Pra que serve a sua culpa?

Você já tentou passear com um cachorro desses grandes? Um labrador, um husky siberiano ou um pastor alemão? Vamos ficar com o pastor alemão nesse exemplo, que é o tipo de cachorro que eu conheço.

Minha família tem um, ele se chama Sal, e ficou lá em Itabuna.

Sair com ele era um inferno, porque ele é forte, desajeitado e se anima com qualquer coisa que vê na rua. Minha irmã sempre voltava cansada, babada e às vezes até ferida, por ter caído durante o passeio.

Mas Sal é um cachorro legal, amigo, e não faz nada disso de propósito. Quer dizer, tanto quanto um cachorro possa ter propósito.

Minha mente é bem desse jeito, talvez a sua seja também.

Meus pensamentos me arrastam pelo chão e nem ligam enquanto eu fico pendurada, raspando o corpo no asfalto. Eles me deixam exausta e perdida, arrancando de mim uma força que eu nem tenho.

E aí eles soltam da coleira e saem correndo por aí, sem rumo, com total indiferença aos meus chamados.

E os meus pensamentos mais indisciplinados têm a ver com culpa, essa sensação confusa que nos diferencia dos psicopatas e deveria existir só pra sinalizar quando a gente faz merda.

Você bateu no coleguinha? Disse uma grosseria que magoou alguém? Surrupiou aquele trocado alheio que tava dando sopa? É a culpa que vai te impedir de seguir por aí como se nada tivesse acontecido.

No mundo ideal a culpa deveria servir pra a gente pedir desculpas, reparar o dano e nunca mais repetir o mal feito. Culpa tem a ver com empatia, com o reconhecimento de que a dor do outro é importante, e de que a gente não pode sair por aí passando por cima de todo mundo.

Mas o que fazer quando você sente culpa de algo que não provocou, nem causou por omissão? E se você não tinha condições de ter responsabilidade pelo acontecido?

E se for completamente impossível que você tenha algum envolvimento com o evento desagradável?

Bem vinda(o) ao meu mundo, colega.

Neste exato momento eu estou morrendo de dor, por conta de uma gastrite com duodenite. Eu não sei direito como é uma dor no duodeno, mas é parte desse complexo de sofrimento que eu tenho sentido.

Ontem eu fui pra aula de manhã, mas tive que voltar pra casa pouco depois. Eu mal consigo usar sutiã, e nem fecho o botão da calça, porque tudo o que encosta na barriga dói.

Eu não sou culpada pela minha doença. Quer dizer, até posso ter provocado o problema por ter tomado antiiflamatórios, mas era uma decisão razoável pra quem tem tendinite no glúteo médio e fascite plantar.

É, eu sou zoada desse jeito, vai vendo.

Mesmo assim, minha mente tem me atormentado. Porque eu não trabalho, eu sou livre pra passar o dia inteiro deitada se isso me fizer sentir melhor.

E mesmo sem emprego eu tenho dinheiro pra comprar os meus milhões de remédios (lembrando que eu também tenho ansiedade, e tive depressão no começo do ano). É um privilégio que me faz sentir meio péssima.

E antes que você diga que eu estou exagerando, vamos lembrar do caso do rapaz de Goiânia que quase foi morto por um policial na Greve Geral do dia 28.

O cassetete quebrou na cabeça dele, é possível que ele fique com sequelas graves, mas mesmo assim a família teve que dizer em público que ele era um “trabalhador” e não um “vagabundo”.

A importância de uma vida foi relativizada por se tratar de uma pessoa de 33 anos cursando uma graduação, ao invés de estar batendo ponto numa empresa qualquer.

Eu já discuti esse negócio de valor social do trabalho em outro texto, mas é uma questão que volta o tempo todo.

E aí vem o lance de eu passar a depender do meu marido mais do que eu já dependo. Ele perdeu uma manhã me levando pra endoscopia, tem me trazido quentinhas quando eu não consigo sair pra almoçar e demonstra uma extrema paciência quando eu viro uma máquina de reclamação.

Tá no contrato de casamento, eu sei. Eu faria o mesmo por ele. Mas Lucas não fica doente nunca, e eu acabo nem tendo a chance de aliviar a minha consciência.

E quando eu me sinto mal, eu visito menos meu pai na casa de repouso. Aí a culpa é gigante, ainda mais porque eu sei o quanto ele tem estado carente nos últimos tempos. E olha que a sensação já foi bem pior.

Quando o diagnóstico dele de Alzheimer saiu, eu achava que a doença era culpa minha. Não sei como, porque entre as minhas muitas habilidades não está a de fazer crescer placas de proteína no cérebro das pessoas.

Mas a culpa é como a Avaiana de Pau, não tá nem aí pro que você realmente fez.

E pra que serve eu ficar me torturando tanto, se isso não faz diferença pro meu pai, pra Lucas ou pros trabalhadores brasileiros? Porque eu sou refém desse cachorro doido, que usa minha mão como mordedor e enrola a coleira nos meus pés?

A resposta é meio desconcertante: pra ter a ilusão de controle. Humanos são assim, gostam de colocar ordem no caos, ainda que seguindo um sistema que não faz sentido.

Se você sente culpa, é porque você teria a opção de fazer alguma outra coisa e não fez. Você está no comando da sua própria destruição!

Tem gente que acusa os outros, o que não é muito legal também. Mas voltemos ao nosso foco aqui.

Eu não sou perfeita, é claro. Você também não é. A gente comete erros, que machucam outras pessoas, e que podem ter consequências inesperadas. Às vezes dá pra consertar, às vezes não, e é preciso se responsabilizar sim.

Mas a culpa que não leva a uma ação não serve pra nada. Ninguém pode ler a sua mente, e te absolver porque você já está sendo mártir.

E se não houve ato nenhum, e você tem um problema que ninguém causou, só aconteceu, então é hora de treinar esse cachorro insolente da sua cabeça. Não sei se já te contaram, mas a gente não reage ao mundo, e sim à forma como a nossa mente processa esse mundo.

Esse é o fundamento da Terapia Cognitivo-Comportamental, que dá pra fazer até por conta própria. Que evidência você tem de que um pensamento faz sentido? Você fez alguma coisa mesmo pra merecer essa culpa?

Eu sei que é mais fácil dizer do que fazer, tanto que eu tô aqui, presa com pensamentos ilógicos até hoje.

Mas eu já me senti muito melhor de ter escrito esse texto, é bom fazer alguma coisa a partir da nossa culpa, mesmo que não tenha nada a ver com ela. Eu consigo até sentir a acidez do meu estômago diminuindo.

Será que escrever cura gastrite? Aguardemos.


Texto publicado na minha newsletter no início de maio. Meu estômago já está bem melhor, obrigada.

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