Adeus velado

Lembro, com nitidez, você me dizendo que quando se importava, você se importava escancarado. Que era notável. Quando não se importava, porém, ficava no outro extremo: você deixava passar e nem percebia o quanto deixava passar. Pois você literalmente não se importava.

Lembro, também, que estava alcoolizado na última vez que te busquei. Te busquei pois sabia que você não me buscaria. Falei mais do que devia, como era de costume. Me abri desnecessariamente. Sentia suas respostas sendo apenas como bolinhas de pingue-pongue; você as rebatia, mas elas não queriam dizer nada. Eu me esforçava para me manter no jogo mesmo sabendo que você estava no piloto automático.

Após algum tempo, ao menos, você cedeu em algo: em reconhecer que tivemos um momento, mesmo que tenha sido só um momento, onde algo foi especial. Você admitiu que havia sido especial, e estranhou o porquê de nunca termos repetido ele. Havia ficado uma pendência. Nós dois sabíamos disso. E em todo esse tempo, eu só me perguntava se você lembrava disso também.

Talvez você estivesse esperando que eu trouxesse o assunto à tona. Eu havia te habituado a esperar, pois você já sabia que eu viria.

Assim acertamos. Havíamos ficado de nos ver novamente, e com isso nos veríamos no próximo fim de semana. Repetiríamos aquele momento. Pagaríamos aquela pendência que ficou no ar.

Prometi a mim mesmo, sem alarde, que não te buscaria mais a partir daquele dia. Pois você já havia deixado claro que só se importava em extremos; então, se você se importasse algo, você apareceria.

Nunca mais nos falamos desde então. Ninguém tocou no assunto.

A saída prometida nunca ocorreu. Nem me importei. Eu já sabia que não ia ocorrer.

Tudo ocorreu precisamente como eu esperava, e eu não lembro a última vez que me senti tão, mas tão sossegado em saber de antemão que o compromisso marcado se tratava de um silencioso adeus.

Poucas pendências emocionais importam mais do que aquilo que se quer saber. Às vezes, tudo o que queremos é provar a nós mesmos que nossa intuição estava correta. Passado isso, todo o resto é irrelevante. Até mesmo as paixões.