Casamento é legal, o problema é o fã clube

A foto que eu mais gosto veio de uma câmera amadora

O dia em que eu me casei passou longe de ser o mais feliz da minha vida. Acho que não entra nem nos top 20. Mas se o critério for tensão e desespero, ele chega perto de ser medalhista olímpico. Não tinha muito como ser diferente, considerando o estado em que eu me encontrava naquela época. Era expectativa demais pra algumas poucas horas.

E pra completar, foi uma comédia de erros desde o início. Eu passei mal do estômago o dia inteiro. A energia do hotel onde eu me arrumei caía a cada vez que o secador era ligado. O penteado teve que ser improvisado, o bolo desabou no caminho, eu tive duas crises de choro escondida dos convidados e achei que estava horrível em todas as fotos que me mostravam.

E embora as coisas tenham melhorado com o tempo, e eu tenha conseguido me divertir com aquelas pessoas que achavam tudo perfeito, no fim da noite eu estava um lixo.

Eu não era uma princesa da Disney, eu tava mais pra Rocky Balboa depois de apanhar do Apollo Creed. Várias vezes.

Só que assim como o Rocky tinha a Adrian pra abraçar no fim da luta, eu tinha o Lucas pra me consolar daquela destruição. Sim, o Lucas. Era por ele mesmo que eu tinha inventado aquele espetáculo todo? Acho que não. Mas era ele que estava lá, lembrando que a decisão era correta, embora ela tivesse se realizado num contexto esquisito. Eu era tão jovem, já tinha errado tanto, mas ainda assim fui dormir casada com a melhor pessoa.

Como uma instituição tão antiga como o casamento, e que tem uma história tão suja no Ocidente, pôde funcionar tão bem pra mim? Às vezes eu sinto como se eu tivesse cumprido uma profecia, já que martelam na nossa cabeça desde cedo que sem casar (com um cara) uma mulher não pode ser feliz. Acho estranho existir tanta cobrança em algo que depende de sorte e vontade, e que não é indispensável na vida de ninguém.

Não é pedir demais que a mesma escolha possa satisfazer todas as pessoas tão diferentes do mundo?

Foram muitos acasos pra que eu e o Lucas pudéssemos ficar juntos. Primeiro foi o de ele aparecer online no ICQ num dia em que eu buscava alguém pra conversar. Eu na Bahia, ele no Ceará de mudança pra São Paulo. E depois de uns anos surgiu pra mim uma seleção de mestrado na cidade em que ele morava. Aí lá fui eu ficar na casa desse sujeito que eu só tinha visto uma vez, com quem eu nunca havia ficado sozinha e que eu nem esperava encontrar de novo.

Começamos a namorar durante as provas mesmo, e continuamos depois que eu passei. Mas a vida era difícil em São Carlos, ainda mais porque a minha mãe acabou morrendo bem nessa época. Eu voltei pra casa, e seguimos namorando à distância por quase três anos. Quando eu não suportava mais viver assim, ele acabou passando no concurso pra professor da UFMG. E assim casamos, há sete anos.

Eu não acredito em destino, providência divina, convergência dos astros, almas gêmeas, nenhuma dessas coisas. Eu já fico feliz só de termos nos encontrado.

Hoje eu amo o Lucas mais do que eu amava no tempo de namoro. Eu amo as pessoas que nós nos tornamos por estarmos juntos. Todo mundo muda sempre, e eu acho que um ajudou o outro a evoluir um pouco mais. Eu adoro como os nossos interesses vão se alterando ao longo do tempo, e como a gente sempre tem milhões de assuntos pra conversar.

Mas eu continuo levando um susto de pensar que eu sou uma "esposa", e ele é um "marido". Por que a gente tem que usar esses termos tão carregados pra se referir um ao outro, e porque o peso da tradição fica se colocando sobre nós? Pessoas que não nos conhecem esperam que a gente desempenhe um papel, uma galera que nem sabe as besteiras que a gente diz dentro de casa, e como a gente se alegra com essas besteiras.

Aliás, eu espero que nunca coloquem uma escuta no nosso quarto. Se bem que podiam colocar e vazar o áudio. Aí as músicas que eu improviso ficariam conhecidas no país inteiro. O resto da gravação não ia ser novidade pra ninguém.

Se eu fosse me casar hoje em dia acho que eu ia fazer tudo em segredo, e só anunciar quando já estivesse com a certidão na mão. Sim, eu tenho um fetiche por esse pedaço de papel em que nossos nomes aparecem juntos, porém com sobrenomes diferentes. Eu também tenho carinho pela minha aliança, que só essa semana voltou a caber no meu dedo.

Tá, eu admito, eu gosto de tradição. O que eu não gosto é de opressão. Detesto que pensem que o Lucas é quem manda, e que eu me jogo no chão todos os dias pra ele passar por cima. Detesto que pessoas aleatórias me exijam filhos porque supostamente foi pra isso que eu me casei. Detesto que inventem um relacionamento que eu não tenho de jeito nenhum.

Eu jamais conseguiria ficar tantos anos com uma pessoa que se colocasse acima de mim, e se considerasse o reizinho patriarcal de um apartamento de três quartos. Eu escolhi ficar com o Lucas porque além de fofinho, lindo, inteligente e divertido, ele também luta por igualdade assim como eu. E arruma briga com os parça machista na internet. Esse homem é tudo, gente, cês não tão entendendo.

O sofrimento lá do dia em que a gente se casou me ensinou uma grande lição: é perigoso se deixar levar pela aceitação social que vem quando você segue a cartilha de gênero. Eu me senti acolhida enquanto noiva mais do que em qualquer outro papel da minha vida, porque eu sou mulher, e era isso que esperavam de mim. E seguem esperando ainda mais.

É difícil, mas eu sigo tentando lutar contra esse grande Jogo da Vida que tenta tornar iguais as trajetórias de todo mundo. E ainda bem que eu tenho o Lucas pra correr na minha direção depois que o sino toca e a luta acaba.


Oi, tudo bom por aí? Seguinte, eu escrevo aqui no Medium, e você pode encontrar os meus textos todos juntinhos na minha publicação Coxia de Desconchavos.

E dá também pra assinar a minha newsletter, onde eu escrevo sobre muita coisa, e te mando por e-mail a cada duas semanas. Aí você assina, e não precisa fazer mais nada, só esperar pra ler.

Mas se não tiver tempo pra nada disso, libera só um coraçãozinho aí embaixo que já tá bom (assim todo mundo vai poder ler). ❤