Figrin D’an e os Modal Nodes

Em uma galáxia muito, muito distante, Figrin D’an apoiava sua cabeça na janela fria de uma espaçonave Gladys para admirar as estrelas. Desviou o olhar para sua bolsa e abriu para contar o pouco dinheiro que tinha. Só daria para o trajeto do ubergalaxy. Era tempo de recessão.

Desde que saíra da casa dos pais, vivia algo bem diferente do planejou para si há alguns anos. Há muitos anos já havia tocado com uns amigos para o exército da República, mas já não mais. Para ter o que comer, vez ou outra cantava em um bar.

Da janela da espaçonave avistou um lambe-lambe de bar, vermelho com letras brancas, já gasto nas beiradas. O folhetim anunciava um reality show, o The Vitas, que revelaria novos nomes da música galáctica. Além da fama, o grupo musical vencedor, assinaria um contrato com a gravadora George Lucas. O grande prêmio seria uma viagem por toda galáxia. Os interessados deveriam se inscrever no prazo máximo de uma semana, com grupos de até 6 integrantes.

D’an viu no reality sua chance tão esperada. Logo lembrou do amigo Nalan Cheel, o melhor saxofonista que conhecia. Foi atrás dele com sua ideia. Cheel disse que conhecia mais algumas pessoas para participar, seus melhores amigos Tedn, Doikk e Tech, trigêmeos musicistas, e Ickabel, aspirante à cantora mais conhecida como Ick. Todos toparam a ideia e se inscreveram com pressa, mas sem botar muita fé. Não acreditavam que essa competição viraria alguma coisa.

A sala da casa de Nalan passou a ser o estúdio da banda Modal Nodes, nome dado pelos trigêmeos. Nalan no saxofone, Figrin na voz, Tedn, Tech e Doikk no violão, baixo e guitarra e Ick na percussão. Desafinos para cá, notas perdidas pra lá. Com horas e horas de ensaio sem parar, prepararam-se para a competição.

Figrin virou a noite, mal conseguiu conter sua ansiedade no dia da audição para o The Vitas. Sentia que seu sonho estava cada vez mais perto de se realizar. Fez café e o cheiro tomou sua morada, junto com o das panquecas preparadas seguindo uma antiga receita da família. Escolheu sua melhor roupa, um terno azul marinho por cima de uma blusa branca e calças pretas. Respirou bem fundo, soltando devagar o ar para fora de seus pulmões. “O que tiver que ser, será”, pensou.

Ao chegar no estúdio de televisão onde o The Vitas seria gravado, Figrin encontrou o outros integrantes da Modal Nodes para um último ensaio. Do outro lado do estúdio havia uma banda analisando com desprezo os seus concorrentes. Olharam de cima a baixo os Modal Nodes, e deram um sorriso de canto como quem diz “já ganhamos”. Eram os Empire, e vinham de Dagobah.

Tomados pelo medo, começaram a tremer, derrubar água. Ick declarou estar com ânsia de vômito e os outros se desesperaram. Os Empire foram os primeiros a serem chamados para a audição. A banda tinha como líder Intombi, a maior especialista em física quântica de Dagobah, cujo sonho secreto era ser cantora profissional. Passou pelos Nodes, esbarrando seu ombro nos deles e disse:

- Espero que aprendam como se faz.

Pela coxia, assistiam os membros do Empire tocarem em plena sintonia. O público parecia gostar, assim como os jurados e secretamente os trigêmeos. Quando terminaram o show sabiam, pela animação do grupo ao voltar para o camarim, que haviam sido aprovados.

- Modal Nodes, vocês entram em cinco minutos — disse a produtora do reality.

A banda, então, subiu ao palco. Quando as longas cortinas vermelhas se abriram, Figrin, ao contrário dos demais, já não estava nervoso. Ele só conseguia pensar em uma coisa: a força. Se a força estava com ele, não tinha o que temer.

O apresentador do reality, Umdali Apula olhou para a câmera com o seu melhor sorriso para apresentar ao público a atração. Cada membro do grupo então se preparou com o seu instrumento e ficou esperando por um sinal.

