O escotismo e o paradoxo de "deus"

Como pessoas e instituições ameaçam o movimento escoteiro com seus dogmas.


Em 1907, através de um acampamento experimental guiado pelo herói de guerra Lord Baden-Powell, nascia aquele que viria a se tornar o maior movimento de educação não-formal do planeta: o Movimento Escoteiro.

Muita coisa mudou desde aquela época, porém, na essência, a organização do movimento se empenha em não deixar os princípios e as tradições originais se perderem.

Para aqueles que estão de fora, entendam que, apesar de possuir um órgão mundial, cada país possui uma ou mais associações que regulam o movimento em seu território e cada região e grupo escoteiro também possui certa independência em sua gestão. Por isso vemos algumas diferenças em como o escotismo é praticado em diversas partes do mundo.

Tradição, porém, evolução

O escotismo evolui, pois é preciso acompanhar as mudanças que ocorrem em nossa sociedade, tecnologicamente, socialmente, economicamente… para, assim, se adaptar e sobreviver.

No entanto, devido à relativa autonomia das associações e grupos escoteiros, enquanto vemos a evolução em alguns lugares, podemos acompanhar até um retrocesso em outros.

Um dos principais alvos de críticas está na promessa escoteira.

Prometo, pela minha honra, fazer o melhor possível para: cumprir os meus deveres para com Deus e minha pátria, ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião e obedecer a lei escoteira.

Ou o original criado por Baden-Powell:

On my honour I promise that: I will do my duty to God and the King. I will do my best to help others, whatever it costs me. I know the scout law, and will obey it.

Isso significa que o jovem deve crer em um deus para fazer parte do movimento escoteiro? E qual deus? E os budistas? E os hindus? E os umbandistas?

O movimento escoteiro prega a diversidade e seus princípios se chocam com o ato de alienar determinado grupo de pessoas.

Assim, com o levantamento desses questionamentos, o movimento precisou se adaptar, levando muitos países a deixarem o nome "Deus" na promessa com um significado mais amplo.

Duty to God: Adherence to spiritual principles, loyalty to the religion that expresses them and acceptance of the duties arising there from — WAGGGS/WOSM RELATIONSHIPS

Essa interessante evolução definiu os "deveres para com Deus" como uma adesão aos princípios espirituais do indivíduo.

Porém, muitas pessoas ainda acreditam que esses "princípios espirituais" somente podem ser encontrados em religiões ou na crença em um "quem". E querendo ou não, cada país é influenciado por sua religião dominante. No Brasil, boa parte dos grupos escoteiros realizam orações em suas reuniões de forma puramente cristã, enquanto outros, aderindo a essa interpretação mais abrangente e tolerante, proferem as orações como forma de desejos e gratidão a algo/alguém não especificado, deixando a cargo de cada indivíduo direcionar silenciosamente essa oração/agradecimento ao deus de seu entendimento e sua própria compreensão ou de sua filosofia.

O paradoxo dos "deveres para com Deus"

Com mais tolerância ou não, a palavra "Deus" na promessa escoteira se encontra com o "D" maiúsculo, contradizendo a questão da diversidade religiosa, afinal, assim, não estamos nos referindo a qualquer deus e sim a "O" Deus.

Os hindus baseiam sua crença em mais de um deus; Os budistas não possuem deuses em sua crença; Ou mesmo os judeus que não escrevem a palavra com esta grafia se incomodando quando a vêem. O quão desconfortável é para essas pessoas fazer uma promessa para "O" Deus?

No entendimento geral, "deveres para com Deus" se tornou algo como a "manutenção da espiritualidade" e, a partir daí, não há mais limites ou crenças que, teoricamente, sejam excluídas do escotismo. Porém, "O" Deus continua lá.

Os Ateus

Há pessoas que até tremem ao ouvir esse nome. Não podemos culpá-las, já que as grandes religiões, em seus primórdios, para sobreviver, tiveram que transformar em hereges ou demônios todos aqueles que não seguissem sua crença. Resta na cultura atual muito disso, principalmente contra aquelas pessoas que não acreditam em deuses ou demônios.

Há uma estimativa surpreendente da quantidade de ateus presentes no movimento escoteiro. A maioria se mantém calada sobre isso com medo de represálias, como uma expulsão do movimento, como já aconteceu há pouco tempo.

Mas os que estão ali dentro, tiveram que passar por um drama mental ao fazerem a promessa para "cumprir os deveres para com Deus". Seja colocando significados diferentes em cima disso, ou simplesmente fazendo o mais grave: não sendo sinceros em sua promessa.

Ora, se teoricamente o escotismo não exclui ninguém por suas crenças, por que deixar, então, naquilo que pode ser considerado o mais importante na vida escoteira - a promessa - um trecho que causa grande desconforto em alguns e obriga outros a criarem uma "gambiarra" semântica para tentar não mentir na promessa?

