Mon Oncle: futurismo clássico por um olhar francês

A suavidade dos contrastes entre humor e sisudez do filme conquistam a audiência

Visto como um filme clássico e futurista, Mon Oncle (“Meu Tio”) de 1958, é um pequeno reflexo da cultura da futilidade e da divisão de classes. Se recebesse um reboot, só uma troca de roupas e de produção seriam necessários para torná-lo atual.

A história começa com Gerard (Alan Becóurt), menino rico que vive em uma mansão futurista, com portas automáticas e até um marcante chafariz em forma de peixe. Seus pais dão a ele brinquedos e educação, mas sua vida é uma mesmice. A chegada de seu tio Monsieur Hulot (Jacques Tati) muda completamente seu cotidiano. Os dois se divertem juntos e tornam-se grandes amigos, apesar dessa amizade desagradar o pai de Gerard, Charles Arpel (Jean-Pierre Zola), que vai fazer de tudo para separá-los. O filme foi dirigido pelo próprio Jacques Tati e recebeu premiações no Festival de Cannes e até o Oscar de melhor filme em língua estrangeira. Foi votado como um dos melhores dez filmes do ano pela New York Film Critics.

O diretor Jacques Tati, além de ator também já havia sido esportista antes da sua carreira. Lançou outros filmes de humor como Jour de Fete (“Carrossel da Esperança”) e Le Vacances de Mr. Hulot (“As férias de Mr. Hulot”) que fizeram muito sucesso. Ele foi mundialmente reconhecido pela graciosidade de seus filmes, apesar de ter morrido endividado com seus últimos longas que não tiveram tanta audiência.

Esta produção é uma sátira à modernização da França. Recuperando-se do pós guerra, o país recebia a influência do American Way of Life dos Estados Unidos e aos poucos foi tornando-se mais industrializado. Apesar de ser um filme clássico, o modelo de um longa futurístico que retrata a modernização já tinha sido lançado na Alemanha em 1917, por Fritz Lang, em seu filme Metrópolis; e em 1936, nos Estados Unidos, por Charles Chaplin em seu filme Tempos Modernos.

Contemporâneo ao lançamento de Mon Oncle, nos Estados Unidos, era lançado um filme do mesmo gênero Rock-a-Bye-Baby do humorista, diretor e ator Jerry Lewis e Rear Window, de Alfred Hitchcock. A situação dos países fica clara na divergência dos longas em seu estilo humorístico, afinal os Estado Unidos viviam uma era de ouro na televisão, produto que agora era acessível a um número maior de pessoas na população.

Apesar de não ser tão marcado como em Metrópolis e Tempos Modernos, o contraste entre classes sociais é claramente explorado por Tati no filme, principalmente na cena em que Hulot vai buscar Gerard na escola de carroça, enquanto vários pais paravam os carros para buscarem seus filhos. As vilas de Charles e Hulot mostram a diferença entre as relações e os sentimentos. Onde vive Hulot, há alegria, crianças brincando, vizinhos educados e compassivos, mas também há pouco trabalho é muita diversão. Já onde vive Charles, é tudo moderno, relações frias, um mundo quadrado e rápido. Isso fica claro na cena em que Hulot dorme no sofá de Charles e deixa os sapatos espalhados pela sala, já que o pai fica bravo com essa situação de desleixo.

A própria cidade é um reflexo da frieza das relações. A vila de Charles é cinza, quadrada ou redonda, ou seja, padronizada. Enquanto isso, Hulot perambula por casas com jardins, feiras cheias de frutas e passarinhos. Essa arquitetura remete à perda da humanidade, já que na industrialização, operários deixam de ser pessoas e passam a ser mão de obra. Esse aspecto é uma referência clara que faz alusão ao Expressionismo Alemão e é retratado em Metrópolis, Gabinete do Dr. Calighari, entre outros.

A paleta de cores rústica, a trilha sonora brincalhona e o figurino anos 50 dão ao filme um tom nostálgico. Dá até vontade de viver na França da década de ouro, no começo da modernização, em que se ouve o canto dos pássaros pelas calçadas e crianças brincam pelas ruas. O jogo que Tati faz entre o humor e a desigualdade social é o que faz o filme mais interessante, apesar de algumas vezes parecer uma repetição de cenas. As músicas, também, refletem bastante o caráter atrapalhado de Hulot, que não consegue encaixar-se no modo de vida industrial.

No entanto, se durante o filme há uma vontade de conhecer o bairro de Hulot e morar nessa sociedade ideal, já em seu final, a chegada da modernização no tradicional deixa uma ponta de tristeza. A melhor parte do filme é arrancada para ceder lugar às novas construções francesas, ao novo estilo arquitetônico. Hulot muda de vida, industrializa-se. Isso remete à falta de esperança de Tati em relação à situação da França, que nunca mais seria a mesma com a chegada da modernidade. O final da película não é alegre, tão pouco o do brasileiro, já que os aspectos políticos e econômicos do Brasil estão encaminhando o povo cada vez mais para o individualismo e padronização.

Seus 117 minutos são um tanto duros de assistir, mas pode ser um reflexo da alienação que causa a produção em massa de Hollywood. O filme é um tanto parado e apesar do crítica à situação industrial, não há uma cena de reviravolta. No entanto, pode-se dar boas gargalhadas com algumas brincadeiras das crianças e de Hullot. Principalmente na cena em que os meninos chutam o carro dos motoristas e os fazem pensar que houve uma batida. É um filme inteligente e espirituoso que vale a pena ser assistido.

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