Qual o problema da "solução fácil"?

Ontem eu apresentei um trabalho de faculdade sobre a crise dos opióides nos Estados Unidos. Tá feia a coisa lá, tem mais gente morrendo de overdose de remédio do que morria de AIDS no auge da epidemia. Até o Prince morreu de opióide, e um dos mais fortes, o fentanil.

Nosso grupo mostrou esse problema no formato de talk show, cada uma das integrantes fingia que era uma especialista, e a gente vestiu a camisa do personagem. Eu era a Presidente da Associação Americana de Dor Crônica e defendia os direitos dos pacientes.

Uma outra menina fazia a médica intransigente que queria acabar com esses analgésicos todos. Eles seriam a "solução fácil" pra uma questão complexa.

O que tornou esse trabalho interessante, e digno de três parágrafos nesse texto, foi o fato de eu mesma estar numa crise de dor. Eu tenho fibromialgia, que foi diagnosticada esse mês. Pense na cana que sai do moedor, e aí você pega e passa no moedor de novo. Essa sou eu há vários dias, ainda mais quando eu não durmo direito.

Eu tomo muitos remédios, tantos que eu tive até que baixar um aplicativo pra lembrar deles, fibromialgia nem é o único dos meus problemas. Tem o antidepressivo pra controlar ansiedade, evitar recaída da depressão, e agora pra diminuir o limiar da dor. Tem o ansiolítico pra quando a crise de pânico aparece, o relaxante muscular pra quando tá tudo travado, o comprimido pra gastrite e ainda o pra dormir.

Eu logo de manhã

Uma galera me diz que certos remédios são uma "solução fácil" pros problemas. Antidepressivos não, terapia. Ansiolíticos não, exercícios e meditação. E anticoncepcional? Você ainda toma esse veneno inventado pela Big Pharma pra controlar o corpo das mulheres? E daí que você tem endometriose (como eu)?

Deixa eu te dizer, eu que acordei 4 da manhã mesmo tomando remédio e tenho que esquentar o corpo pra conseguir sair de casa: solução fácil é tudo o que eu quero. Eu não quero ter dor, eu não quero sofrer, eu não quero sentir que o meu corpo tá tentando me destruir. Se existisse um comprimido que resolvesse magicamente os meus problemas é claro que eu iria tomar.

Tem gente que parece viver ainda nos anos 80, naquele tempo em que Prozac era a "pílula da felicidade" e tomar antidepressivo era fugir dos problemas da vida. Antidepressivo não dá alegria instantânea pra ninguém, você deve estar confundindo com cocaína.

Não existe nada de imoral em uma pessoa querer evitar o próprio sofrimento. Se abuso de Rivotril acontece, e eu sei que acontece, culpe a assistência precária, o atendimento inadequado, e não a pobre coitada que não consegue pregar o olho e tem que trabalhar no dia seguinte.

Remédios quando bem indicados ajudam demais a vida da gente. Eu faço terapia, musculação, hidroginástica, massagem, diário e ainda assim preciso tomar um monte. E eu fico feliz de poder pagar por eles (e por todo o resto que eu mencionei aí).

Aí você me pergunta: e os efeitos colaterais? E eu digo que tem, tem sim. Só que boca seca não é pior do que torcer pra morrer dormindo. Antes ter sonolência do que ficar sem ar no meio da rua. E os efeitos já foram piores do que esses, já me fizeram desistir e trocar a medicação, e eu segui procurando o que era melhor pra mim.

Não existe solução fácil, existe solução possível. E a gente também tem que se informar, prestar atenção no que o corpo diz, e ficar de olho se o poder biomédico não está fazendo o que Foucault nos alertou que ele faria. Se um médico te dá uma receita, mas mal olha na sua cara, não explica a situação e nem pergunta o que você acha, é hora de desconfiar mesmo.

Só que eu acho estranha essa defesa que as pessoas fazem do natural só porque é natural, e não porque é a melhor opção disponível. Sabe o que é natural também? Adoecer, agonizar de dor e morrer.

Claro que eu sonho com o dia em que eu não vou precisar tomar remédio, só jeito na vida e vergonha na cara. Mas até esse dia eu quero toda a assistência que eu puder. Tudo ao mesmo tempo e agora.

E quanto aos opióides, aqueles que eu mencionei no início do texto, confesso que agora eles me dão medinho. Vou deixar pra quando a situação estiver mais horrorosa do que ela já está.


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