- Olá, por favor apresentem-se e nos digam o que vão tocar para nós esta noite — disse Sandonik, um dos três jurados do reality.

Sandonik tinha a fama de ser um jurado muito crítico. Muitos participantes tinham medo dele. Sentava na ponta direita da bancada, do lado de Mairtex, a jurada que era só sorriso para os candidatos. Para completar o time, havia Ibubeshi, que ora tendia para um lado, ora para outro.

- Nós somos os Modal Nodes, do planeta Clak’dor VII e vamos apresentar uma canção autoral, chamada “Mad about me”.

- Podem começar — disse Sandonik desinteressado, sem ao menos olhar para os candidatos.

Figrin começou a cantar e o resto da banda acompanhou no embalo. A plateia se levantou, começou a pular e gritar. Os jurados se olharam com espanto. Mairtex estava dançando ao som da banda, Ibubeshi batia os dedos na bancada ao ritmo da música, e Sandonik tentava disfarçar que estava gostando do som, controlando sua cabeça que ia de um lado para o outro. Os Modal Nodes pareciam estar fazendo sucesso.

Ao terminar a canção, os integrantes da banda se juntaram para ouvir o veredito. Ick segurou a mão de Nalan, nervosa demais para sequer olhar para os jurados que estavam sussurrando de um para o outro suas impressões.

- Certo — disse Sandonik, imponente — Vamos as nossas opiniões.

- Definitivamente a melhor banda que se apresentou hoje neste programa. Da minha parte é um sim — disse Mairtex, a jurada com fama de “boazinha”. Os membros da banda partiram para um abraço em grupo seguido de hi-fives.

- Olha — disse Ibubeshi olhando para a ficha de inscrição do grupo em uma pausa. Abriu um sorriso de canto — Eu sinto uma sintonia incrível vindo de vocês, tem amor no que vocês fazem, tem entrega do potencial de vocês. Entretanto, precisamos adequar o saxofone com o baixo — os trigêmeos então olharam para Nalan, como quem diz “nós te dissemos”. — Mas nada que tire o mérito de vocês, de mim vocês também ganham um sim.

Figrin D’an mal podia acreditar que tudo estava dando certo. Seu coração estava acelerado, querendo sair pela boca. Ick percebeu seu nervosismo e deu-lhe a mão, junto a um sorriso tímido.

- Modal Nodes — leu Sandonik a ficha de inscrição dos seis competidores — Olha, até que vocês não são de todo mal. Será que vocês tem o que é necessário para serem a mais nova revelação da galáxia?

O público cruzava os dedos e nervosos se inclinava para frente de seus assentos. Os outros dois jurados alternavam seus olhos curiosos de Sandonik para a banda. Tech olhava para cima, suplicando para que não fizesse xixi nas calças ao vivo. Doikk tremia, Tedn suava frio e Nalan quase entortava seu saxofone de tanto apertá-lo, mas Ick e Figrin estavam confiantes, sentiam que a força estava com eles.

- Sabe, talvez se cada um de vocês se apresentasse sozinho, não teriam a menor chance — olhou para o grupo, e cada um deles sentia seu olhar intimidador — mas há algo em grupo que me convence. Se quiserem atingir algo, devem ficar juntos e ensaiar mais esse baixo. O meu voto é… — e se sucedeu de uma breve pausa, em que se percebia a felicidade em seu rosto ao torturar não só a banda, mas praticamente todos que estavam no estúdio.

- O meu voto é sim, parabéns.

Finalmente todos puderam respirar aliviados. Figrin quase caiu no chão de tanto espanto. Todos se abraçavam e comemoravam. Menos os Empire. Intombi bateu os pés no chão com ódio e soltou um grito de fúria, enquanto seguia para o camarim.

Quando saíram do palco, foram recebidos pelos outros concorrentes, que os parabenizaram e tinham até apostado entre eles que a banda de Figrin seria a grande vencedora da noite. Minutos depois, uma produtora chegou no camarim com uma ficha nas mãos:

- Poderia ter a atenção dos competidores por um instante? Vzyadoq Moe, Empire e Modal Nodes. Parabéns, vocês são os grandes finalistas da noite. Venham comigo que entraremos de volta ao ar em dez minutos.