Mas religião é tabu. Enquanto se prega a tolerância, mexer naquilo que é ligado à religião é inaceitável para os adeptos da crença. Assim, em muitos países, chega a ser inaceitável tocar na promessa quando se trata dos "deveres para com Deus".

Para contornar esse dilema, a Grã Bretanha, berço do escotismo, não mexeu na promessa, porém, criou uma promessa alternativa, onde não há o "deveres para com Deus". Dessa forma, cada pessoa, dependendo do que acredita ou não, escolhe qual das duas promessas quer fazer.

Uma simples adição, que não fere ninguém nem nenhuma crença, foi capaz de dar muito mais valor à promessa escoteira, fazendo com que seus membros sejam 100% honestos ao fazer a promessa - e sem gambiarras mentais.


Mas há quem diga que ao permitir a entrada de pessoas sem religião ou crenças, um dos pilares do escotismo pode ser derrubado, que é a espiritualidade.

Muitas pessoas pensam assim por ligar erroneamente a espiritualidade à espíritos, deuses e/ou religiões. O que é completamente errado.

Espiritualidade é a propensão humana a buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível, à procura de um sentido de conexão com algo maior que si próprio

GUIMARÃES, Hélio Penna.


A espiritualidade

O simples fato de seguir a Lei Escoteira já coloca a pessoa num caminho espiritual. Esse lado metafísico do homem independe de religiões, deuses e profetas. É um caminho particular onde seguimos fazendo o bem, construindo algo para o mundo e para os que estão a nossa volta, contemplando a perfeita imperfeição da natureza que conecta a todos e recebe o nome de "mãe" e entendendo que há um grande mistério por trás do universo.


Todos exercem sua espiritualidade, até os ateus. E se criar uma promessa alternativa seja impensável em países como o Brasil, com a desculpa de que não foi isso que o fundador do movimento promoveu, então estamos sendo hipócritas.

Na época de Baden-Powell a influência religiosa era diferente, assim como a Inquisição na época de Joana d'Arc, o Olimpo na Grécia Antiga e a crença de que levaríamos todos nossos bens materiais para a vida após a morte no Egito dos faraós. Hoje temos, em teoria, mais tolerância, mais entendimento, mais diversidade. Não há mais espaço para pensamentos medievais.

Não só isso mudou. Se o escotismo praticado por B.P. fosse ainda aplicado, exatamente como o era na época, nos dias de hoje, teríamos problemas atrás de problemas, seja com o juizado de menores ou com processos ajuizados por pais de crianças no que se refere a segurança e tratamento dos mesmos.

As coisas mudam. Enquanto a tradição e os pilares do escotismo são intocáveis, a prática e forma como são aplicados tiveram que mudar. Assim, não há argumento válido contrário a criação de uma promessa alternativa e a total aceitação e tolerância independente da crença - ou não crença - e religião do membro.


Uma curiosidade é que o próprio Baden-Powell - e posteriormente o movimento em si - foi atacado por membros da igreja católica que, ao adotar o escotismo, quiseram moldá-lo à sua religião - como é o caso do escotismo católico. No livro "Escotismo: uma espada de dois gumes" podemos acompanhar várias dessas críticas.

[…] A proximidade de B-P com o escritor Rudyard Kipling (este sim um naturalista inveterado), somente colocou lenha na fogueira desta suspeita [A de que BP fora um "Naturalista", o que o autor critica como anti-cristão]. A adoção do Livro da Jângal — a história de Mowgli um menino “educado” por lobos, que se tornou um exemplo de homem — como pano de fundo dos Lobinhos, foi a gasolina jogada na fogueira. Diga-me com quem andas e eu te direi quem és! De fato o Ramo Lobinho é o de mais difícil “conversão” ao Escotismo Católico, devido ao seu exagerado naturalismo […] Um bom homem educado por lobos somente é possível no romantismo pagão. Possível somente em fábulas, como esta de Kipling, que tem um inestimável valor artístico-literário, mas que cria toda uma atmosfera contrária à fé e à moral católicas.

O Escotismo deve preparar o jovem para a vida. Deve ensiná-lo a ser cortês, limpo, honesto e com um caráter impecável. O escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros. E é fato que intolerância religiosa - mesmo que maquiada - não é o caminho para isso.

Não se pode protestar nem mesmo contrariar a expulsão ou não aceitação de um membro — principalmente adulto — que cometa crimes, abusos, é enganador e desonesto ou nem sequer tenta praticar a Lei do Escoteiro. Porém, ao se colocar ateus ou pessoas de religiões "non grata" nesse mesmo patamar, o movimento acaba indo contra a tudo que ele prega. Não é à toa que constantemente artigos criticando o escotismo são publicados, pois, no mundo de hoje, não há mais espaço para a intolerância e preconceito.

Portanto, limpos de corpo e alma, estejamos sempre alerta para servir o melhor possível — com ou sem um deus específico.