Uma animadora história de depressão

Nick Seluk, The awkward yeti

E u tive depressão pela primeira vez aos 18 anos. Era um ano mais velha que a menina da série badalada de que vocês tanto falam — a série que eu não tive coragem de ver, mas que eu acompanho pelas redes sociais. Foi uma época muito confusa da minha então curta existência, e eu deixei alguns registros.

Faz poucos meses que eu saí de uma outra crise depressiva, a quarta delas. Na verdade eu nem sei se vale como uma crise separada, ou se é uma recaída da crise do ano passado, mas enfim, os neurônios são meus, eu conto do jeito que eu quiser.

Agora aos 32 eu faço diários detalhados, mas quando eu era novinha só escrevia de vez em quando. E eu guardei o resultado de um desses impulsos criativos. Vou copiar algumas partes aqui, mas eu peço paciência com o meu eu do passado, que escrevia difícil até num negócio que não era pra ninguém ler.

E não ria, que todos sabem que existe um círculo do inferno só pra quem ri de mocinhas que tentam parecer mais espertas.

Pra contextualizar: o ano era 2003, eu estava no quarto semestre de direito e morava com meus pais. Eu tinha um namorado, que vamos chamar de Teobaldo, mas eu tinha passado a gostar de um outro cara, um colega meu. Vamos chamar esse sujeito de Epaminondas, como eu já fiz em outro texto.

Pronta(o) pra voltar ao passado? Pra todo esse teen drama? Então vamos.


Mesmo acontecimentos agradáveis a qualquer pessoa, ou os que eu mesma consideraria agradáveis não são suficientes pra me deixar bem. O cotidiano me parece muito insípido, é como se as coisas acontecessem, eu tenho consciência disso, mas parece que não têm relação comigo, ou eu não chego propriamente a interiorizar o conteúdo "emocional" das coisas que ocorrem.

Algumas vezes a lembrança de acontecimentos recentes parece um sonho, eu me recordo dos acontecimentos em si, mas a forma exata como aconteceram me parece difusa. Não me importei muito quando comecei a me sentir assim, pensei que fosse uma angústia normal, de quem está vendo o final da adolescência, ou de quem não tinha muitas pessoas próximas, ou não convivia com os poucos amigos que possuía. Também achei que fosse uma inadaptação com o curso. Eu nem estudo muito, ao contrário de todos os outros anos.

Tantos anos depois e a depressão continua chegando do mesmo jeito, um vazio que vai ficando, ficando, e quando você percebe você já tá há horas olhando a parede ao invés de ir logo tomar banho. A sua memória não presta pra nada e parece que existe mesmo uma barreira entre você e as outras pessoas, como a Sylvia Plath sabiamente definiu, uma "redoma de vidro".

Hoje eu tenho uma outra metáfora. Na última crise eu me sentia como aquela menina flutuante de O Lar das Crianças Peculiares, só que sem corda pra segurar ou botas de chumbo pra prender ao chão. Eu só subia, e subia, pra além de todo o contato com o mundo. E ninguém me achava enquanto eu partia.


Não consegui me identificar de pronto com ninguém do curso de direito, e as poucas pessoas com as quais tentei me relacionar, e os grupos aos quais eu tentei pertencer não pareciam ter muito a ver comigo. Assim, achei que seria melhor me isolar, embora às vezes nem precisasse, pois os outros se encarregavam de me deixar isolada.

Esta situação se tornou um pouco diferente quando eu conheci Teobaldo, em maio de 2002, pela internet, no primeiro dia de greve da UESC. (…) além disso, havia o aspecto de que fazíamos o mesmo curso na mesma universidade, curso este que não queríamos fazer mas fomos obrigados pelas circunstâncias.

Como eu odiava os meus colegas do primeiro ano de faculdade, ó céus. Uma galerinha super esquisita, que pensava que tinha o rei na barriga. Acho que eles assistiram demais esses filmes de high school, e achavam que eram os populares.

