Leomor Loreweaver

“Lobo da Noite”


Os estigmas ao redor da sua figura inspiram o escárnio do povo das árvores, a história sobre sua chegada entre os elfos de Thunderdrum criou um segredo e o interesse de Lady Dindryh Wolfsblood, maga da Ordem do Trovão e membro do conselho dos Artemises, em sua vida o manteve… vivo por tempo o bastante.


É um dia de sol de primavera, o vento que corre por entre os troncos das árvores entra pelas narinas e enche de energia os animais, causa uma leve coceira em função da fertilidade das plantas que carregam o ar de polem. A vida em uma sinfonia canta em uníssono à expansão, à evolução. Lobo da Noite acordo em meio a um hecatombe de cheiros, barulhos, sensações vibrantes que poucos conseguem captar.

Retrato de Leomor “Lobo da Noite” Loreweaver feito pela elfa Weiread Tyndril Floak, do Reino da Cachoeira dos Povos Livres do Estado. Tribo que tem afeição por Lobo da Noite.

Ele alonga seu corpo como um animal, soa como um animal ao acordar e se sente como um animal. Ele estica como uma planta para se espreguiçar, ao respirar sente como um planta a energia do sol, o oxigênio. Ele vive a sintonia com a mata e seu corpo assim é forte como a rocha, sua vontade é tenaz como fogo, seus pensamentos livres como o ar e seu corpo ágil como água.

Ele cria, todos os dias, essa imagem de si mesmo. Ele se conecta com sua verdadeira mãe, A Floresta. Ele ama sua avó, A Natureza, e seu avô, O Sol. Todos os dias ele reforça esse estado mental e preserva os ensinamentos de Dindryh, que generosamente o educou. Cultiva a gratidão por Lord Drizzt D’urden, que o encontrou, o salvou e recomendou que fosse educado pela maga elfa da floresta, líder da Nação das Árvores.

Feito de fogo, sangue e rejeição

A Guerra dos Ogros marcou a história de Fallcrest. Por um lado, toda a soberba e corrupção inspirada pelo próprio Lorde supremo da cidade foram esquecidas e o povo se juntou como uma grande massa esperançosa. Para os ricos, foi uma boa coisa afinal. Principalmente para Sir Hill Crave, astuto construtor e arquiteto que prosperou construindo as fortificações, casas para os nobres e dando forma as loucuras do visionário, excêntrico e Sir Moony Fallcrest, descendente do pioneiro Thorn Fallcrest.

Sir Hill Crave era casado com linda Lady Luna Spina, a mais bela e ambiciosa dama da alta sociedade de Fallcrest. Eles tiveram dois filhos antes da grande desgraça que acometeu a família Crave.

A família Spina era a controladora de toda a produção de grãos e cereais de Fallcrest, respondendo por 80% da base alimentar da cidade e sendo os mais ricos e influentes da nobres de todo StromHollow. A família Spina empregava mão de obra orc, que eram escravizados através de um dos negócios paralelos da família, em sociedade com os Crave: aniquilar tribos orcs e escravizar os sobreviventes em “nome do reino”.

Chegou a um ponto de que Sir Spina e Lorde Crave foram chamados pelo governador da província, pois a quantidade de orcs escravizados já era motivo de preocupação do Rei, que conhecia força combativa e o rancor da raça e ansiava se antecipar a uma possível rebelião. Entretanto, a rebelião Orc começara há três meses, quando um dos principais líderes das tribos selvagens das Montanhas do Incêndio, o Rei Cegi, se deixou ser capturado para liderar seu povo a partir dos campos de trabalho escravo.

Aclon Moriat, O Rei Cego dos Orcs da Montanhas do Incêndio.

A rebelião explodiu no dia da reunião entre Spina, Crave e o vice-rei Cronli. Então a Revolta dos Orcs foi o dia mais sangrento da história. Os escravos mataram por vingança e também por prazer. Cada círculo da cidade pelos quais eles avançavam recebia uma onda de violência. Não sabia-se o que era mais forte, a força dos rebeliões ou a liderança de Aclon Moriat, O Rei Cego dos Orcs da Montanhas do Incêndio. Como uma tsunami eles chegaram a cidade alta e não atacaram uma só casa, exceto a vila onde vivia o clã Spina-Crane.

Ouvindo os rumores a maga líder das tribos da Nação das Árvores e chefes das demais regiões livres do Estado se uniram, não para ajudar o povo ganancioso e corrupto de FallCrest, mas para restabelecer o equilíbrio entre o as forças do bem e do mal e cessar o banho de sangue. Eles formaram o grupo de elite que depois fora tanto temido quanto respeitado sob o nome de Artemises da Floresta Thunderdrum.

Quando os Artemises chegaram a cidade alta viram a cena de violência contra a casa Spina-Crane. Em meio a cena de pesadelo infernal, um acontecimento atormentou a todos e ainda mancha a história da cidade: Lady Spina sendo violentada por um jovem guerreiro orc, que teve o coração perfurado por uma flecha de um dos Artemises, colocando fim ao ato bárbaro. O Rei Cego dos Orcs fora decapitado e o grupo de elite conseguiu expulsar a força órquica, retomar o controle da cidade e viabilizar a organização mínima para que a Fallcrest pudesse cuidar de si.

