Nova York vista de perto

Photo: Justin Brown/flickr

Esta é uma coletânea de pequenas histórias que ocorreram nos últimos anos da década de 80, quando vivi em Nova York. Com apenas 21 anos, tive mais experiências boas do que más na metrópole do planeta. Essa dezena de textos é o resultado de um dos melhores períodos da minha vida e que, de tão intenso, parece que tudo o que vivi lá se passou dias atrás, e não há 20 anos. Tenho grafados na minha memória os episódios que narro aqui e outros tantos que simplesmente resolvi não contar. Estas pequenas crônicas — algumas engraçadas, outras nem tanto — misturam realidade e ficção, embora muitos fatos relatados aqui, de fato, ocorreram. Para preservar pessoas e lugares, optei por criar personagens em vez de revelar seus nomes verdadeiros.

Minha relação com o exterior começou em meados da década de 80. Nem queria ir para algum lugar específico, mas queria ir para algum lugar. Em princípio, meu sonho girava em torno da Europa e sua História, seus museus, seus castelos e sua cultura. Mas quando se tem 20 anos, o destino é um imenso portão de acesso, liberado para milhares de oportunidades. Viajar era tudo o que eu queria. E me preparei para isso. Fiz incontáveis intensivos no Cultural, em Porto Alegre, e adorava traduzir músicas do Neil Young e do Bob Dylan, especialmente, mas também do Led Zeppelin e do Eric Clapton. Achei que serviria para melhorar meu inglês. E ajudou, acredite. Pouco, mas ajudou. As letras ampliam o vocabulário, reforçam o aprendizado de expressões idiomáticas e nos ensinam algumas gírias. Apesar de estudar o inglês yankee, naquela época meu sonho tinha nome e endereço: Londres, Inglaterra. O problema é que eu esqueci de revelar meu desejo ao destino e seus caprichos.

Eu tinha razões de sobra para sustentar minha obsessão por Londres. Pelo menos eu achava que tinha. Meu pai havia morado na Inglaterra e também na Noruega na década de 70 e era — e até hoje é — um grande incentivador dos que querem desbravar o mundo com uma mochila nas costas. Eu passava dias e dias conversando sobre a Europa com meu pai. Os olhos dele brilhavam ao falar sobre suas experiências. Peripécias nos aeroportos, gafes em inglês, passeios de trem pelo Velho Continente civilizado. Tudo aquilo só aumentava o meu desejo de me mandar.

Foi aí que, lá por 1983, meu pai me arranjou um emprego. Era auxiliar de escritório. Ganhava pouco, mas como não precisava ajudar financeiramente em casa, a grana defendia as festas e dava para comprar algumas roupas, discos e ainda conseguia trocar algum dinheiro por dólares. Fiz isso durante cerca de dois anos. Assim, minha viagem para o Exterior começou a deixar o campo das conversas na cozinha da casa do meu pai para ingressar na esfera das possibilidades. Aos poucos, senti que meu sonho se aproximava da realidade. E comecei a fazer conjecturas e levantar informações. Quanto custaria o aluguel de um apartamento? Quanto de dinheiro eu precisaria levar para me manter por alguns meses? Como seria lavar louças em um restaurante ou entregar pizzas? Enfim, tratei de começar a virar minha cabeça para a Zona Norte de Porto Alegre. Mais precisamente para o Aeroporto Internacional Salgado Filho.

Descobri que uma amiga vivia em Londres. Quero dizer, sabia que ela vivia entre Londres e algum outro ponto da Europa. Não era uma grande referência na sobriedade londrina, mas era melhor que chegar lá e não ter ninguém para dizer Olá, como foi de viagem? ou Seja bem-vindo! Tinha receio de chegar a um lugar completamente diferente, com outro idioma, outros costumes, outras regras, outro tudo. Acho que também tive medo de ter medo. Porque o medo fora de controle pode colocar tudo a perder. Meu antídoto contra esse sentimento era a determinação. Eu estava determinado e empolgado.

Havia retirado o passaporte na Polícia Federal, e o envelope que guardava no meu armário já estava ficando mais gordinho de notas de dólar de baixo valor. Enfim, o planejamento da minha sonhada viagem caminhava a passos firmes. Era primavera de 1985, e a ideia era embarcar entre janeiro e fevereiro do ano seguinte. Foi quando recebi uma notícia desanimadora. Minha amiga que vivia em Londres havia partido para um lugar incerto e não sabido. Pânico total. Meus contatos na Europa tinham se reduzido de uma viva alma para ninguém.

Fiquei confuso, inseguro e não sabia exatamente como lidar com a sensação de que toda aquela expectativa estava ficando no quase. O pior é que eu só tinha um único, solitário e escasso plano de viagem. Só tinha o plano A. Eu não tinha um plano B! Consumi alguns dias e muitas noites para me reabilitar do golpe que ele, o destino, havia me dado. Fritei neurônio para encontrar uma alternativa. Custei a admitir, mas tinha de começar do zero. Escolher outro lugar, outro país e, se possível, outro contato. Era preciso voltar à cozinha do meu pai. Entre pizzas e cervejas, novas conversas. Cada gole, uma ideia. Cada pedaço de calabresa, uma cidade diferente. Numa noite quente e mormacenta, pouco antes do meu aniversário, em novembro, deixei a casa dele um pouco afetado pelo consumo de Budweiser, mas feliz e eufórico novamente. Tinha mais que um novo lugar para sonhar. Eu deixei o prédio da Avenida Independência com uma nova cidade para viver a experiência mais incrível da minha vida: Nova York.