a terceira idade é uma comilona despojada e audaciosa

senhores e senhoras encaram pastel, coxinha, feijoada e sobremesa com a tranquilidade de um monge

Na festa de aniversário em comemoração aos 79 anos de um senhor, deparei-me mais uma vez com a teoria de que velho parece criança, sobretudo quando em contato com comida servida à vontade.

Fiquei só observando os mocinhos e mocinhas com idade entre 70 e 85 anos se empanturrarem alegremente. Nem piscavam. Enquanto mastigavam a bolinha de queijo, armazenavam as coxinhas no pratinho e mantinham o olhar em 360 graus no salão para não perder a bandeja com os pasteis que estava por vir.

Depois de uma hora de petiscos liberados e consumidos à exaustão, os garçons trouxeram o prato principal: feijoada.

Eu pensei: quem aguenta uma feijoada e seus acompanhamentos depois de tantos salgadinhos? A resposta veio em forma de uma fila de bons velhinhos, que apareceu instantaneamente antes mesmo da funcionária pousar a primeira panela na mesa. Falantes e eufóricos feito crianças na hora do recreio, os senhores montavam seus pratos que mais pareciam montanhas de tão altos. Tinha até rabo de porco. Torresmo aos montes como se fosse da mesma família de nutrientes dos grãos de chia.

E a maratona gastronômica seguiu sem perder o ritmo. São incansáveis. Na sobremesa, mesma agitação! Dá-lhe senhores de idade se lambuzando sem preocupação com o pudim de leite condensado e o pavê de biscoitos. Todos comeram as duas opções. Que inveja da audácia deles. Eu só ficava imaginando a glicemia pedindo socorro!

Pensa que acabou?

Não!

Depois de um breve descanso no mastigar, ainda teve os parabéns e mais bolo, e mais fila, e mais velho empolgado para comer, uma, duas e até três fatias açucaradas. Com direito a bigode sujo de glacê.

A essa altura eu já estava com o telefone do SAMU no ponto pronta para alguma ocorrência.

Agora assim!

Fim da festa. Fim do buffet. Garçons recolhendo tudo.

Suspiro aliviada!

Fim da alegria dos velhos, que comeram em um dia o equivalente de comida para uma semana. O semblante deles era de quem estava perto de voltar à realidade cheia de agrião, chuchu e rúcula.

Os primeiros senhores começaram a ir embora, sorumbáticos, olhando desolados o retirar dos últimos pratos do recinto. Se fosse uma rave de comida por 24 horas, tenho certeza que eles aguentariam ligadões.

O clima realmente havia ficado triste entre eles…

Até o primeiro velho cruzar a porta de saída do salão e descobrir que estavam entregando lembrancinhas para os convidados: brownie de doce de leite.

Os ânimos sobem novamente!

Fi-u-í (som de assovio)

“Tem brownie na saída, cambada!”