A gravidez órquica de Lady Spina

Após o estupro, Lady Spina enlouqueceu. A pedido de seu marido, o alquimista da cidade preparou uma bebida para expurgar toda impureza do corpo dela, esperando que a sua sanidade se recuperasse em uma busca também de evitar que a semente maldita pudesse fecundar a dama de mais alta conta da sociedade.

Lady Spina no dia do seu casamento com Lorde Crane.

A sanidade de Lady Spina não voltou. Em uma pesquisa no Templo do Ar, o pontífice do Estado encontrou raros casos de cópula entre humanos e orcs, todos resultantes de abusos. Quando a fêmea era Orc, não há casos de bebês que tenham sobrevivido. Quando a genitora era humana, os bebês sobreviviam, mas havia uma maldição sobre a mãe:

  • Tomada por um estado de loucura, a mãe do bebê não permitia a proximidade de qualquer pessoa. Ao fim da primeira semana de gravidez, a mãe imediatamente recebia força descomunal, passava a não precisar dormir e detinha o mais aflorado instinto de sobrevivência como acontece com as mães orcs: todos os sentidos aguçados, reflexos ultra-rápidos e instinto de proteção animal. Qualquer um que tentasse se aproximar era morto;
  • Nada, que não seja morte da mãe, era capaz de interromper a gravidez. Os métodos abortivos da química humana, gnomo ou mesmo élfica são capazes interromper a gravidez.
  • A grávida de um orc não apresenta crescimento da barriga. A musculatura se torna tão rígida que a gravidez passa desapercebida até o penúltimo dia; funciona como mais uma ferramenta de proteção.

Um mago da cidade de Fallcrest havia tentado assassinar Lady Spina com uma magia à distância. Mas seus instintos fizeram com que ela ouvisse os sussurros do conjurador, sentisse o cheiro da matéria se alterando ao seu redor. Ela tomou uma faca, quebrou as grades da janela dos aposentos onde fora trancada e antes do conjurador dizer a última palavra de seu grimório, uma adaga lhe penetrou o cérebro através do olho esquerdo. Uma adaga que fora arremessada de uma distância olímpica. Esse fato, e outros, fazem parte folclore da cidade.

Lady Spina e sua aparência meio-orc, tranformação ocorrida na segunda semana da gravidez órquica. O sangue em seu corpo e do Mago de Fallcrest. Servos da Torre Arcana a pegaram bebendo o seu sangue após tê-lo matado — eles também foram assassinados e quem conta a história foi o bardo real, que visitou o lugar e usou magia para revisitar a cena. As páginas do diário do bardo sobre a cena foram escondidas pelo próprio rei.

Lord Crane não poderia tolerar ter um monstro nascido em seu lar. Seus filhos, já adultos, ajudavam o pai nas tentativas de matar o feto, mesmo que a mãe tivesse que morrer junto.

O instinto de Lady Spina lhe dizia que ela iria morrer no parto e que matariam seu bebê assim que ele nascesse. Seu instinto não lhe permitia deixar de pensar em como colocar seu filho em segurança. Seu instinto a fez lembrar do cheiro do homem que matou o orc que lhe violentara, o cheiro que estava impregnado na ponta da flecha que ela, também por instinto, guardou e transformou em amuleto.

Retrato de Lady Spina feito por um popular no dia de sua fuga, nas vésperas do parto.

Sabendo que dia de dar a luz se aproximava, ela usou toda sua força para sair da casa, onde era mantida como prisioneira. Guiada por uma força maior, não foi difícil matar os guardas, matar o próprio marido e todos os que estiveram na sua frente até ganhar a floresta e, literalmente, começar a farejar o cheiro impresso na flecha-amuleto.

Um dia peculiar na vida de Lord Drizzt D’urden

A caminho de uma reunião do conselho dos povos livre do Estado, na praça da Nação da Árvore, Drizzt D’urden caminhava sem pressa, lembrando da última vez em que viu Lady Dindryh Wolfsblood, maga da Ordem do Trovão, responsável pelo batismo da floresta de Thunderdrum, membro do conselho dos Artemises.

Abre parêntese: Ela fora a primeira a atender ao seu chamado para estancar a bárbara revolta dos orcs. Foi ela também que ouviu a confissão de que pela primeira vez o experimentado e viajado ranger, sangue frio e imparcial, Drizzt entrou em choque: a visão do estupro de Lady Spina o tinha envenenado o coração. Ele sentiu ódio, matou por ódio. Deixou seu lado negro tomar conta e decapitou o Rei Cego, o salvador dos Orcs. A consequência disso foi a fúria dos povos bárbaros, a quebra da aliança com qualquer tribo dos povos livre e o ódio aos humanos. Efeito colateral: fora estimulada a aliança entre orcs, que até então tinham uma relação equilibrada e uma rica balança comercial com todas as raças, e as raças do submundo como goblins, ogros. Os inimigos dos humanos e dos povos livres passaram a ser amigos aliados dos orcs. Fecha parêntese.

