A Copa do Mundo na Rússia pode ser a última tentativa de união nacional

Mais do que a principal competição do maior esporte no planeta, a Copa do Mundo deve ser considerada um evento político. Futebol é política, e vice-versa. Como instituição, é parte estrutural da formação de diversos povos e sua cultura, contribuindo para a formatação de seus costumes, de suas marcas, hábitos, vocabulário. Quem ignora o papel do futebol na formação histórica de algumas nações, pouco entende da antropologia social e cultural delas — e nisso estamos inclusos. As seleções nacionais são representantes de seus países muito mais importantes e reconhecidas do que o melhor dos embaixadores. E a Copa, o único espaço pelo qual países frágeis na economia e geopolítica mundial podem derrotar países muito à frente nesses aspectos.

Como Diego Maradona sempre gosta de lembrar, a seleção argentina, na Copa de 1986, entrou em campo contra a Inglaterra, pelas quartas-de-finais, para jogar pelos mortos na Guerra das Malvinas, e não simplesmente para ganhar um jogo. Isso não era restrito apenas aos jogadores: era o sentimento nacional de todos os argentinos. E quando questionado sobre o gol de mão que abriu o placar na partida, El Pibe não teve dúvidas sobre a sensação: “Foi como bater a carteira de um inglês.”

Duas Copas antes, sediada na mesma Argentina, o gênio holandês Johan Cruyff se recusou a defender sua seleção no torneio por causa da ditadura de Videla, que amassava o país sul-americano. Aliás, sediar uma Copa, no aspecto econômico, funciona como um sinal de “ei, estou aqui!” para o mercado internacional, apesar da sede normalmente ter prejuízo gigantesco após o término do evento. É uma forma de se expor ao mundo como um novo candidato ao grupo dos dominantes na economia mundial.

Na França (como mostra, de forma sensacional, o documentário Les Bleus — Un autre histoire de France 1996–2016), a vitória na Copa de 1998 ajudou a amenizar o conflito racial que pairava na nação — entre brancos, negros e árabes — , e a derrota nas duas Copas seguintes o acirrou novamente. A Copa do Mundo também foi capaz de colocar no mesmo espaço de disputa o que um dos muros mais implacáveis da história separava: Em 1974, Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental se enfrentaram pela primeira fase, com vitória da ala soviética (que muitos afirmam ter sido entregue pela parte capitalista para evitar adversário mais forte na fase seguinte). Momento épico.

No Brasil, é dispensável comentar sobre o poder do futebol, instituição que pode ser considerada tão grande quanto a Igreja, e da Copa do Mundo na população — mas podemos pontuar algumas coisas. A primeira Copa pós-Segunda Guerra Mundial foi em terras tupiniquins. Nada mais adequado do que um dos maiores eventos do planeta (à época não tanto quanto hoje, mas já enorme) vir para a América do Sul, longe da Europa destruída e da divisão ideológica que ainda estremeceria o planeta com a Guerra Fria, num País cuja participação no confronto foi discreta (apesar de com partido). Mais do que isso: o Brasil, pós-Estado Novo de Getúlio, que voltaria no ano seguinte, queria se mostrar ao mundo como uma possibilidade. A construção do Maracanã como maior estádio do mundo não era simples art decó, queria mostrar poder, potência, grandiosidade. E logo veio a primeira grande decepção do futebol nacional, motivo de abalo na autoestima coletiva: derrota em casa para o Uruguai, na final. O Maracanã, segundo Armando Nogueira, padeceu sob “um silêncio ensurdecedor”.

A primeira conquista do mundial só viria no período de Juscelino, e a segunda sob o governo do golpeado João Goulart. O tri, com esquadrão formado por Pelé, Tostão, Rivellino, Jairzinho, Gerson, Clodoaldo e Carlos Alberto Torres, veio em momento oportuno para a ditadura militar. Médici, que ansiava por unidade nacional no talvez mais repressivo período do regime, não se acanhou em lançar diversas propagandas e slogans enaltecendo seu ‘vínculo com a seleção’. O País, naturalmente, se uniu em torno da grande conquista no México, e o inocente título da amarelinha, para alguns, virou palanque — alguns porque o próprio ex-técnico demitido da Seleção pouco antes da Copa, o grande João Saldanha, mostrava não cair nessa ladainha ao ser pressionado por Médici: “O general nunca me ouviu quando escalou o seu Ministério. Por quê, diabos, teria eu que ouvi-lo agora?”

A segunda grande decepção e abalo na autoestima nacional viria com o Sarriá, em 1982, quando a Seleção do líder político Sócrates (e que tinha outros jogadores que costumavam frequentar comícios pelas Diretas) caiu diante da mediana Itália. Era quase o fim do regime militar, primeiro ano em que os governadores tiveram de passar por eleição — e que teve Leonel Brizola assumindo o Rio de Janeiro. As conquistas seguintes viriam com a subida ao poder de FHC, em 1994, e de Lula, em 2002. Os tempos seguintes foram de derrotas, ainda que aceitáveis, até o último grande abalo.

