Me perdoe se eu não vejo graça no que não tem intensidade


Eu já tentei. Acredite, eu já tentei.

Eu sempre fui aquele tipo de pessoa que parecia ser “um pouco estranha” para as demais. Nunca fui de me entrosar facilmente, não tinha interesses nas mesmas coisas que os outros tinham, tinha uma dificuldade imensa em fazer papo-furado com as pessoas ou estar em situações que não me agradavam. Nunca faltei com a cordialidade com alguém que viesse conversar comigo ou pedir uma informação, mas no momento que a pessoa desencadeava a falar só por falar, desculpe, mas eu fugia nem que fosse mentalmente. Quando você busca por intensidade até mesmo nas coisas mundanas, a existência em si pode se tornar algo meio incômodo — mediocridade, seja nas pessoas ou nas experiências, depois de um tempo simplesmente não serve mais. Você se esforça, tenta ao máximo se enquadrar, aceita abrir mão uma vez ou outra daquilo que te faz realmente feliz para poder experimentar algo fora de sua caixa, que poderia te dar um sentimento de novidade; mas se você não está fulminantemente interessado naquilo, é um esforço em vão. Você não consegue se contentar com pouco — e por vezes tem até inveja de quem consegue.

Essa mistura de padrões altos demais com um sentimento de supervalorização — aquilo que vai constantemente fazer os outros pensarem que você é muito chato, exigente ou metido à besta — acaba determinando os pormenores de diversos âmbitos do seu viver. Você não tem paciência para conversas furadas, amizades interesseiras ou relacionamentos sem futuro. Você não consegue ver graça em quantidade “só por contar” pois seu interesse real paira na qualidade das coisas. Você não permite gastar seu tempo, seu dinheiro, sua paciência com aquilo que não te dá todo o retorno que você sente que você merece — e você cria, escolhe, desenvolve e se aperfeiçoa para garantir que você, mesmo, esteja à altura dos padrões que você almeja. Eu não digo isso do dinheiro, ou da beleza, ou de efemeridades assim: eu digo daquilo que verdadeiramente desperta paixões, que tem um gosto diferente de todos os outros e que permanece na sua boca mesmo um longo tempo após ser experienciado. Das coisas que importam.

Eu digo das vivências incríveis, das pessoas espetaculares, dos momentos e das memórias inesquecíveis — eu digo de toda e qualquer experiência ímpar, tão ímpar que permite que todo o resto seja emudecido em um véu de irrelevância, esquecimento e até irritabilidade. Eu digo das coisas incríveis, aquelas que te moldam em seu presente e tracejam o seu futuro; aquelas que fazem de você, você. A vida é um punhado de momentos e experiências, e não tem como todas elas serem precisamente iguais. Elas variam em sentimento, em importância, e principalmente em intensidade. A intensidade nem sempre é ligada ao tempo, por mais que haja uma correlação entre eles que permita que certas coisas perdurem. Mas no fim é a intensidade, e sempre a intensidade, que permeia aquelas que são as suas memórias mais profundas e especiais. As pequenas viagens, as escapulidas nos fins de semana que causam nostalgia a todos os presentes, os pequenos amores que foram, não foram ou poderiam ter sido. O filme que mudou a sua vida, a série que você não conseguiu esquecer, o livro que te fez ter uma nova percepção sobre o mundo. Todas essas coisas, esses pormenores que, de uma forma, fazem seu coração bater mais forte; te permitem esquecer de todo o resto e te levam à um lugar diferente, um lugar aparentemente inalcançável e um lugar especial. Todas essas coisas que te motivam e verdadeiramente moldam a sua opinião, seus pensamentos, suas visões, seus gostos e suas paixões. Tudo aquilo que molda o que você verdadeiramente é.

Então, de novo, me perdoe; me perdoe se eu sumir, se eu deixar, se eu não estiver lá. Me perdoe se eu não quiser conversar tanto, se eu recusar aquele convite, se eu preferir ficar na minha. A culpa não é e nunca foi sua. A culpa é minha. Eu quero certas coisas que nem tudo ou todos tem como prover. Às vezes eu quero demais, e eu também pago o preço por isso. Quando for eu, o rejeitado, eu entenderei isso também; pois o que determina de verdade o quão real é uma intensidade varia de pessoa pra pessoa, de história pra história. Por vezes eu posso simplesmente não ser a intensidade que a outra pessoa procura. E isso não tem problema, também. Nada se encaixa perfeitamente em tudo.

Me desculpe se eu deixar de comparecer, mas eu possuo essa vontade, quase uma necessidade, de estar em um lugar onde meus olhos possam brilhar; onde eu sinta que possa crescer e onde eu sinta que isso tudo pode fazer alguma diferença. Um lugar onde eu sinto que as coisas realmente fazem algum sentido. E talvez você não saiba, mas lá no fundo, isso pode ser justamente o que você procura, também.