O que fica depois da Olimpíada

Foram três dias n’Os Imortais durante a Olimpíada. Dois almoços olímpicos — o risoto de rabada e a feijoada, coisas que não consigo ignorar num cardápio — e bolinhos de arroz, camarão e mais rabada. E chope, tanto chope que vieram até alguns de graça, pra comemorar gol do Brasil. Por mim essa Olimpíada não acabaria tão cedo, pra gente continuar com esses almoços e com os gritos de “chope, chope, chope!” ali na Ronald de Carvalho.

Saí da Arena de vôlei de praia e andei por Copacabana, depois de pegar muita chuva de manhã, com a camisa do Flamengo. Só tem flamenguista por aqui, diziam alguns desacostumados com o Rio, ingresso pro jogo da tarde na mão de um, boneco de pelúcia na mão de outro. Agora, que eu tô nostálgica com o fim do evento esportivo, quero um Vinícius de pelúcia no meu quarto. Mas que venham as Paralimpíadas com o Tom, que ainda tem muita coisa por aí.

No Parque Olímpico de dez a oito da noite, com alguns copos cheios de skol, a cerveja que não desce redondo, teve “bye, bye, tristeza” na voz de Sandra de Sá, bem no dia em que Robson Conceição ganhou o ouro pra depois criticar a redução da maioridade penal e defender as políticas públicas, mostrando que é mesmo um cidadão de ouro, independentemente da medalha: “Não acho justo punir crianças. Deveríamos é investir mais em projetos sociais e fazer crianças e adolescentes praticarem esportes”.

Foi o que também aconteceu com Rafaela Silva, da Cidade de Deus, que conquistou a primeira medalha de ouro do Brasil e me fez chorar em frente à televisão. Não tem nada mais bonito do que ficar comovido com a comoção do outro. E é exatamente isso que me faz torcer pelos atletas. A vida é esse paradoxo de ser contra a forma como tudo foi construído — e destruído — no Rio pra possibilitar o evento e ser a favor de quem se entrega e supera sobretudo a si mesmo no pódio, na água, no campo, na quadra.

O que fica, afinal, são os impulsos de humanidade. É o choro do Serginho ao se despedir da atuação no vôlei com uma medalha de ouro no peito; é a conquista de Thiago Braz; é o grito de alívio e de alegria dado quando Weverton defende o pênalti; é Isaquias Queiroz, incomparável, merecidamente cogitado a ser o novo nome da Lagoa Rodrigo de Freitas; é um passe entre Marta e Formiga; é o mergulho na Baía de Guanabara; é a Cidade de Deus em festa. Somos o choro que explode quando o riso não comporta a alegria.