Sim, sou daqueles que acreditam que o 7 a 1 para Alemanha contra o Brasil na semifinal da Copa de 2014, SEDIADA AQUI, realmente abalou a autoestima de toda a população brasileira (ou vai dizer que até quem não gosta de futebol não ficou constrangido?) e estimulou concretamente esse cheiro de pólvora que paira sobre o País inteiro. A descrença em nós mesmos; o ódio coletivizado; a divisão cada vez mais marcada e violenta; as crises institucionais; o apagão do aparato político e jurídico, como diria Felipão se fosse Ministro — tudo se materializa quando pensamos no 7 a 1.

Diferente do que a equipe econômica do Governo Temer costuma dizer, não, a economia não está melhorando tanto assim, e apesar de não estar no mesmo buraco sem fim, está longe, muito longe de retomar o caminho de real crescimento. Vivemos uma das piores crises políticas de nossa história. Vemos uma ascensão do fascismo que não era vista desde os tempos da ditadura. O Brasil vive maus bocados, e muito disso passa pela desunião da população, principalmente de setores que se predispõem a mudar o atual status quo, em relação à massa.

Copa traz integração. A última vez que a Champs-Élysées tinha enchido tanto quanto na final da Copa de 98 foi na Queda da Bastilha. Na Copa de 2014, o esboço que vimos disso não aconteceu nos estádios, elitizados (menos quando falamos da torcida argentina, por exemplo), mas sim nas fan-fests, que como o próprio nome diz, foram espaços de festa, miscelânea, diversidade. Mas é muito maior do que isso: Copa traz a união comunitária. A gente não trabalha, a gente pinta a rua de casa, a gente compra camisa falsa do Neymar ou do Ronaldinho ou do Ronaldo ou do Romário, a gente enche a cara e na hora do gol ou da vitória abraça até quem não conhece. Nas quebradas, muitas vezes, uma televisãozinha é o suficiente para que toda a vizinhança se amontoe e torça pela sua representante internacional naquele momento. O País se volta, inteirinho, para um momento em que 11 homens são capazes de mudar, a qualquer instante, todo o seu sistema nervoso. E quem sequer reconhece isso, tem que revisar seu próprio elitismo e sair da bolha.

Acredito que o momento de Copa do Mundo é um dos poucos em que os brasileiros, com mínimas exceções, concordam em algo e estão inclinados para a mesma coisa. Os políticos e empresários sabem disso, e usam muito bem, diga-se de passagem. Usam para vender, para se firmar, para acalmar ou inflamar. Não é só aqui não, no mundo funciona assim. “Ah, mas o problema é que o brasileiro só é patriota durante a Copa” — e qual o erro nisso? A Seleção Brasileira, em todas as suas contradições, fez muito mais pelo brasileiro médio do que boa parte da classe política — e entenderão aqueles que não acham que só o retorno financeiro é positivo em qualquer situação da vida. Outros povos são patriotas em épocas de guerra, é a nossa realidade? Votar conscientemente nas eleições, em uma democracia indireta, não é uma atitude essencialmente nacionalista, e sim um dever cívico para consigo mesmo. O brasileiro ser patriota na Copa é ótimo, porque pelo menos em algum momento ele o é, e em um contexto que impede excessos ufanistas.

Acho que já sabem aonde quero chegar. Sim, a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, pode ser a última tentativa de união nacional antes do choque maior, que tem potencial para ser o clímax do momento que vivemos atualmente: as eleições do ano que vem. Não sei o que vai acontecer até lá (e acredito que muito), quem vai ser presos, quais áudios vão vazar, quantos milhões serão descobertos. Mas acredito que a instabilidade continuará e a cisão será cada vez maior e mais grave.

Quando digo ‘união’, não quero dizer que comunista deve abraçar fascista. É exatamente o contrário. As massas estão dispersas, e a cada momento mais hostis. A população, sem lideranças concretas e que saibam nortear uns aos outros de forma concisa, sem representatividade em qualquer Poder, pode caminhar em um sentido perigoso — e não me refiro só a Guaianazes votar 45 e o morro ajudar a eleger Crivella. O povo brasileiro, em sua maioria pobre, pode se aproximar de caminhos perigosos com a desorientação coletiva. Uma unificação, em prol de causas e lutas que representem a todos, não é uma perspectiva real hoje. Mas se temos um momento em que a união é geral, por um motivo que ultrapassa as barreiras esportivas e abrange todos os campos, aí temos uma situação que pode ser aproveitada.

Em caso de nova vergonha, o fracasso continuará estampado na testa e a tensão social aumentará. Em caso de vitória (ou até mesmo um bom papel desempenhado no torneio, mesmo que sem a taça), unificação momentânea e um bocado de alegria para um povo entristecido. Já ganhamos outras vezes, em momentos até piores, sabemos como é. A torcida futebolística pode ser encarada como uma perspectiva política de organização massiva.

Obviamente essa união seria uma questão paliativa, mas o clímax citado não demorará tanto. Isso já foi usado outras vezes, e continuará sendo, mas de uma maneira ruim. Mas, agora de uma forma positiva, podemos encarar a próxima Copa do Mundo como uma chance. Um momento em que a unificação do povo pode servir como uma reaproximação das massas, como uma contenção do ódio, como uma cauterização na cicatriz. Pelé já parou guerra. Não subestime o poder do futebol, principalmente em uma de suas versões mais influentes, históricas e impactantes.

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