
Mudança de cores
Começa rosa, ou até vermelho. Distende-se de todos os limites da realidade e nos cega. A sensação é de um arco-íris. Feito o brilho de uma supernova ou o manto de uma aurora boreal, é uma multitude de cores, todas ao mesmo tempo. Faz-se o branco por trás dos olhos. E o branco é forte. Ele cega. Visto direto, nossos olhos contra a luz, não vemos mais nada.
Permite-se viajar pelo cinestésico, sentir o gosto das cores e o cheiro das sensações. Passeamos pelo laranja. Enchemo-nos do verde. Banhamos no amarelo. Mas as cores, porém, mudam. Nada permanece tanto tempo no mesmo lugar. O verde escurece. Amadurece, enrijece; torna-se madeira, ríspido, e o marrom toma seu posto. O azul antes claro vai se tornando mais e mais escuro. De céu, vamos ao mar; e quão mais profundo se mergulha mais se conhece, e maior é o risco de dar de cara com o que não queremos. Do púrpura faz-se o roxo, cada vez mais forte, cada vez mais intenso. O sangue estancado, que antes fora escarlate, já não corre mais; sobra-se apenas o ferimento que indica que há algo de errado no lugar.
As cores não fazem sons, e daí não temos mais a cinestesia; o arco-íris emudece. As cores que antes vibravam hoje não passam de tons desbotados. As memórias se preservam em sépia, queimadas com marcas de cigarros nas pontas. Tudo que se vê é um breu. Teimamos em olhar para a forte luz branca de forma direta, contrariando o conselho que nos davam nossos avós, e perdemos a capacidade de enxergar no processo. Deixamos de ver as cores.
O fim não tem cor. Morre-se cinza.