Antena/televisão


Faltam 142 dias para o fim do ano. Parece menos. Sente menos. Minha eterna impossibilidade em segurar o tempo faz a minha percepção dele parecer radicalmente diferente do que ele realmente é. Ansiedade e outras mudanças de humor modificam toda a sua forma de ver o mundo. Você o vê através de uma lente, que não é exatamente a mesma da realidade. É assustador o quanto da nossa vida se passa dentro das nossas próprias cabeças. Isso não afeta a todos da mesma forma. Alguns menos, outros mais, mas em geral todos estamos suscetíveis a isso e ninguém está inteiramente a salvo de si mesmo.

Hoje comprei uma antena para a pequena televisão que estava há meses encostada. Recebi ela há tempos, e não a utilizava para nada. Era uma TV pequena, daquelas de tubo, do tipo que quase não se produzem mais atualmente. Tentei ligar uma vez e descobri que a imagem estava amarelada. O dinheiro estava tão escasso por agora que eu nunca conseguia guardar alguma coisa para comprar uma antena para ela. Percebi que o dinheiro não sobraria nunca, então resolvi mandar o foda-se e e comprar a bendita antena mesmo assim.

Fui pra Estrada das Barreiras e procurei algo por lá; aproveitaria e pegaria o pão e alguns remédios pra garganta na volta. Peguei a mais barata que encontrei. Custou apenas seis reais. Pensei em pegar uma que era um pouco mais cara, mas esta outra tinha um amassado nas suas duas hastes de metal e não havia qualquer outra do seu modelo no lugar. Ela tinha a cara de que ia se esfacelar a qualquer momento quando eu tentasse abrir ou fechá-la. Eu já sabia que a antena seria vagabunda não importa qual eu escolhesse, e eu já tinha as minhas expectativas (baixas) bem definidas, então resolvi optar pela mais barata de todas mesmo. Tinha certeza que não seria grande coisa. Acho que o fiz mais pela minha curiosidade de ver qual seria o resultado do que pela utilidade do objeto em si.

Chegando em casa, dito e feito: a qualidade da imagem era horrível. Não só horrível, aliás: ela absolutamente abominável. O forte chuvisco e definição nula das imagens, somada à pequena tela e suas cores eternamente amareladas, tornavam a transmissão uma verdadeira bagunça. Eu até conseguia definir o que acontecia, mas por bem pouco; em geral, era melhor nem olhar para a tela e só ouvir a televisão, sem prestar atenção no que estava acontecendo.

Se eu me incomodei com a aquisição? Nem um pouco. Acho que eu ter saciado a minha curiosidade foi mais recompensador do que a presença de qualquer imagem disforme que agora me acompanhava. Tomamos satisfação nas coisas mais estranhas, nós humanos. Somos estranhos pra cacete; às vezes tudo o que queremos é saber que estamos certos, mesmo que isso venha à custa de decisões bem cretinas.

Fora que, bom, foi seis reais. Eu gastei metade disso só na padaria no caminho de volta.

Dei um jeito de arrumar a antena para que a imagem ficasse menos miserável. Estiquei uma cadeira em direção à TV e e coloquei a antena nela, de forma que esta direcionasse à janela. Eu já imaginava que a imagem seria ruim não importa o que eu fizesse, visto a péssima recepção de celular que temos aqui na área. Aproximar da janela funcionou, e agora já conseguia ver melhor o que acontecia. Menos mal. Assistiria os jornais e alguns programas esporádicos. Não suportava as novelas. Eu sabia que os jornais não me informariam nada do que eu realmente precisasse saber, mas isso era irrelevante. Eu só queria algum barulho de fundo enquanto eu escrevia ou estudava, então pouco importava o que estivesse passando.

Nos dois anos que morei com a minha avó, uns tempos atrás, passei a compreender qual era a função social da televisão e o papel dela na vida do brasileiro. A maior parte dos brasileiros liga a televisão ao acordar e desliga ela antes de dormir. Para as pessoas solitárias, a TV ajuda a combater a solidão. Precisamos daqueles programas matutinos, dos besteiróis da tarde e dos jornais da noite para trazer alguma companhia àqueles que não tem com quem conversar. Não respondemos “boa noite” aos nossos apresentadores no final dos telejornais à toa. Ter a televisão dia e noite falando sozinha é o que dá a muitos a noção do passar do tempo e faz parte do cotidiano de muita gente por aqui. Entender esse pequeno fato sobre a subjetividade do nosso povo me parece bem mais louvável do que aqueles chatos que só sabem repetir — mesmo que com um tanto de razão — o quanto a televisão te aliena e não te faz refletir e blábláblá. A maior parte das pessoas que só repete isso feito gravadores quebrados não conseguem olhar pela ótica de quem tem o objeto como parte integrante de sua rotina diária. E estar certo não te impede de ser chato. Bem chato.

Às vezes uma pequena mudança na nossa rotina ou no dia-a-dia já parece ser suficiente para nos tirar da inércia. Dias novos e cheios de surpresas podem ser muito bons, lógico, mas reconhecer a inevitabilidade da rotina e fazer alguma coisa para mudá-la nos faz um bem danado, também.

Provavelmente passaria mais tempo na sala de estar de agora em diante. Seria bom; ia quebrar a monotonia e o tédio desta casa que tão pouco exalava à vida. Me sentia levemente revigorado. Enquanto o Boechat falava sobre quaisquer notícias haviam acontecido no dia de hoje, eu pegava os meus cadernos e esparramava eles pela mesa da sala. Conseguiria escrever e estudar melhor lá. Faria bem para me dar um pouco de criatividade, acho. Um pouco de movimento. Deixar de ficar tão parado, mesmo que ainda no mesmo lugar.

Abri o caderno e peguei minha caneta. Mãos à obra.