o leite da discórdia

a decepção surge nos ambientes mais improváveis

foto reprodução google

Era um final de sábado quente, em um agitado restaurante da zona sul carioca, quando meu irmão caçula desferiu em mim um golpe certeiro que me fez sangrar em pleno bairro do Flamengo, sem chances de reagir. O mundo ao meu redor seguia normal, com inúmeras pessoas conversando, rindo, gesticulando, fazendo seus pedidos, enquanto eu sentia meu corpo enfraquecer aos poucos e a cor dos meus lábios empalidecer em um breve sinal de que a vida estava em seu último ato.

Tudo isso acontecendo sob os olhos do autor do golpe, que não me parecia nem um pouco abalado, arrependido ou preocupado com a minha possível despedida desse mundo. Um típico crime culposo, ou seja, cometido sem a intenção de matar.

A sua arma não fora uma faca, um revólver, uma garrafa de vidro, um pedaço de pau. Foi uma frase que, aos meus ouvidos, me pareceu dolorida. Cortante. Letal. O golpe veio quando ele falou bem alto (ele sempre fala bem alto):

“Dr. Drauzio Varella é um im-be-cil! Ele defende o consumo de leite animal”.

Um tiro à queima roupa desferido em mim, enquanto ele devorava sua batata frita e bebia sua coca cola zero açúcar enquanto odiava o leite e o médico.
Ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Viva as diferenças! Mas eu não estava preparada para ouvir aquilo, não naquele momento e muito menos da boca do meu irmãozinho. Eu dividi meu quarto com ele quando criança, meu Deus! Eu dei banho nele, caramba!

Sua tese\raiva advém de uma polêmica antiga: “leite animal faz bem ou mal?”. Como tudo no campo da nutrição gera interpretações distintas e\ou mudanças constantes, com o leite não seria diferente. Para alguns especialistas, a bebida é essencial por ser uma das fontes de cálcio para o nosso corpo. Para outros não, é considerada uma bebida danosa à saúde adulta.

E o meu irmão claramente se identificava com essa segunda alternativa. Tudo bem! Mas resumir toda a trajetória médica e social de anos do Doutor Drauzio ao seu posicionamento sobre o consumo do leite doeu na minha alma. Deve ser a TPM. Aquele “im-be-cil” não me caiu bem a noite inteira. E olha que o Doutor Drauzio é constantemente xingado por temas muito mais ásperos: aborto, gays, transexualidade, por seu trabalho com os presidiários, etc.

Não, meu irmão nem ninguém precisar gostar do Draw (apelidinho para os íntimos). Cada um gosta de quem quer gostar mesmo que seja um gosto duvidoso. Tem gente que gosta de sapato Crock e é feliz.

Demorei algumas boas horas para me recuperar da paulada que levei na cabeça e que ecoou noite afora no meu organismo: “Doutor Drauzio é um im-be-cil”. Nos despedimos, eu e meu irmão, que não notou em nenhum momento a minha morte\ressurreição ocorrida naquele restaurante.

Cheguei em casa, ainda impactada, e corri para o Google. Encontrei inúmeros debates sobre o consumo do leite envolvendo Drauzio e outros especialistas, um deles citado por meu irmão. Li outros artigos sobre o tema vindos de fontes variadas e confiáveis também. Sempre bom ter outros olhares sobre o mesmo assunto para não ficarmos doutrinados ao pensamento de uma única pessoa. Respeito todas.

Não sei dizer de qual turma eu faço parte: das que aceita ou das que rejeita o consumo do leite animal. Só sei dizer, e deixo isso explícito desde o início desse texto, que admiro o trabalho do Dr. Drauzio Varella (li quase todos os seus livros) muito além de um copo meio cheio ou meio vazio de leite. Hoje eu sou time Draw

❤ (três).