Enquanto as outras bandas se abraçavam como forma de consolo, as três vencedoras comemoravam. Ick não conseguiu deixar de olhar para os competidores do Empire, que pareciam ocupados demais festejando. Menos Intombi, que os fitava com os olhos cerrados.

- Parabéns! — veio dizer Umhlaba, o pianista dos Vzyadoq Moe — Estamos honrados de estar na final com vocês, vocês arrasaram lá no palco.

- Obrigado! — agradeceram os Nodes — Vocês também foram muito bons tocando Agasti Ingelosi.

Os três grupos seguiram em silêncio a produtora do programa e ficaram esperando pelo seu sinal, atrás de uma linha preta que separava o palco da coxia. Quando o receberam, entraram no palco e se organizaram um ao lado do outro.

- Entramos no ar em 5, 4, 3, 2 — o diretor do programa se sucedeu com um sinal para o apresentador Umdali Apula.

- Olá senhoras e senhores! Estamos de volta com o The Vitas. Chegamos à fase final do nosso programa, que irá revelar os novos nomes da galáxia. Temos três finalistas que definitivamente estão muito ansiosos pelo resultado. Quem irá assinar um contrato no valor de 1 milhão de wupiupis e levar uma viagem pela galáxia? Serão os Empire? Os Vzyadoq Moe? Ou os Modal Notes?

Na bancada dos jurados, Mairtex arrumou sua postura e abriu seu sorriso fácil para os finalistas:

- Primeiramente, queria parabenizar todos vocês por chegarem até aqui. Todos tem um grande potencial e espero vê-los novamente. Mas só uma banda pode ser a ganhadora do The Vitas. E infelizmente não são vocês…. Vzyadoq Moe. Vocês ficaram em terceiro lugar na nossa competição, mas não desanimem. Continuem compondo e um dia poderão se tornar grandes.

- Voltem para Soorocaboo de onde não deveriam ter saído — praguejou Sandonik, de mau-humor — Com sorte, alguma festa de criança os contratará.

A banda, de cabeça baixa, se retirou do palco, deixando os dois finalistas do programa. Os Modal Notes deram as mãos. Figrin sentia a força mais poderosa do que nunca.

- Empire e Modal Notes. Fazia tempo que não encontrava talentos assim, e como vocês sabem, eu fui produtor da Wookie Records por 15 anos, revelando grandes talentos da nossa galáxia — começou Ibubeshi — Pelo Empire, temos uma grande voz que se sobressai — O rosto de Intombi já contava a vitória — mas será que só isso é o bastante para se tornar a grande revelação da noite? — A vocalista então cerrou seus dentes e não conseguiu esconder seu sorriso azedo.

- Na outra ponta temos os Modal Notes — continuou — de sintonia inquestionável, mas sintonia não é a única coisa que garante o sucesso de uma banda. Tem que ter amor pela música, dedicação e sentir a música em cada parte do seu corpo. E é por isso que os grandes vencedores do The Vitas, que saem hoje daqui com uma viagem pela galáxia e um contrato de 1 milhão de wupiupis com a gravadora George Lucas, são vocês…

Os cinco segundos que se sucederam mais pareciam uma eternidade. Na platéia, alguns se inclinavam para frente, outros mentalizavam a vitória dos que apoiavam. A cena parecia se passar em câmera lenta, os olhos de todos os finalistas nos de Ibubeshi. O jurado olhou mais uma vez em sua ficha com o nome do grupo vencedor e sorriu.

- Modal Nodes.

Então tudo virou festa. Papel laminado caiu do teto e os Modal Nodes se abraçavam e pulavam uns nos outros. Os jurados riam, satisfeitos com o resultado. O público estava aplaudindo de pé enquanto dançava ao som de Mad About Me. Figrin se beliscou para garantir que aquilo tudo não passava de um sonho. Teve a certeza quando teve de segurar Ick, que havia pulado em cima dele. Enquanto a girava pelo palco do programa, viu pelo canto do seu olho os Empire que paralisados ouviam os gritos histéricos de Intombi.

A câmera se aproximou dos grandes vencedores da noite, e o apresentador perguntou:

- E agora Modal Nodes, qual o próximo passo?

