
Hidra
Você acorda e se sente cansado. Você sente os seus músculos, ossos e articulações doerem, como se seu corpo tivesse passado por um liquidificador. Você fecha os olhos e a imagem que tem é a de uma Hidra, com seus pescoços e cabeças balançando desordenadamente em uma caótica harmonia. Qual era o seu problema em constantemente relacionar seu estado mental com monstros mitológicos, hein?
Você abre os olhos na tentativa de esquecer o que vê quando os fecha. É infrutífero. Você só queria esquecer tudo aquilo.
O celular e o computador estão desligados. Não apenas offline, ou em modo avião: desligados. Uma mudança assim é essencial para o processo de melhoramento. Nós não somos nós mesmos enquanto ainda estamos esperando por aquilo que não vai acontecer.
Sua garganta pigarreia, seu corpo treme. Você tosse, tosse e tosse, sentindo aquilo preso em sua garganta, e lentamente se arrasta de forma grotesca até ter um lugar onde cuspir. Você imagina que parece um lagarto enquanto se torce e contorce em seu próprio eixo, com os músculos latejando e uma postura disforme. Você se pergunta onde foi para a beleza; de você, de tudo, das coisas. Você se pergunta se algum dia ela existiu.
Você quase sente um pouco mais de energia após se mexer. Você, teimoso, ignora esse aviso do seu corpo e volta ao estado letárgico que sente que lhe cabe. Você nunca foi muito bom nesse negócio de se ajudar.
Em sua cabeça, a Hidra continua acordada e inquieta. As suas cabeças, majestosas, performam uma dança dos pesadelos por trás das suas pálpebras com absurda sincronia. É uma cena grotesca e fascinante. Você nunca imaginou que pudesse haver algo tão assustadoramente caótico e fluido ao mesmo tempo. É uma visão horripilante, que existe vividamente como um fragmento da sua imaginação.
A Hidra cresce. Cresce. Seus pescoços se tornam cada vez mais tortuosos, suas presas cada vez mais reais. Ela se aproxima, e engloba todo o campo de visão do olho da sua mente, até o momento em que você já teme não mais saber onde ela começa e onde ela termina. Você teme não saber mais dissociar a Hidra de você próprio. Você teme que você e ela já sejam um só.
À medida que ela se aproxima, seu tamanho colossal te sufoca. A Hidra está aqui. Ela é você.
Então você corta a primeira cabeça da Hidra.
Você não sabe de onde veio a espada, mas no momento está empunhando-na. Você a segura com toda a sua força, chegando mesmo a sentir seus dedos doerem, mas os seus braços fazem o esforço necessário para que você continue lutando. Você ataca com tudo o que tem, e continua cortando as cabeças da Hidra. Você corta a segunda, a terceira, a quarta, a quinta, a sexta e a sétima. Você imagina que isso seja o fim de tudo. Você nunca entendeu nada sobre mitologias, criaturas, guerreiros ou espadas, mas você tinha em si essa esperança.
Você acredita que a Hidra morre no momento que você corta todas as suas cabeças.
Mas as cabeças da Hidra nunca param de crescer.