Felizmente eu conheci gente legal depois, e tive momentos ótimos. Mas nessa época meu mundo era Teobaldo, o que nunca é boa coisa. E não foi mesmo.

Eu podia contar a incrível saga da faculdade errada, mas já fiz isso em outro texto. Só te digo que, ó, que merda que eu fiz com a minha vida, viu.


Desenvolvi a prática de fingir pra mim mesma estar feliz em situações que me deixavam indiferente. Fingir estar feliz quando viajava, fingir alegria em eventuais festas onde fosse, e em outras situações. Essa tentativa de dissimulação só fazia com que eu achasse cada vez mais difícil estar feliz de verdade.

Estar com Teobaldo costumava ser bom, mas me parece infinitamente abaixo do que eu poderia sentir em outras épocas. Minha capacidade de compreensão está ficando reduzida, e eu passo a entender o que ocorre de forma cada vez mais lenta. Parece que eu vivo numa realidade opaca e sem consistência, e a minha sensibilidade parece estar diminuindo.

Ah, aquele tempo em que eu precisava fingir pras pessoas. Existe alguma vantagem em ser uma mulher com mais de 3o e com um pai portador de Alzheimer: as pessoas não só te levam a sério por estar deprimida, elas até esperam que você fique.

Não que elas esperem no sentido de que estão torcendo pra isso, só de não se surpreenderem de acontecer. Agora eu posso ser uma deprimida "legítima", como eu não era com 18 anos. Mocinhas que dizem estar deprimidas, você sabe, só querem chamar atenção, ou assistiram demais Garota Interrompida.

Ou sei lá, podem ser doidas mesmo, bom não brincar com essas pessoas perturbadas.

Kristian Nygard, do Optipess

Às vezes eu faço o que os outros dizem ou querem só pra poder cupá-los depois (mas só a nível de consciência) É o que acontece com os meus pais, cujas ordens ou determinações eu termino por acatar mesmo achando erradas, injustas, ou nem chegando a fazer juízo de valor.

Hoje eu poderia me definir como uma espécie de autômato, quase tudo que eu faço é automático, como um reflexo. Deixar que as pessoas imaginem que eu estou bem por eu aparentar estar deste modo é um reflexo. Isso faz com que meus pais, e outras pessoas, julguem que o que eu tenho é momentâneo e passageiro. "Até aquele momento ela estava rindo", "Hoje ela foi ao shopping com alguns colegas de faculdade", "Acho você tão divertida e extrovertida, Camila" (esta eu ouvi há alguns dias, e não pude deixar de achar irônico).

Então, deixa eu te contar essa novidade: pessoas deprimidas continuam sendo capazes de fingir. E não é só pela vergonha (que já é muita), mas também pra não ser um estorvo pros outros. A gente se acostuma tanto a fingir que às vezes é até difícil começar a contar a verdade na terapia.

Quem lê os meus outros textos falando dos meus pais pensa que eles foram incríveis e maravilhosos o tempo inteiro, mas eles tiveram suas falhas também. Principalmente nessa época. Pela primeira vez na vida eles não deram importância a uma doença minha, e nem queriam pagar pelo meu psiquiatra e pelos meus remédios. A terapia eu fazia com a única psicóloga do meu plano, que não era grande coisa.

E quando a minha mãe percebeu que o negócio era sério ela me levou a todos os templos religiosos existentes em Itabuna, pra fazer todos os rituais possíveis — sendo que eu era, e sou, ateia. E eu só não passei por um exorcismo porque a igreja católica tem muita burocracia pra essas tretas. Mas apoio pra tomar remédio eu não tive nenhum, e tanto ela quanto meu pai só ficavam falando de efeitos colaterais que eu nem estava tendo.

E olha que a minha mãe era nutricionista, uma pessoa esclarecida que trabalhava com políticas de saúde.

