Telemarketing

Tem um número que me liga todos os dias, várias vezes ao dia, há alguns bons meses. Há, talvez, uns dois anos. 
Eu sei que é da Tim. E eu sei o que eles querem. E eu sei também o que vai acontecer se eu atender. E eu sei que todos vocês, meus contemporâneos que são, também sabem como são essas coisas. Então, como vocês devem imaginar, claro: eu não atendo nunca.

Mas hoje… Hoje sei lá… Eu atendi. Porque a vida é incontrolável, porque assim deus quis, não sei explicar o porquê. Não tinha dúvidas de que era da Tim, mas eu quis atender e enfrentar do mesmo jeito.

Pois bem, como todos sabemos, a ligação ficou uns segundos com um chiado mudo até que, então, uma moça veio começar a falar aquilo que vocês já sabem o quê. E teve início, então, um encontro daqueles que, eventualmente, fazem a gente se perguntar… Porque nós nascemos nesse corpo e porque estamos passando por determinada situação. E, afinal de contas, qual o sentido dessa merda toda.

- Boa noite? Senhora Amanda? 
- Isso. 
- Boa noite, senhora Amanda. Meu nome é… Amanda… rs… E eu falo em nome da operadora Tim…

E, então, ela riu. Riu de verdade. Riu leve, riu bonito. Tão bonito que parecia uma moça bonita por detrás da linha, vestida como uma aeromoça, educada como uma aeromoça, de modos contidos como uma aeromoça. Não importa o que aconteça, parece que as aeromoças estão sempre com a calcinha nova e limpa. Um sorriso com boca cheia de batom, cara cheia de base, unha feita cor de tijolo. Quando eu vejo rostos cheios de base, tenho vontade de deitar a cabeça da mulher no meu colo e ficar arrancando a base da cara dela com minha unha, tipo uma raspadinha.

- Então, senhora Amanda, o motivo do meu contato hoje é que…

Amanda falava como quem tem ânimo de viver. Eu dei atenção. Na verdade, eu simplesmente fiquei quieta, sem interrompê-la com algo como “olha, Amanda, muito obrigada, eu agradeço sua proposta, mas no momento não tenho interesse”. Seja no que for…

Eu acho que entendo as pessoas que tratam atendentes de call center como pombos. E talvez eu entenda pessoas que tratam pombos como “pombos”. Na verdade, é gostoso correr atrás do pombo dando aquele chute no ar pra vê-lo levantar vôo. Na verdade, é mais legal que spinner: “Sai, pombo!” e o pombo levanta vôo. Pra novamente pousar logo à frente, e você dar outro chute no ar, e o pombo voar de novo. E ele voa e pousa e foge e briga com outros pombos por comida, e foge, e voa, e caminha atrás de comida, e corre dos chutes. Você nunca atinge o pombo, um pombo nunca se machuca. Ele não se cansa. Ele faz e refaz. Com o mesmo ânimo. Fugindo dos aprazíveis chutes dos rapazes traquinas que saem do escritório e descem para a Cinelândia pra tomar chopp no Amarelinho, ou sei lá, em algum Belmonte qualquer. A vida é tão doce na cidade. Enquanto a gente toma chopp e lamenta nossa vida de merda na saída do escritório, os pombos interrompem nossa diversão compondo um cenário que também é, afinal, nossa diversão.

- Tio, pode comprar um chiclete?

Enquanto os rapazes tomam chopp e os pombos correm atrás de comida, por trás de chutes, eu ouvia Amanda me oferecendo um universo de benefícios da Tim. Eu gostaria de reproduzir aqui quais eram os benefícios, mas eu não prestei atenção. Na verdade, fiquei imaginando como deveria ser o ambiente de Amanda. Imaginei um pacote de cream cracker pela metade sobre sua mesa, enrolado pela parte vazia da própria embalagem. Pensei que ela poderia ter comprado o biscoito na Central, quando chegou pra trabalhar, já que não era cream cracker piraquê, era aquele que vende em quatro pacotes juntos, embalados individualmente. De Saracuruna até a central, Amanda contribui com sua parcela para compor a polifonia olfativa do trem, com seu cheiro de Natura Tododia Frutas Vermelhas. Ela ainda não pagou para a Simone a segunda parcela da compra. Mas tudo bem, ela sabe que a Kelly e a Aline também não pagaram, então ela não é a pior pessoa do mundo.

