico-de-covid-19-em-abril-ou-maio-se-cumprissemos-todas-as-medidas-seria-em-duas-a-tres-semanas/especial/187778/

https://expresso.pt/opiniao/2020-03-29-O-pico-e-no-final-de-maio.-Certo-mas-qual-pico-

⁵ Direcção Geral de Saúde Portuguesa

⁶ pagina ii, https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/plano-nacional-de-preparacao-e-resposta-para-a-doenca-por-novo-coronavirus-covid-19-pdf.aspx

⁷ Ministério da Saúde de New South Wales, Australia, https://www.health.nsw.gov.au/Infectious/diseases/Pages/2019-ncov-case-definition.aspx#suspect

https://www.who.int/dg/speeches/detail/who-director-general-s-opening-remarks-at-the-media-briefing-on-covid-19---16-march-2020

https://expresso.pt/coronavirus/2020-03-24-Nao-ha-racionamento-nos-testes-ha-racionalizacao-garante-secretario-de-Estado-da-Saude

covid19pt.info

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