Gravity, de Hannah Unkrich

Não sei bem o que tem ocorrido com a minha mente nos últimos tempos, sinto minhas capacidades de concentração e memória prejudicadas. Penso no que irá acontecer comigo quando eu tornar uma "estudante de direito típica", daquelas que recitam jurisprudências e só se expressam em termos legais. É engraçado como tudo isso parece assustador quando se convive com Teobaldo, que já está impregnado com esse visgo legal. No entanto o próprio curso parece não só suportável, mas mesmo interessante quando eu estou com Epaminondas, e assim passa a existir alguma esperança.

Lembrando que Teobaldo era o namorado, e Epaminondas era o crush. Essa situação virou um rolo gigante, que durou meses, e acabou com todo mundo puto da vida. Quando eu estava deprimida eu achava que não gostava de ninguém, mas quando eu melhorei eu consegui finalmente terminar com Teobaldo. Epaminondas e eu tentamos ficar juntos, mas não deu muito certo.

E aí quando a depressão passou, mas passou mesmo, eu tive uma época de euforia que eu nunca tinha sentido antes. É sempre assim depois que a doença passa, parece que você vê o mundo colorido pela primeira vez. E aí eu fiquei feliz até pela minha dor de cotovelo, porque ela significava que eu sentia alguma coisa.


Eu fiquei deprimida por uns cinco ou seis meses, eu acho. Aí o ano seguinte, 2004, foi um dos melhores da minha vida. Em 2005 eu tive outra crise, e dessa vez durou mais, e o remédio de antes não funcionou do mesmo jeito. Eu passei por vários, e cheguei até a tomar um tricíclico, que é da classe dos mais fortes.

Nessa época uma amiga minha casou, e eu estava super inchada e mal cabendo no vestido, porque prisão de ventre era um dos efeitos colaterais.

Até que no começo de 2006 eu melhorei de novo, não sei se pelo remédio, pelo tempo mesmo, ou pela acupuntura que eu havia começado a fazer. Só sei que fiquei dez anos sem ter mais nada. Nem quando a minha mãe morreu eu tive recaída.

E aí depois de todos os perrengues que vieram com a doença do meu pai, pimba, olha a depressão aí de novo. E aí eu dei um nome pra ela, Solange, e passei a escrever publicamente a respeito, o que conforta bastante.

E uma coisa eu aprendi depois de apanhar tantas vezes: Solange mente. Ela faz parecer que a sua vida é horrível e sem saída, mas se você conseguir usar o restinho da racionalidade que ela te deixou, vai ver que o que ela diz não faz sentido. Eu descubro isso escrevendo.

Eu tenho sorte de nunca ter tido impulsos suicidas. Na verdade eu nem sei como eles são, no auge das minhas crises eu só queria não acordar, ou morrer de forma natural, sem que eu tivesse que fazer nada. Eu não consigo imaginar como deve ser difícil pras pessoas que têm, e como deve ser complicado pedir ajuda.

Hoje eu não tenho mais meus pais, mas a vida ficou mais fácil em outros sentidos. Eu sou casada há anos com o marido mais mirabolante e delirante do mundo, que me dá o lar mais estável que eu já tive, e o apoio que eu nunca recebi de mais ninguém. Eu recomendaria o Lucas como estratégia terapêutica, mas não sei, acho que o bichinho não dá conta de mais uma pessoa pirada na vida dele.

E agora eu posso escolher o médico que eu quero, a psicoterapia que eu quero, e ainda ir pra academia e pagar cursos estrambólicos de meditação. E eu posso comprar tantos remédios que o pessoal da farmácia até me cumprimenta. Mas já consegui resolver sem remédio também, porque psiquiatria é assim, ninguém sabe explicar exatamente porque as coisas acontecem.

Existe saída, essa é uma doença estranha, mas é tratável. Sempre se pode dar um jeito, como quando eu vendia escondido os livros dos meus pais no sebo pra conseguir dinheiro pra remédio (podia ser crack, mas era Prozac). E eles nunca perceberam.

Agora vai dizer que a minha vida não daria uma série, hein? Até melhor do que essas aí que vocês gostam.

Nick Seluk, The awkward yeti

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