Um novo tipo de marketing

Sai do vagão com pressa, sem parar. Há segundos gritava e corria de um lado para o outro. Hoje. Ontem. Amanhã. Esmaga-se entre passageiros nos trens e aperta-se nos metrôs. Fernanda tem 23 anos e é marreteira. Sua principal linha é a 12 coral, que liga Luz e Guaianazes.

Lucra entre 100 e 150 reais por dia. Por mês, uns três ou quatro mil. Seria um salário e tanto, se suas sacolas não fossem apreendidas pela segurança das plataformas. O “pessoal de marrom” da linha coral. Eles recolhem a mercadoria e fazem lá um documento para quem quiser retirar. Depois colocam os vendedores para fora. Tem que pagar uma multa, mas é mais cara que a mercadoria. É como se fizessem de propósito. Não compensa.

Os passageiros já até se acostumaram com a gritaria. Cada marreteiro tem seu estilo, seu jeito. Um grita É assim que eles chamam: marketing. Afinal, eles sabem vender.

Parada no meio da plataforma da linha Coral, estava uma senhora de uns 50 e poucos vestida de marrom. Sua expressão era doce, mas o olhar perspicaz, vigilante. Uma segurança, só podia ser. Descobri que era mesmo. Seu nome é Sueli Aparecida Meireles e é ela quem apreende mercadorias. Se pegar, recolhe. Se eles ficarem vendendo na frente da gente, a gente tem obrigação de recolher. Não há uma fiscalização específica para isso.

Assim como Sueli, Paulo Bassolle também é segurança da linha coral e, junto com a equipe, aprende umas 2000 unidades por dia. Apesar da medida, os ambulantes sempre voltam. Por causa desse ciclo de apreensão e devolução sem multa, os vendedores acabam sendo conhecidos pelo pessoal da CPTM. É que muitos só sabem fazer isso da vida, só sabem vender no trem. Tem gente que vende desde que era pequeno e hoje é velho. Eles crescem no comércio.

-Hoje tem vindo muito moleque e cara novo pela situação que está lá fora de desemprego, então eles acabam se aventurando aqui. Quando a gente apreende ou aborda, a gente avisa: ‘Você sabe do risco que corria de acabar tendo a mercadoria apreendida’. Então assim, eles assumiam o risco, sabem que é proibido! Não é crime, mas é uma infração administrativa. Completa Paulo calmamente e com razão. Tem uma lei que proíbe o comércio nos trens ou estações e pessoas pedindo esmolas também. É o Decreto 1832/96. Mas a lei está lá para cumprir tabela. 
 Estão todos conscientes. Tanto vendedores quanto guardas. Quando eles vão vender, tem algum risco. É ganhar ou perder. Três mil por mês ou uma mercadoria apreendida. Mas as sanções são simples. Os vendedores acabam aceitando o risco do comércio e continuam a vender seus produtos.

As sacolas apreendidas são encaminhadas para o Fundo de Soliedariedade de São Paulo. O fim, pelo menos, é social. Paulo conta que a linha 12 tem um convênio com a prefeitura de Ferraz de Vasconcelos. Toda quarta-feira uma kombi da prefeitura para na estação do Brás e recolhe tudo o que vai ser doado para assistência social. Iogurtes, cerveja, cholate e outras comidas, normalmente são destruídos. Não podem ser liberados para consumo. Agora, os fones de ouvido vão pra orfanatos assistidos pela prefeitura. Com o benefício alguém vai ficar.

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