Essa nossa bandeira que só me representa mais ou menos

Eu não sou do tempo da OSPB nem da Educação Moral e Cívica. Quando eu fui pra escola, essas duas disciplinas do período militar já estavam em processo de extinção oficial.

Mesmo assim, restou um pouquinho delas no coração de cada uma das diretoras dos colégios onde eu estudei. Principalmente em relação a esse negócio de símbolos nacionais.

Tá certo que eu frequentei escolas religiosas, o que ajudava um pouco a manter o espírito da coisa. Daí que além de rezar pais nossos e ave-marias todos os dias, a gente também tinha que cantar o hino nacional uma vez por semana.

Hino este que sempre caía em questões de gramática, pra você ver como ele era acessível.

[caption id=”” align=”aligncenter” width=”436"]

image

Sofrendo no sol em algum 7 de setembro, talvez de 88[/caption]

E eu me lembro daquelas aulas de Estudos Sociais em que a gente aprendia o significado das cores da bandeira. Verde era pras matas, tranquilo. Elas tão sumindo cada vez mais rápido, mas ainda sobrou um pouquinho pra valer a representação.

Aí vinha esse amarelo do ouro e das riquezas. Nem é o amarelo do sol, que é abundante em quase todo o território nacional, mas o do vil metal. Aquele que os escravos morreram procurando em Minas Gerais na época do Império, e que trouxe o caos à Serra Pelada nos anos 80.

E desculpa a sinceridade, mas acho cafona ficar se gabando da grana que tem. É como se a nossa própria bandeira ficasse gritando “sou ryyyyca!” a cada vez que a gente olha pra ela. Desnecessário.

Sem falar que verde e amarelo não combinam muito, são duas cores “cheguei” demais. Tanto que nem a seleção brasileira, nem os Correios, nem o Banco do Brasil usam as duas juntas, preferindo o amarelo com azul, que fica bem mais harmônico.

[caption id=”” align=”aligncenter” width=”611"]

image

Copa de 90, como já diz na camisa[/caption]

Do azul eu confesso que gosto, é a minha cor favorita. É na parte azul que está o que supostamente foi o nosso céu em uma noite aí do final do século XIX. Exceto pela estrela Tocantins, que chegou depois.

Eu passei muitas noites da minha infância procurando o Cruzeiro do Sul, principalmente quando a gente ia pra casa da praia e as estrelas ficavam mais visíveis. E quando achava, vinha a hora das Três Marias. E aí eu só tentava contar quantas existiam, esperando pela verruga no meu dedo (que jamais chegou).

O Cruzeiro do Sul na bandeira me representa.

Mas aí vem esse negócio de “Ordem e Progresso”. É o que deixa o nosso pendão (lábaro? auriflama?) mais datado. Eu até consigo imaginar alguns senhores barbudos conversando sobre positivismo, animadamente montados em seus cavalos, e usando nossa bandeira na falta de Twitter.

“Progresso” é uma dessas palavras que me dão a maior agonia. Eu só penso em engarrafamentos, poluição e histórias pedagógicas do Papa-Capim. “Ordem” até é uma coisa boa, mas junto de “progresso” me lembra desses diretores de colégio interno de filme.

[caption id=”attachment_1009" align=”aligncenter” width=”464"]

wp-1460130632271.jpeg

Mais uma da mesma copa[/caption]

Antigamente a gente só via a bandeira do Brasil por aí em eventos bem específicos: Copa do Mundo, 7 de Setembro, alguma inauguração de obra federal e estrangeiros deixando o país.

Ninguém colocava uma bandeira na janela porque achou legal num dia aleatório. Não era fácil assim achar um patriota.

Aliás, o que é ser “patriota”? Cantar todos os hinos brasileiros sem errar? Saber todas as capitais de todos os estados? Declamar “Canção do Exílio” nas festinhas? Exaltar esse Brasil brasileiro com “mulatos inzoneiros” e “morenas sestrosas” que só existe nas músicas da ditadura Vargas?

“Brasil: ame-o ou deixe-o”, a gente já ouviu essa história.

Eu acho que eu não sou patriota. Pra mim esse país do “todos juntos, vamos, pra frente, Brasil, Brasil” não existe. Aliás, “país” existe? Somos todos igualmente ligados só porque nascemos dentro dessas linhas?

[caption id=”” align=”aligncenter” width=”467"]

image

Chocando a sociedade itabunense ao petralhar no 7 de setembro de 92[/caption]

O “interesse nacional” é um que junta cada um dos interesses diferentes que existem aqui ou que faz um prevalecer sobre todos os outros? Tem que ver isso aí.

Mas enfim, voltando à bandeira, e aos meus colégios. Lá onde eu fiz o antigo ginásio havia o costume de tocar uma música específica no dia da Independência. Era “Eu te amo, meu Brasil”, de Don e Ravel, um hino da ditadura militar em sua época mais sangrenta.

Não acho que as tias lá da escola estavam em uma de glorificar os Anos de Chumbo. Mas não dá pra perdoar também. A música é tão chata, quanto grudenta, quanto vazia, quanto insuportável.

Fica difícil gostar da bandeira quando só de olhar pra ela vem na sua cabeça “eu te amo meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde, amarelo branco, azul anil”. Ouça aí no vídeo e tire suas próprias conclusões.

Alías, eu nem lembrava que essa música tinha sua dose de racismo com machismo também. Olha que lindos os seguintes versos:

As tardes do Brasil são mais douradas
Mulatas brotam cheias de calor
A mão de Deus abençoou
Eu vou ficar aqui porque existe amor
No carnaval os gringos querem vê-las
No colossal desfile multi-cor

Eu ia fazer a tradicional pergunta de fim de post. Eu ia perguntar “e a quantas anda o seu patriotismo?” Mas melhor deixar pra lá. Essas coisas dão até morte hoje em dia.