“Você é D+”de Sandy e Júnior- um disco, um mito

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Sandy e Júnior começaram a fazer sucesso quando eu estava na primeira série do fundamental. E eles ainda não tinham parado em 2002, quando eu entrei na universidade. Se eu não me engano, eles ainda continuaram depois que eu me formei, em 2007.

Foram anos em que eles estiveram por toda a parte: programas de auditório, filmes, novelas, seriados, lancheiras e bonecas assustadoras. Sempre promovendo uma leve alusão a incesto, violência contra a mulher com necrofilia (já viu a letra de Maria Chiquinha?) e redundâncias (o que é imortal não morre no final, e etc).

Como você já deve ter percebido, eu nunca fui muito fã dos irmãos pegação, e confesso que até senti um pequeno prazer sádico quando a carreira internacional deles não decolou. Mas eu tenho que reconhecer que eles deram uma grande contribuição à música popular brasileira com um único disco.

Que veio a ser justamente o “Você é D+”, de 1995. Mas antes, vamos fazer um pequeno flashback.

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Naquele ano, muita coisa aconteceu. Os Mamonas lançaram o seu único álbum, o Gera Samba levou ao mundo o “Segura o Tchan”, o Asa de Águia fazia todo mundo cantar “Xô Satanás” e Os Morenos se tornaram lenda com “Marrom Bombom” (tira a calça jeans e bota o fio dental).

Como você vê, a concorrência era acirrada.

Eu tinha 10 anos, e dividia meu tempo entre o bullying na escola, a catequese, a TV e o tetris no minigame. Um dia eu fui a uma loja de discos com a minha tia Lucineide, comprar o CD da trilha sonora nacional da novela Cara e Coroa. A internet mal tinha chegado ao Brasil, e ninguém nem sonhava em baixar músicas com ela.

O CD que eu queria tinha acabado (a novela já estava na trilha internacional) e me foi oferecido o dito Sandy e Júnior. Eu pensei “por que não?”, e voltei pra casa com ele. Minha vida nunca mais foi a mesma.

Vamos agora às faixas.

A primeira é o “Rap do aniversário”, com participação especial da Xuxa. Nela percebemos uma ruptura definitiva com o passado sertanejo da duplinha, e a transição para o pop. Interessante notar a aproximação com o rap, ainda um estilo associado à periferia e às músicas de consciência social. A temática de aniversário introduz uma leveza muito bem recebida.

A músicas seguintes eu pulava, até chegar na quarta, “Roller Boys”. Com sua batida mais eletrônica, ela traduzia com perfeição a febre dos patins que tomou conta das crianças naquele período.

Eu passei a vida acreditando que eles cantavam “lá no playground, dar um giro animal, 360 graus”, o que tornaria a rima bem ousada. Mas onde eu ouvia “playground” era na verdade “pular um degrau”. Minha infância acabou de ser destruída há alguns segundos, quando fui conferir a letra no Vagalume.

Destaque também para “Marilyn”, feita pra um cachorro que morreu. Uma música que transborda sensibilidade, dando seguimento à tradição de honrar animais falecidos iniciada com Xuxa em “Meu cãozinho Xuxo”.

Aí vinha mais uma chata, seguida pela melhor faixa do disco, a épica “O universo precisa de vocês (Power Rangers)”. Aliás, a melhor música de toda a carreira de Sandijunior, juntos ou separados. Deu até um arrepio agora. Eu tenho que colocar isso na minha lista de músicas pra malhar. Cante comigo:

Com muita coragem
E agilidade
Lealdade
E sempre em boa forma
Usam a cabeça
Com inteligência
Toda disciplina
Se transforma

Viram? Eles usam a cabeça COM INTELIGÊNCIA! Não é incrível?

Eu faço a dancinha de cada Dinozord, até hoje. Minha favorita é a do Tigre Dentes-de-Sabre. Acho que fico melhor a cada dia.

Sandijunior já tinham feito história com o apresentado até aqui, mas eles foram além. A última faixa interessante do disco, “Vai ter que rebolar”, é um retrato fiel da cultura brasileira e mundial no período:

Te dou a minha vida
Faço tudo, piso fundo
Enfrento o Mike Tyson
Dou bolacha no Edmundo
Esse jogo duro não vai te levar a nada
Entre eu e Fábio Júnior
Sou mais eu nessa parada

Edmundo era ainda o animal, Mike Tyson era campeão (e ainda não tinha mordido a orelha do Holyfield) e o Fabio Junior convencia minimamente como galã. Eram outros tempos jovens, outros tempos.

E eu nem falei do título do disco. Em 95, tudo era D+, principalmente nas agendas das meninas, que eram assinadas pelas colegas no fim do ano. Era uma versão mais pobre do Yearbook americano.

Você podia ser D+, mas se tivesse prestígio mesmo, era +Q D +. Também havia a glória se ser + Q D + Q D+. E não havia limites pro acréscimo de letras.

Ah sim, e quanto a Sandijunior, só ficaram mais chatos e mais agarrados. Nunca mais tive qualquer interesse na carreira deles.

Mas eu ainda tenho uma curiosidadezinha em ver um show da Sandy. Será que se a gente pedir ela canta a música dos Power Rangers?

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