- Com licença, senhores, desculpe estar incomodando o seu divertimento, mas hoje eu trago aqui pra vocês um delicioso amendoim para vocês estarem tomando com seu choppinho…

A copa da repartição onde a Amanda trabalha é bem legal. Tem uma cafeteira, um microondas, uma geladeira e uma mesa. Sempre tem alguém na copa comendo sua marmita. E é nesses momentos que a Simone mostra para as meninas a revista nova da Natura. Discretamente, Amanda, em sua cadeira, observa Simone sair para a Copa e espera até que ela termine e retorne a seu posto para então tirar seu horário de almoço. Não quer correr o risco de presenciar Simone passando revista sabendo que ela ainda não pagou o que está devendo. Melhor não encontrar. Tão fácil não encontrar…

- Hoje nós estamos com uma promoção que eu acredito que vai estar oferecendo mais benefícios que o pacote que a senhora utiliza atualmente.

- Olha Amanda. Eu não uso nenhum pacote. Nem coloco crédito nunca. Eu não tenho dinheiro, estou desempregada, pode olhar aí no meu histórico que você vai ver que não é mentira, eu nunca coloco crédito.

- Consta para mim que a senhora efetivou uma recarga no valor de 20 reais no dia 17 de junho, senhora Amanda.

Sem reação, continuei em silêncio, um tanto constrangida, e deixei que Amanda seguisse. Imaginei ela descendo da estação, em Caxias, na volta pra casa, e passando no mercado antes de pegar o ônibus até onde mora. É início de mês, tem muitas promoções, mas Amanda vive o eterno dilema entre querer aproveitar as promoções relâmpago e evitar levar muitas sacolas pesadas no ônibus pra casa.

- O pacote que a Tim veio lhe oferecer hoje possui um custo mensal fixo sem a necessidade da senhora estar contratando um plano pós-pago; com esse mesmo valor de recarga a senhora poderá…

