Quando ajudar dói sim

Aconteceu quando eu estava na segunda ou terceira série do ensino fundamental, não me lembro direito. Eu estudava num colégio chamado Jardim Chapeuzinho Vermelho, e que era muito católico, apesar do nome infantil genérico. Todos os dias fazíamos fila pra rezar e cantar a música de boas vindas da escola, cada turma na sua própria fila.

Ser o primeiro da fila era um sinal de status, por motivos que só as crianças entendiam, já que isso não fazia diferença na vida de ninguém. Mas você que tentasse falar isso pros meninos e meninas que se estapeavam pela sua posição entre um verso e outro do pai-nosso.

Neste dia eu cheguei cedo, mas já havia outra menina na fila. A gente fazia essas idiotices também, chegar super cedo, e passar vários minutos guardando um lugar inútil e cujo mérito desapareceria no ar tão logo entrássemos nas nossas salas. Ninguém se lembrava do primeiro da fila do dia anterior. Era o nosso treinamento em glórias efêmeras.

Essa outra menina era uma velha conhecida, já que não só estávamos na mesma turma desde a alfabetização, como também morávamos muito perto uma da outra. A casa dela ficava uma rua acima da minha, e podíamos nos comunicar pelas nossas janelas se gritássemos bem alto. Não era algo que fizéssemos com frequência, mas a gente se divertia em saber da possibilidade.

Éramos amigas? Eu não sei, você pode concluir por conta própria quando eu terminar a história.

Eu ocupei meu lugar atrás dessa menina, conformada em ser a vice de um campeonato invisível, mas também feliz de ter alguém pra conversar durante a vigília. E foi isso que fizemos, conversamos. Eu só não sei por quanto tempo, já que essa percepção é muito difícil de recuperar de algo acontecido na infância.

Só sei que conversamos, até ela avisar que iria no banheiro e pedir pra eu guardar o lugar dela. E foi isso que eu fiz.

Eu fiquei lá, esperando, esperando, pelo que me pareceu uma eternidade. E eu não tinha nada pra me ajudar a passar o tempo, só me restava olhar pras paredes super brancas, pros desenhos distorcidos nos cartazes, pras janelas dos andares de cima.

Não me ocorreu simplesmente ir embora, pedir desculpas depois e recusar até mesmo esse meu segundo lugar que não valia nada, já que eu poderia tentar de novo no dia seguinte.

Aí ela apareceu, veio com um “ah, você ainda tá aí?” e disse que precisava sair de novo. Mais uma vez, eu não questionei. Os outros alunos foram chegando e ocupando seus lugares atrás de mim e da pioneira ausente. Pioneira esta que fez uma entrada triunfante já na hora da oração, rodeada de outras meninas. E ocupou o lugar que eu havia guardado com tanto esforço.

Só então eu me dei conta do que havia acontecido: ela obviamente não estava tendo uma caganeira. Ela estava brincando, conversando, trocando papel de carta, pulando elástico, rindo nas minhas costas.

Sim, principalmente rindo nas minhas costas, da otária trouxa que fez papel de imbecil. E que era tão otária, trouxa, imbecil que nem reclamou quando se deu conta de ter feito papel de otária, trouxa, imbecil. Típica eu.

Você pode agora questionar porque eu estou sendo tão dura com uma menina que deveria ter uns oito ou nove anos. Talvez ela não tivesse consciência de ter feito tanto mal.

Talvez ela achasse que era só uma brincadeira inocente, tipo apertar campainha e correr, algo que todas nós fazíamos. E eu nem disse nada, nem demonstrei a raiva e a humilhação que senti na hora. Eu tive vergonha de ser sido enganada.


Esse é o Eek, que é tipo eu

Não foi a última vez que me fizeram de idiota. Na verdade me fazer de idiota é algo bem fácil, tanto que acontece com frequência. Eu acho que fui criada pra viver num desenho do Discovery Kids, não na nossa realidade.

Sabe aquela parte em que você faz um favor, e ganha um amigo, e se sente uma pessoa legal? Me conta como foi pra você, porque pra mim as pessoas continuam exigindo mundos e fundos, ou esquecem por completo o que eu fiz, ou acham que agi por obrigação, ou até mesmo saem falando mal de mim exatamente pelo que eu considerei uma gentileza.

Não que eu esperasse tapetes vermelhos, agradecimentos de joelhos e glórias cantadas até as gerações seguintes. Eu só queria não ter mais essa sensação de ter sido um alvo fácil. Eu queria que tirar vantagem de mim desse um pouquinho mais de trabalho, e que eu conseguisse reconhecer logo quando se tratasse disso, pra inventar uma desculpa e seguir com a minha vida.

Você se lembra de um desenho bem antigo chamado Eek The Cat? Nele um gato, o tal do Eek, se envolvia em muitas confusões, intrigas internacionais e catástrofes alucinantes. E sempre acabava destruído, sem dentes, completamente enfaixado numa cama de hospital. Tudo porque havia resolvido fazer um favor, seguindo o seu irônico lema de que “ajudar não dói”.

Eu não aprendi nada com Eek The Cat.

Na faculdade eu tive uma colega que elevou à categoria de arte o ato de usar outros pra benefício próprio. Não que ela prejudicasse essas pessoas, mas nunca vi essa menina se aproximar de alguém que não lhe oferecesse alguma vantagem. Era tão escandaloso que eu mal conseguia acreditar.

Um dia nós descemos juntas do ônibus e ela me acompanhou até a minha casa, que ficava bem perto. Pareceu natural que ela fizesse isso, já que estávamos no meio de uma conversa.

Mas era meio-dia, e o que ela queria mesmo era ser convidada pra almoçar com a minha família, e pra isso ela se ofereceu pra entrar, com a desculpa de ver o resultado de uma reforma que havíamos feito.

Eu precisei dizer que nós comíamos de marmita, com comida contada pra cada um, pra que ela se tocasse e fosse embora.

Na Bahia nós temos um nome pra quem age assim: são as “seboteiras” e “seboteiros”, pessoas que se oferecem, “se botam”. Não sei como é a grafia correta disso, mas dá pra entender a ideia. Ninguém gosta de seboteiros, e eu sempre considerei uma questão de honra não me tornar uma dessas.

E o que aconteceu é que eu me tornei constante objeto de "sebotagem".

Eu já não sei mais se eu sou gente boa, ou só me acostumei a agir assim. Eu não me sentia muito amada naquela minha escola primária, e talvez eu sinta que ainda preciso agradar os outros pra que gostem de mim.

Eu tenho treinado pra agir diferente. Comprei livros sobre como ser mais assertiva, faço exercícios, e excluo da minha vida sem dó pessoas que se aproveitam dessa minha fragilidade e acabam me fazendo sentir péssima depois.

Sabe essas aberturas de episódios finais de Big Brother? Quando restam só umas duas pessoas na casa? Pareceu minha vida no ano passado, de tanta gente que eu eliminei. Eu já sofro o suficiente por outras causas, não preciso passar por isso também.

Não sei se vai adiantar, ou se eu só vou acabar sozinha, por não saber diferenciar pedidos legítimos de ajuda com gente tentando bancar a esperta às minhas custas.

Você passa por isso também? Ou está sempre pedindo coisas demais aos outros? Aceito opiniões dos dois lados.

E voltando à menina do início do texto, ela me fez de trouxa de novo alguns anos depois. Mas isso é assunto pra outro dia. Talvez eu nunca aprenda mesmo.


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