Ele pensava em Dindryh, como haveria cicatrizado o ferimento em seu busto; o que teria feito com os itens recolhidos do Rei Cego, como teria guiado os bárbaros orcs furiosos de volta para as Montanhas do Incêndio sem ser atacada ou se teria matada a todos com a mesma naturalidade com que respira. Percebeu que pensava nela demasiado, com afeição demasiada. Como que para mudar a sintonia dos pensamentos chacoalhou a cabeça. Sua atenção fora capturada por uma barulho estranho.

Era som de um animal em sofrimento, em agonia. Havia granidos, gritos agudos. Sons de vísceras se rompendo, de ossos se quebrando e rasgando a pele. Cheiro de sangue. Mas em meio aos sons animalescos havia um choro humano conhecido.

As pressas, Drizzt foi em direção ao rio caudaloso e viu Lady Spina sendo rasgada ao meio em um parto que a estava assassinando. Ao se aproximar seu instinto assassino de proteção não foi alertado. Antes vê-lo, ela sentiu o seu cheiro antes mesmo de avistar seu rosto e experimentou paz; levou a mão ao centro do peito onde a flecha-amuleto pendia. Soube, então, que o tinha encontrado e que seu filho estaria seguro.

— Lady Spina, deveria ter me procurado antes! Nós a teríamos dado conforto.

— Cuide do meu filho, não deixe que seu nascimento sangrento o torne mal. Transforme a natureza dele! Disse ela, sentindo o sal do próprio suor nos lábios já frios, semi morta, ensaguentada, entregando a ponta da flecha feita de amuleto.

O bebê nascera em silêncio, deu o primeiro trago no ar sem chorar. Era um bebê diferente! Spina morreu em silêncio, deu seu último suspiro sem ver o filho. Drizzt se quedara impotente, por um tempo. Não sabia o que fazer.

Sua primeira reação foi limpá-lo com a água do rio. Ao pegar a água com uma caneca de prata viu que o rio tinha flocos de gelo de superfície e só então Drizzt se deu conta de que era inverno, fazia um frio mortal. O garoto não sofria, mesmo sendo recém nascido.

Drizzt vestia uma capa feita de pele de Lobo da Noite, um animal raro de pelagem absolutamente negra e linda. Sua segunda atitude foi vestir a criança com essa capa. Precisa mantê-la protegida até tomar sua terceira atitude: levar o meio-orc para a única pessoa que saberia o que fazer: Dindryh Wolfsblood.

Drizzt chamou um pequeno pássaro com sua habilidade de ranger e pediu ao animal que transmitisse o recado a Dindryh: “Levo comigo uma pequenina raridade, um fruto da violência entre orcs e humanos que ajudamos a apartar que podemos ensinar a trilhar o caminho do equilíbrio, ou podemos deixar para largado a própria sorte e vê-lo crescer como uma sangrenta máquina assassina, joguete do mal ou vítima do bem. Preciso que você fique com ele”.

Ao ler a frase “Preciso que você fique com ele” a maga rainha élfica entrou em um transe que o levou.

Quando Drizzt D’urden chegou à reunião do conselho os demais conselheiros haviam sido despensados e Dindryh revelou sua visão, que permanece em segredo até os dias de hoje.

Dindryh aceitou cuidar do bebê meio orc. Ela foi questionada, atentaram contra a vida dela conspiraram contra ela mas nunca com sucesso. O bebê recebera nome de uma linhagem nobre de elfos, mas nunca era chamado pelo nome pelos outros “orelhas pontuda’ as florestas. Ele era sempre chamado de “Lobo da Noite”, pois ele estava sempre envolvido pelo manto de Drizzt, conforme ele crescia ocupava o espaço do manto de forma que sua silhueta verdadeira quase nunca foi vista: em função de uma mistura de acanhamento e respeito, ele evitava mostrar seu rosto.

O Capitão Raiz tentou matá-la quando Lobo da Noite tinha 11 anos. Capitão Raiz era o líder das defesas da Nação das Árvore. Ele era um elfo, ranger e se um dos conspiradores raivosos em função da adoção de um meio orc. A ideia era assassinar Dindryh e Leomar enquanto eles faziam uma caminhada educativa pelos Campos do Veneno.

Quando Capitão Raiz deu o bote o instinto de Leomor foi sagaz e infalível. Com um salto ele pulou contra capitão raiz embrenhado no mato enterrando no coração dele a pequena faca que usava para cortar raízes e ervas conforme a instrução de sua tutora.

Ele pensava que era um animal — e de certa forma era. Mas era o Capitão, homem por quem Leomor tinha afeição, que lhe ensinara os segredos da emboscada, das armadilhas e do arco e flecha. Ele ficou triste, fez-se trevas em sua alegria juvenil por ter entendido, finalmente mesmo que ainda em sua infância, que os elfos da floresta só o toleravam por causa da rainha maga que o adotara e pela influência de seu padrinho, Drizzt. Seria mais fácil se o deixassem morrer!

Mas não deixaram…