Alguma coisa começou a me parecer fora de lugar na fala de Amanda. Creio que ela tenha sentido ter avançado muitas etapas na nossa conversa. Quantas vezes num dia ela consegue chegar no ponto de explicar como funciona o plano?
Amanda ganhou voz, ganhou vida, ganhou gás. Parecia aqueles maratonistas que começam a subir a Brigadeiro Luís Antônio no final da corrida e, por alguma razão, o locutor da TV se entusiasma e levanta a voz como se isso fosse uma grande coisa, equivalente a um atacante avançando sozinho num contra-ataque numa arrancada inesperada numa partida empatada de final de copa do mundo. Eu sempre ouvi o narrador da maratona de São Paulo ficar enérgico quando os corredores começam a subir a Brigadeiro Luís Antônio. E daí que eles estão subindo essa porcaria? Nunca soube o que isso significava. Nunca entendi o entusiasmo. Talvez os paulistanos saibam. Talvez um dia eu entenda. 
E eu também não entendo como um plano de celular poderia tornar Amanda tão vívida, tão cheia de euforia. Por alguma razão que eu não compreendo, Amanda estava subindo a Brigadeiro Luís Antônio. Já havia se passado cerca de um minuto e meio e eu ouvia atenciosamente sua fala, sem prestar atenção no que dizia, sobre cada detalhe do pacote. Em silêncio. Eu ouvia tudo, eu consumia tudo. Amanda falava cheia de ar, parecia até ter um pulmão grande, parecia até ser cheia de vida. Amanda avança para a grande área totalmente desmarcada, e sobe a Brigadeiro livre. Ninguém segura ela agora, nada pode dar errado.
- Então, senhora Amanda, com esse pacote de benefícios a senhora consegue continuar falando e ainda tem um limite diário de dados para Whatsapp, sem a necessidade de contrato no seu cartão…
Nunca imaginei tanta vida vindo de um outro lado do telefone. De um número que me liga há uns dois anos e eu nunca atendo. Confesso que pra decidir atender pensei que pudesse ser alguém que está atrás de mim há muito tempo tentando me oferecer uma vaga de emprego. Eu sempre acho que Jesus vai bater na minha porta um dia, mas vai bater camuflado. Porque ele não deixa de ser um tanto sagaz. Talvez Jesus esteja em pé no meio da Dutra, vestido de laranja e verde fluorescente, balançando uma bandeira o dia todo. Talvez Jesus seja um moleque descalço que te oferece uma cartela de adesivo na mesa de bar enquanto você bebe com o pessoal do escritório. Talvez Jesus volte ao mundo disfarçado de Amanda que fala em nome da operadora Tim. E quem sabe, se você aceitar Jesus, comece a chover papel picado e pá! Você ganhou um caminhão de prêmios!
E se a Amanda for Jesus, sinto que já fiz minha parte. Eu fui até o fim. Mas eu não vou contratar o serviço. É claro que eu não vou. Ei, Amanda! Nós duas sabemos que eu não vou fazer isso. E por que você ainda está aí, como uma aeromoça educada com suas calcinhas limpas? Eu não vou te chutar, mas eu também não vou te dar comida. E eu espero que isso já seja o bastante pra eu ganhar meu caminhão de prêmios de um Jesus que observa a tudo atrás de uma moita com sua câmera escondida. 
- Olha, Amanda. Eu sinto muito. Eu não tenho 20 reais. E se eu tivesse 20 reais, eu não ia gastar com recarga de celular. Você sabe como é, eu estou desempregada. Você também não gastaria 20 reais com celular se tivesse desempregada. 
- Tudo bem, senhora Amanda. Eu compreendo.

Ficamos algumas frações de segundo em silêncio. Eu e ela. Somos vivas. Temos textura e sensações. Talvez ela estivesse imaginando como é meu ambiente. Talvez tenha me imaginado rica e bonita por ter me achado educada. Não sei se ela me achou educada. Mas eu gostei de me imaginar fazendo esse papel. Não sei se fiz bem. Talvez ela tenha tentado imaginar qual dos hidratantes da linha Tododia da Natura eu uso. Talvez tenha imaginado que eu uso um perfume chique. Talvez tenha, por alguns instantes, imaginado estar falando com uma doutora. Talvez uma desembargadora, talvez, sei lá… Alguma coisa muito chique que não consigo imaginar o quê. Qualquer uma dessas profissões que parece que a mulher está sempre com uma calcinha nova e limpa porque não passa 18 horas por dia na rua por causa do trabalho.

- Tudo bem, senhora Amanda… Sendo assim, eu retorno em outra oportunidade. A TIM agradece o contato e uma boa tarde… Obrigada pela atenção. 
Obrigada pela atenção…
Foi tão real. Real como se ela estivesse imaginando meu corpo, meu rosto, meu cheiro. Real como se eu e ela estivéssemos no Tinder. Real como se nós duas nos imaginássemos como pessoas de verdade, vivendo, e não somente executando papeis automáticos, que a gente sempre sabe onde vai dar necessariamente, como a bandeirada do funcionário da Dutra, sempre a indicar um caminho óbvio, já que toda a pista é sempre uma reta de sentido obrigatório.

-De nada, Amanda. Bom trabalho pra você aí. 
Imaginei a moça de Caxias (?) desligar o telefone olhando o vazio, imersa em sua própria mente. Bem como eu, afinal. Olhei uns instantes para o nada. Lembrei de Jesus e o imaginei saindo de sua toca, escondido a nos observar.
“Alguém me tocou…”