Cartas queimadas


Certos aspectos do romantismo perderam seu teor e sua importância com o tempo. Me vi meio aterrorizado ao perceber que era possível ter amado uma pessoa e nunca ter sabido como era a caligrafia dela, por exemplo. Algo tão pessoal e tão intrínseco às vezes é perdido devido simplesmente à mudança no modo que passamos essas mensagens.

Foram poucos os objetos e mimos que recebi ou que guardei, mas os que guardo, os guardo com bastante apreço. É algo surpreendentemente legal você ter um livro que era de alguém e valorizar mais as pequenas palavras escritas à caneta no topo da folha de introdução do que todo o resto do livro, por exemplo.

O maior valor existe nas pequenas coisas.

O papel de carta, porém, tem se tornado cada vez mais raridade. Esse é um momento que de fato eu nunca cheguei a viver tão bem. Mas só imagino como deveria ser o sentimento das pessoas que guardavam caixas e caixas de pequenas cartas, anotações e pequenos recados. A maioria provavelmente datados, enunciando com exatidão o tempo de cada uma daquelas histórias.

Mas e quando as histórias mudam?

Hoje não temos mais as cartas. Hoje temos as mensagens de texto, os logs de conversa, os comentários nas fotos. Nem um pouco menos importantes: apenas diferentes. Sejam as próprias palavras em uma fonte predeterminada ou os símbolos e emojis que usamos, cada uma daquelas mensagens e o apanhado de todas elas determinam um momento em um determinado ponto do espaço. São história, são emoção e são memória; tudo ao mesmo tempo, em seu próprio jeito.

Recentemente ajudei uma amiga que havia perdido o registro de mensagens dela do Whatsapp e procurava ajuda no Facebook para recuperá-las. Eu sei que ela tinha um namorado que morreu há pouco mais de um ano em um acidente. Sei que eles se amavam muito. Não perguntei, mas acreditei que a lembrança dessas mensagens foi um dos pontos cruciais em ela querer tanto recuperá-las.

Conseguimos recuperar um backup de três semanas atrás no Google Drive. Parecia suficientemente bom para ela. Espero que esteja feliz. Nunca soube a dor de perder assim alguém que se ama, e espero nunca saber, pois não imagino como pode ser o sofrimento.

Já perdi amores em vida, porém.

Passavam de duas da manhã quando eu pensei, comigo mesmo, onde foi que ela havia falado determinada palavra; qual era o contexto daquilo na nossa conversa. Aquela curiosidade que todos nós temos. Foi só alguns instantes depois, porém, que eu percebi que não tinha mais como saber.

Excluí as conversas dela. Nunca pensei que faria isso, mas precisei.”

Havia dito isso há um amigo horas atrás, que já havia me ajudado naquele dia mais cedo, em algo completamente diferente. Nunca sabemos de fato por onde a ajuda vai vir. Me sentia grato a ele.

Hoje não temos mais cartas para queimar. Mas fazemos aquilo que precisamos para nos livrar do que faz peso, mesmo que seja só um tanto perdido de megabytes. Os carinhos, os elogios, as palavras de amor e até mesmo a voz: tudo embora, em dois toques. Não há fumaça. Não há fogo. É um incêndio abrupto e silencioso.

Não costumo chorar, mas lacrimejei por uns instantes; talvez por um alívio. Funcionou. Me sentia mais leve.