Nada em troca

Depois de ter visto O segredo dos seus olhos, talvez meu filme favorito, Ricardo Darín também se tornou um de meus atores preferidos.

Há poucos dias assisti a um filme em que sua brilhante atuação é percebida em gestos mínimos, em hesitações, em sorrisos forçados. Ele interpreta Julián, um homem diagnosticado com câncer terminal.

Quando a porta de sua casa abre pra receber o amigo que veio do Canadá, a expressão de Julián já demonstra a profundidade do filme. Truman revela inquietudes por meio do silêncio.

Apesar desse silêncio, Julián não é um homem que evita falar o que sente, diferentemente de Tomás. Sem hesitar em afirmar que o que importa mesmo são as relações que temos ao longo da vida, como a amizade entre os dois, ele ainda faz questão de dizer ao amigo o que este lhe ensinou. Tomás tenta mudar o assunto, por ser contido e meio sisudo, mas Julián insiste em dizer que aprendeu com ele que não devemos pedir nada em troca àqueles de quem verdadeiramente gostamos.

Julián, desejando alguma manifestação do amigo, pergunta o que Tomás havia aprendido com ele depois de tantos anos de convivência. E a resposta diz respeito à coragem: “Você sempre encarou tudo”. De fato, surpreende a maneira racional como ele encara a morte, a ponto de ir a uma funenária consultar os planos oferecidos. É nesse momento, aliás, que se dá conta de sua insignificância: em caso de cremação, as cinzas cabem em uma caixa bem pequena.

Por ser um filme realista, as reações das pessoas podem não ser como esperamos. Quem tem dificuldade de expressar sentimentos não muda de uma hora pra outra, nem em uma situação extrema referente à morte de um amigo. Tomás, por exemplo, retorna de viagem sem conseguir dizer a Julián o quanto o acha incrível. A frieza incomoda, mas é real.

Com a agonia de saber que alguém está em seus últimos dias de vida, em Truman percebemos o tempo passar nos mínimos detalhes do dia a dia, como no taxímetro rodando ou na colher mexendo o café. Cada minuto ganha uma importância inimaginável.

Preocupado sobretudo em achar alguém minimamente confiável para adotar o cachorro nesses seus últimos dias ao lado dele, Julián faz o que pode — até mesmo o que a rigor não poderia — para que não fique sozinho após sua partida. E emociona ao deixá-lo passar um dia na casa de uma possível família adotiva.

Embora Truman não apareça tanto nas cenas, longe de abordarem uma história como a de Marley & eu, faz todo sentido seu nome ser o título do filme. Além do mais, tempos depois das gravações, o cachorro que interpretou Truman faleceu e Darín chorou por uma semana. O que importa, afinal, são as relações que estabelecemos ao longo da vida.

Após quase duas horas de convívio com Tomás, dá pra gente também aprender que não vale a pena silenciar tanto o amor.

Assim que o filme terminou, desliguei a televisão e me lembrei de quando decidi tirar a máscara que usamos diariamente e dizer “eu te amo” àqueles que são importantes pra mim. A vida passa a ter leveza. E pra isso nem precisamos de uma data especial.