- Vamos criar a nossa EP — disse Nalan entrando na frente da câmera, empolgado — e disponibilizar ela pelo streaming Jabutikya. Também queremos aproveitar para agradecer todos que torceram por nós.

- E para você Figrin, qual o seus planos para a banda? Onde desejam chegar?

Figrin sorriu.

- Ao infinito e além.

No dia seguinte, a banda já estava pronta para desfrutar de um dos prêmios, a viagem. Ick usava uma pequena mala de mão, somente com o essencial, assim como Figrin, Tech, Tedn e Doikk. Ao contrário do resto, Nalan chegou arrastando pelo asfalto áspero uma mala vermelha de quase dois metros.

- Ninguém disse que aliens não poderiam ser espaçosos, completou Nalan. A banda subiu na Space Alba 5000, nave branca, de último modelo, que os levaria para um tour.

Conheceram as terras vermelhas de Naboo, os gigantes loiros de Geonosis, os vulcões de Bona. Encantaram-se com a neve de Dagobah, a capital cheia de naves em Despin e com as pessoas de Alderaan. Foram ao todo 145 dias de viagem. A banda começou a se entristecer. Essa viagem tinha sido a melhor coisa que lhes aconteceu e a volta para o nada em casa lhes atemorizava. No meio da conversa, Ick começou a sentir o estômago doendo de tanta comida que comeu, mas o banheiro da nave não era para aliens do seu porte. Resolveu pedir para o piloto para em algum lugar.

- Piloto, eu juro que estou com uma indigestão enorme. Preciso muito ir ao banheiro — clamou Ick, com uma cara de desgosto enorme.

- Mais umas duas horas a gente chega em Clak’dor, não tem porque parar! — gritou o piloto de dentro da cabine.

- Por favor! A Ick vai ter um treco aqui se você não fizer nada — bradou Doikk com muita raiva. Vendo que não tinha jeito, ele resolveu parar na cidade de Mos Eisley, em Tatooine. A banda saiu da nave correndo.

- É o seguinte: vocês tem só cinco minutos. Se demorarem eu vou embora — afirmou o piloto sem parecer estar brincando. Figrin concordou com a cabeça e saíram correndo.

Ao entrarem no primeiro bar que viram, foram reconhecidos pelo barman Lirin Car’n, que disse tê-los visto no The Vitas, enquanto Ick corria para o banheiro. A cantina toda, então, passou a gritar por uma palinha. Todos os instrumentos já estavam ali, não tinham como negar. Assim que Ick chegou, começaram a tocar juntos e se divertiram tanto que até esqueceram que tinham que voltar à nave.

Quando Tech viu o horário, largou o instrumento e saiu correndo atrás da Space Alba. O piloto já tinha ido embora. Ele voltou para a cantina e contou para os outros. Com o dinheiro que lhes sobrou, compraram um uísque de petróleo e sentaram para beber desesperançosos. Agora, além de tudo, estavam presos e um planeta deserto. Foi quando Lirin os convidou para trabalharem no bar. Eles poderiam tocar, conhecer gente nova e lançar novos CDs. Figrin e Ick se animaram. Os outros quase não puderam conter a alegria. Menos Tedn, que achava que todos estavam loucos de querer ficar naquela pequena cidade, quando as estrelas eram o limite.

Muitas horas de conversa depois, uma garrafa de uísque e algumas promessas de futuro depois, Tedn cedeu. Seria até que uma boa ideia.

Juntos formaram, então, a Banda da Cantina Mos Eisley. Eles passaram a usar fantasias para que ninguém lhes reconhecesse. O hit Cantina Band ficou tão famoso que chegou até a ser gravado pela gravadora do famoso George Lucas, sem que os funcionários da mesma soubessem da verdadeira identidade do grupo.

Desde então, todos concordam que a melhor coisa que já aconteceu naquele lugar foi a Banda da Cantina Mos Eisley. Podem não ter atingido o infinito, nem o além, mas atingem de segunda a sexta, durante o horário comercial, o coração dos mocinhos, dos vilões e claro, dos bêbados.

Por: Isabel Rocha e Stephanie Ramos

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